HCARV
As duas versões do recital
A diferenciação entre as duas variantes distintas do recital de Salaman e Absal constitui a premissa fundamental para a compreensão da literatura mística persa, frequentemente obscurecida pela confusão entre ambas.
Hunayn ibn Ishaq traduziu uma versão do grego que remonta aos círculos herméticos helenísticos, preservando fragmentos de uma literatura filosófico—religiosa perdida.
Nasiraddin Tusi conheceu esta variante hermética após concluir seu comentário sobre o Isharat, fornecendo um resumo e uma exegese considerada artificial.
Jami orquestrou seu épico místico sobre a versão hermética, e não sobre a variante aviceniana.
Joseph von Hammer—Purgstall menciona uma nota curiosa sobre esculturas próximas a Persepolis que seriam associadas aos nomes lendários de Absal e Salaman.
A segunda versão do recital manifestou—se a Nasir Tusi duas décadas após seu trabalho inicial sobre o Isharat, sendo a única considerada verdadeiramente consoante com as intenções de Avicena.
Nasir Tusi incluiu um resumo desta obra em seu comentário vasto, embora tenha lamentado a necessidade de condensar o texto original para não estender excessivamente a obra.
Juzjani incluiu um recital com este título na bio—bibliografia de
Avicena, o que sustenta a autenticidade da obra encontrada por Nasir Tusi.
O texto aviceniano, apesar da concisão seca e da conexão rudimentar entre episódios, revela—se um recital de primeira importância que conclui a trilogia espiritual.
O nono namt da terceira parte do Isharat dedica—se à exposição das estações ou estágios místicos dos iniciados e gnósticos, conhecidos como arifun.
A obra distingue—se do Shifa e do Kitab al—Najat, conferindo a
Avicena o status tradicional no Irã de pertencer ao grupo dos ahl—e erfan.
Os praticantes da gnose mística possuem o privilégio de vivenciar estados interiores desconhecidos, como se tivessem abandonado a vestimenta do corpo em direção ao mundo sagrado.
Fenômenos invisíveis e visões diretas de seres celestiais ocorrem nestes sujeitos, paralelamente a carismas e dons taumatúrgicos externos.
Avicena utiliza a alusão enigmática para despertar a atenção daqueles que ingressam na via mística: se o recital de Salaman e Absal atingiu teus ouvidos e seu desenvolvimento foi bem narrado a ti, sabe que Salaman é uma figura que tipifica a ti mesmo, enquanto Absal tipifica o grau que atingiste na gnose mística; portanto, resolve o símbolo, se puderes.
A interpretação da alusão de Avicena exigiu uma exegese espiritual pessoal, tarefa à qual se dedicaram comentadores como Fakhraddin Razi e Nasir Tusi.
Fakhraddin Razi reconheceu que a proposta de
Avicena se enquadra no gênero do enigma, onde propriedades são declaradas de forma congruente a algo, mas sem identificação absoluta.
Anne Marie Goichon e Nasir Tusi contribuíram para a preservação e tradução destas diretivas e comentários que serviram como livros de texto ao longo dos séculos.
Qutbaddin Razi realizou comparações entre os comentários de Nasir Tusi e Fakhr Razi em sua obra Muhakamat.
A intuição de Fakhraddin Razi identificou em Salaman a representação de Adão e em Absal a figura do Paraíso, integrando o mito do Antroppos e a história da Psique.
Nasir Tusi enfatizou os símbolos da busca e do seu objeto, onde Salaman seria o herói buscador e Absal a meta alcançada gradualmente.
Sadra Shirazi cita Salaman e Absal, juntamente com Hayy ibn Yaqzan, em suporte à doutrina da pré—existência da alma.
Ibn al—Arabi (não o autor das
Futuhat) é mencionado em relação a uma história árabe sobre dois prisioneiros chamados Salaman e Absal, que Nasir Tusi considerou desinteressante e desconectada da referência de
Avicena.
