MITO DE HERMES E NATUREZA PERFEITA

HCHA

L'Ange de l'Humanité et l'Ange d'Hermès

O motivo do homem e seu Anjo orienta toda uma antropologia cujo princípio e término residem numa angelologia fundamental, culminando na reunião da alma com o ser que é sua origem e seu retorno.

A interrogação central recai sobre a posição hierárquica do Anjo nas hipostases celestes, bem como sobre sua identidade — se é o Anjo-arquétipo da natureza humana ou o Anjo individual conhecido como Natureza Perfeita.

O simbolismo das duas asas — uma de luz e outra de trevas — revela o segredo da sabedoria dos antigos persas e encerra o drama originário do próprio ser do Anjo da Humanidade.

A visão de Hermes institui o mito propriamente sohrawardiano em que a Natureza Perfeita se revela como o Anjo individualizado de cada ser humano, anunciando um modo de ser sizígico com um Duplo celeste.

As invocações líricas de Sohravardi — em Salmos ainda inéditos — exprimem a dominante de seu hermetismo e selam o pacto místico que funda o valor exemplar da êxtase de Hermes.

O texto mais acessível sobre a Natureza Perfeita é a obra de teurgia conhecida em latim como Picatrix — cujo original árabe intitula-se Ghayat al-Hakim (O Objetivo do Sábio) e cujo autor teria vivido por volta do século VIII —, que contém uma longa citação de um Livro al-Istamakhis no qual Aristóteles instrui Alexandre sobre como invocar a Natureza Perfeita.

A visão de Hermes com sua Natureza Perfeita — narrada no Ghayat al-Hakim — descreve uma descida a uma câmara subterrânea obscura varrida por ventos, iluminada por uma chama protegida pelo vidro, da qual são extraídos os segredos da Criação sob a inspiração de um ser de grande beleza que se revela como a própria Natureza Perfeita do visionário.

O Ghayat al-Hakim atribui a Sócrates, invocando o testemunho de Hermes, uma definição da Natureza Perfeita que a constitui como fundamento, raiz e chave de toda a Sabedoria.

A piedade em relação ao Anjo desenvolve uma liturgia que garante sua perpétua Presença — celebração íntima de uma religião inteiramente pessoal, com seu cerimonial próprio no segredo de um oratório individual.

A invocação harrâniana a Hermes — preservada no mesmo livro, no capítulo dedicado às liturgias astrais praticadas pelos sabeus de Harran — retoma termo a termo a invocação que a Natureza Perfeita havia ensinado a Hermes a lhe dirigir, revelando uma identificação entre os termos pelos quais Hermes invoca sua Natureza Perfeita e aqueles pelos quais Hermes é por sua vez invocado.

A relação de Hermes com sua Natureza Perfeita tipifica a situação do Salvador-Salvo, do Invocante-Invocado, do que engendra e do que é engendrado — uma dualitude que não é dualidade de dois seres distantes ou justapostos, mas o mistério de Dois em um Único.

O modo de ser real da alma não é uma solidão, mas um ser-em-dualitude — a alma em sua existência terrestre é o segundo membro de um Todo diádico cujo Eu superior ou celeste é o primeiro —, o que implica uma ontologia que preveja tanto a distensão constitutiva pela presença no mundo terrestre quanto sua resolução.

No mazdaísmo, as Fravartis (persa Farvahar) — literalmente “as que escolheram” — preexistem às almas terrestres como Duplos celestes e anjos tutelares de cada alma, de modo análogo à Natureza Perfeita em relação a Hermes.

A “Liturgia de Mitra” — decifrada por A. Dieterich — contém uma invocação ao “Corpo Perfeito” análoga à invocação que Hermes dirige a sua Natureza Perfeita, identificando-o com o corpus subtile da Ressurreição.

No maniqueísmo, a Natureza primitiva luminosa — glorificada num dos fragmentos de Turfan como “nosso pai e nossa mãe, nossa magnificência, nosso Eu de esplendor” — configura o modo de ser do Si original de Luz designado como Grande Vahman ou Grande Manvahmêd, originando-se do avestico Vohu Manah (neopersiano Bahman), nome que designa no Mazdaísmo o primeiro dos Amahraspands ou Arcanjos.

O motivo do “Duplo celeste” encontra seu desenvolvimento mais expressivo no maniqueísmo a propósito do próprio Mani, ao qual o Anjo aparece aos 24 anos como seu “duplo” ou “gêmeo”, anunciando-lhe que é tempo de se manifestar e de convidar os homens à sua doutrina.

A cosmologia do Ishraq mostra todos os graus do ser ordenando-se em sizígias desde a do Logos-Sophia, de modo que cada Anjo engendra sua alma com seu Céu, e o Anjo-arquétipo da Humanidade engendrou a si mesmo sua Imagem em múltiplas imagens — uma asa de Luz e uma asa obscurecida pelas Trevas.

A consumação dessa unificação post mortem — figurada por alguns gnósticos como uma hierogamia — pode apenas subir à consciência em fugidios símbolos, e os alquimistas souberam configurá-los projetando a unidade do novo ser assim eclodido na imagem do Puer aeternus.

Natureza Perfeita e simbolismo alquímico da Ressurreição

O capítulo final de um opúsculo inédito do alquimista Jaldaki (século XIV) — intitulado, numa evocação de Zósimo, O Sonho do Sacerdote — coloca como figuras-chave da Obra alquímica a Natureza Perfeita e Hermes, marcando com força sua significação por contraste com a impotência dos que Jaldaki chama de ignorantinos.

A transmutação alquímica é percebida e experimentada na conjunção mística de Hermes e da Natureza Perfeita — visualizada em seus substitutos alquímicos, o Enxofre vermelho e o Enxofre branco —, que o sacerdote celebra no Templo de Vênus, voltando-se das prescrições gravadas no ídolo do templo e afastando-se dos Ignorantinos.

A imagem do Filho — do Puer aeternus —, já anunciada como projeção simbólica da reunião final do homem e de seu Anjo, marca a simultaneidade ideal de dois termos opostos: termo inicial e termo final, preexistência e surexistência, o já e o ainda não.

Jaldaki sugere o nascimento dessas fases e a antecipação de sua resolução final pelo próprio nome que impõe ao Filho da Renovação que ele desde já é: Abd al-Karim — “servo da Nobre (Pedra)”.

Transposto em termos de alquimia mística, o motivo de Hermes e a Natureza Perfeita — encontrado em Sohravardi — leva ao limite as significações extraíveis do simbolismo das duas asas do Arcanjo, prefigurando a reunião unitiva do Amante e do Amado cuja nostalgia preenche toda a poesia mística persa.

A ideia de uma hierogamia que se cumpre no fim dos tempos entrelaça os temas da nova naissance, do Duplo celeste e da responsabilidade mística numa complexidade crescente, delineando o horizonte escatológico iraniano tanto do mazdeísmo quanto do maniqueísmo.

Os textos da teologia mazdena descrevem o encontro escatológico com o anjo-Daena como a mais bela das epifanias, em que a alma reconhece sua própria forma celeste construída ao longo da vida terrestre.

A conformação do homem a seu Anjo determina uma responsabilidade recíproca — e degradar essa visão a metáfora ou alegoria destruiria toda possibilidade de compreender o modo de ser sizígico que tanto a visão mazdena quanto a maniqueia postulam.

As pesquisas em torno do motivo do Duplo celeste orientam para uma sofiologia, identificando a Daena com a Sofia e convergindo para o nome do Guia que une todas as figuras angélicas estudadas ao longo do percurso.