A descoberta da versão aviceniana por Nasir Tusi forneceu a chave para a referência enigmática do Isharat, embora o texto completo original de Avicena não tenha sobrevivido.
Suhrawardi conhecia o texto e o mencionou no prólogo de seu Recital do Exílio Ocidental, juntamente com Hayy ibn Yaqzan.
A versão hermética traduzida por Hunayn ibn Ishaq e o resumo de Nasir Tusi permitem identificar Absal como o herói arquetípico da conclusão mística do Isharat.
A versão hermética de Salaman e Absal
A variante hermética do recital exibe traços de simbolismo alquímico empregados para registrar as fases da transmutação espiritual do homem carnal no homem espiritual.
A alquimia é concebida como uma liturgia ou projeção do ascetismo interior, uma prática inseparável dos eventos da alma.
Stephanos, contemporâneo de Heráclio, e o alquimista egípcio Jildaki representam a tradição desta arte hierática.
Tughrai manifestou polêmicas contra certas posições de
Avicena nesta tradição.
O programa de transmutação realiza o que Platão anunciou no Fédon sobre a filosofia como prática de separação da alma.
O rei Hermanos, filho de Heraql, governante do Império Bizantino e da Grécia em tempos anteriores ao dilúvio, possuía conhecimentos profundos de teurgia e astrologia.
Hermes e Agathodaimon são figuras centrais associadas à construção das pirâmides como monumentos teúrgicos contra a destruição pelos elementos.
Akliqulas, o divino, mestre de sabedoria e iniciador do rei, dedicou—se a práticas espirituais no Sarapeion por ciclos extensos.
Diante da recusa do rei em se aproximar de mulheres, Akliqulas propôs uma operação alquímica utilizando uma mandrágora para gerar um filho sem união física.
O nascimento de Salaman através deste processo simboliza o nascimento do corpo da ressurreição ou filho do filósofo.
Sophia aparece em iconografias apresentando a mandrágora a Dioscorides, simbolizando a união com a sabedoria.
Uma jovem de grande beleza chamada Absal foi encarregada de nutrir e cuidar de Salaman durante sua infância.
O sábio Akliqulas previu o dilúvio de fogo e água e instruiu a construção de edifícios de sete andares com portas secretas para o refúgio dos sábios.
Seth e seus filhos teriam inscrito conhecimentos em estelas de argila e pedra para preservá—los da destruição profetizada por Adão.
A alquimia, como ciência do equilíbrio, prescreve a combinação de fogo e água, uma união de opostos presente no anúncio de
Zoroastro sobre o Saoshyant.
O afeto de Salaman por Absal transformou—se em amor apaixonado, levando o jovem a negligenciar o serviço real e os deveres para com seu pai.
O rei Hermanos exortou o filho a buscar o mundo da luz superior e as realidades ideais, abandonando Absal em favor de uma noiva do mundo celestial.
Absal aconselhou Salaman a não ceder às promessas vãs do rei e a revelar o segredo de sua união.
A menção aos anwar al—qahira no texto hermético antecipa o vocabulário de Suhrawardi e a conexão dos teosofistas ishraqiyun com o
Egito.
A tentativa de compromisso entre os estudos científicos e o tempo com Absal falhou, pois Salaman permanecia obcecado pela companhia da jovem.
O vizir impediu o rei de matar Absal, advertindo que a destruição da natureza sensível poderia dissolver os elementos do próprio monarca e impedir o acesso ao coro dos querubins.
Salaman e Absal fugiram além do oceano ocidental, mas foram localizados pelo rei através de instrumentos taumatúrgicos associados aos sete climas.
O rei destruiu as entidades espirituais da paixão dos amantes, submetendo—os à tortura de desejarem um ao outro sem poderem se unir.
O poema de Jami introduz os amantes Wamiq e Azra para expressar a busca pela união mística e a abolição da dualidade.
O desejo de Wamiq é tornar—se a amada, eliminando a distância da separação: o que busco é ser liberto da dualidade, é tornar—me ela; quando o amante entra no retiro da união, ele pode conter apenas um.
Salaman e Absal lançaram—se ao mar, resultando na morte de Absal por afogamento, enquanto Salaman foi poupado por ordem do rei.
O episódio do mergulho corresponde à fase alquímica da nigredo ou solutio, um estágio de morte que precede a regeneração.
Akliqulas prometeu curar o desespero de Salaman e restaurar Absal para a eternidade através de uma iniciação de quarenta dias no Sarapeion.
Durante o retiro, o sábio realizou invocações a Vênus, e Salaman foi instruído a vestir uma túnica idêntica à de Absal.
Após visualizações diárias de Absal, manifestou—se a figura da própria Vênus celestial, cuja beleza absoluta fez Salaman esquecer seu amor anterior.
O período de quarenta dias ressoa com relatos de iniciação na sabedoria hermética onde o deus abre a morada dos sábios.
O amor pela imagem ideal estabeleceu—se permanentemente na alma de Salaman, transfigurando Absal através da sublimação e tornando—a sua companheira eterna.
Ao integrar o que antes considerava exterior, Salaman tornou—se o homem completo e ascendeu à dignidade real do sábio perfeito.
A história foi gravada em sete tabletes de ouro e depositada nas pirâmides junto ao sarcófago do rei.
Aristóteles, seguindo as instruções de Platão, teria acessado as pirâmides durante a campanha de Alexandre para decifrar os segredos das ciências espirituais.
A concordância entre o romance hermético e a definição de Avicena reside na descrição das fases da iniciação espiritual como metamorfoses internas do herói.
Nasir Tusi falhou ao decompor o simbolismo em figuras estáticas e racionais em vez de percebê—las como estados da alma.
No inventário de correspondências de Tusi, o rei representa a inteligência ativa, o sábio é a efusão intelectual, Salaman é a alma pensante e Absal as potências vitais do corpo.
A exegese literal do suicídio como morte física e das pirâmides como matéria e forma ignora o significado psíquico e teúrgico dos eventos posteriores no Sarapeion.
O simbolismo da alma não é redutível a um sistema racional fechado, exigindo sugestões hermenêuticas para decifrar as fases da consciência do adepto.
Pai e filho são a mesma pessoa em momentos distintos: o adepto morre para si mesmo como pai ao engendrar—se como filho real.
O rei—pai simboliza o mundo da consciência tradicional e das normas da razão, enquanto Absal tipifica o mundo feminino das premonições e do amor espontâneo.
A integração destes dois mundos exige a descida às profundezas e a provação da nigredo ou calcinatio.
Salaman surge regenerado do abismo, percebendo que Absal não é exterior ao seu ser, mas uma imagem que ele carrega internamente e que reflete seu contraparte celestial.
A união com a imagem da Afrodite celestial realiza o grande arcano hermético do mas femineus, a conjunção masculino—feminina.
O processo de incubação no Sarapeion opera no mundo intermediário das formas imagináveis, onde o amor carnal é transmutado em amor espiritual.
Ao vestir a túnica de Absal, o iniciado integra a pessoa dela em seu ser, tornando—se Salaman—Absal, o filius sapientiae.
A versão aviceniana de Salaman e Absal
A autenticidade da versão aviceniana encontrada por Nasir Tusi é sustentada pelo catálogo de Juzjani e pela referência explícita feita por Hayy ibn Yaqzan no tratado sobre o destino.
Hayy ibn Yaqzan menciona a castidade de Absal ao ser advertido pelo relâmpago celestial, confirmando o episódio central do recital.
Salaman e Absal eram meio—irmãos; Absal, o mais jovem, destacava—se pela beleza, inteligência e bravura.
A esposa de Salaman apaixonou—se por Absal e tentou seduzi—lo, resultando em uma cilada na noite de núpcias de Absal com a irmã da esposa.
Um relâmpago revelou o rosto da esposa de Salaman no leito, fazendo com que Absal a repelisse e fugisse para conquistar países para seu irmão.
Após ser abandonado no campo de batalha por traição e ferido, Absal foi amamentado e curado por uma fera do deserto.
Absal retornou para salvar Salaman de seus inimigos, mas acabou assassinado por uma bebida venenosa oferecida pela esposa de seu irmão.
Salaman renunciou ao trono, retirou—se para conversas secretas com o senhor e, após descobrir a verdade, puniu os culpados com o próprio veneno.
O recital descreve, em forma dramática, as experiências e estágios da via mística que a exposição teórica do Isharat tenta analisar.
Absal tipifica o intelecto contemplativo, o anjo terrestre cuja vocação é unir—se ao anjo espírito santo ou inteligência ativa.
Salaman representa o intelecto prático, a face da alma que atua no mundo material sob a instrução da primeira.
A esposa de Salaman simboliza as potências vitais conectadas à matéria elemental e os apetites concupiscíveis e irascíveis denunciados por Hayy ibn Yaqzan.
A irmã da esposa, uma figura de ausência e silêncio, representa a noiva celestial e a iluminação da inteligência ativa.
A quaternidade das figuras reflete a ambivalência da própria alma, voltada simultaneamente para o abismo ocidental e para as alturas orientais.
O relâmpago que corta as nuvens não é mera êxtase, mas o evento psíquico que desperta o intelecto contemplativo para a realidade das coisas sensíveis, iniciando suas batalhas.
As conquistas de Absal no oriente e ocidente simbolizam a oferta do intelecto à iluminação das formas inteligíveis sob a guia de Hayy ibn Yaqzan.
A traição dos líderes do exército exemplifica a falha das faculdades psíquicas em acompanhar a ascensão vitoriosa ao oriente.
A criatura do deserto que amamenta Absal é o símbolo das inteligências angélicas puras, os eremitas do deserto.
A morte mística de Absal significa seu desprendimento definitivo do mundo, enquanto Salaman sobrevive para realizar a purificação final das influências demoníacas.
A tipificação das duas faces da alma possui raízes na literatura hermética e no gnosticismo cristão preservado por Zosimos de Panópolis.
Distingue—se o Adão terrestre, homem de carne, do Phos—Luz, homem espiritual e contraparte celestial.
Phos e Adão, ou Prometeu e Epimeteu, formam a mesma polaridade encontrada entre Salaman e Absal, onde a esposa de Salaman equivale a Pandora—Eva.
A alma superior emana do primeiro Nous, sendo uma irmã mais jovem do demiurgo, enquanto a alma inferior é emitida pelas esferas celestiais para governar o corpo.
Absal, como o Nous e homem de luz, é apresentado como mais jovem que Salaman porque o despertar da inteligência ocorre tardiamente na vida do homem.
O homem que subjuga a alma inferior morre misticamente para o mundo e une sua vida aos querubins e inteligências ativas.
A biografia espiritual do arif culmina em um estado onde ele está ausente embora presente, em jornada embora permaneça onde está.
A morte de Absal é a antecipação triunfante pela qual o místico emerge vivo deste mundo.
Os demônios que agitam a alma ofereceram o veneno da amargura ao Absal puro, mas ele agora está liberto para o oriente.
O itinerário começa com o ato de vontade pessoal e a purificação da consciência subliminal para seu despertar.
O amor casto e a contemplação da beleza nas formas sensíveis preparam a alma para o amor no sentido real, revelando o amado real em cada ser.
A conjunção com a inteligência ativa transforma a iluminação intermitente em uma chama estável e em um estado de quietude.
Absal torna—se um Aeon, um universo inteligível que reflete todas as luzes e vive a vida das inteligências angélicas.
Na contemplação final, a alma contempla a si mesma apenas como um espelho que reflete o amado; contemplar a si mesma é contemplar a si mesma contemplando—O.
A liberdade espiritual do gnóstico manifesta—se na compaixão e na coragem, tendo subjugado os poderes da cobiça e da vingança que governam os homens.