7. EPÍLOGO

HCHA

O romance iniciático ismaelita do século X tem um significado que transborda sua época e os limites do ismaelismo, pois sua ação dramática é a “encenação” da parábola do buscador que parte à Demanda da Palavra perdida — e o herói dessa Demanda reaparece em qualquer lugar onde se dê o mesmo “fenômeno do Livro sagrado revelado.”

A afirmação de que o tempo dos profetas não terminou parece estar em contradição flagrante com o dogma oficial do islã — “Após mim, não haverá mais profetas (nabi)” — mas o xiismo a entende como referida exclusivamente à linhagem dos grandes profetas legisladores que trouxeram uma Palavra nova transcrita num livro novo.

O romance iniciático, diferentemente dos textos clássicos do xiismo duodecimano e do ismaelismo, não reconhece diferença essencial quanto ao modo de inspiração entre o tanzil comunicado aos profetas e o tawil inspirado aos Amigos de Deus — ambos procedem de uma mesma inspiração profética.

O que se espera, de acordo com o conjunto da gnose xiita, não é um novo profeta com um novo Livro revelado, mas a culminação do “fenômeno do Livro revelado” no “sétimo dia” que coroa o hexâemero — a manifestação plena do Último Imã que revelará o sentido esotérico de todos os Livros.

A convergência entre a gnose xiita e o joaquinismo cristão dos séculos XII e XIII — Joaquim de Fiore e os joaquinitas — revela uma visão profética comum do reino do Paráclito que transcende as fronteiras das tradições abraâmicas.

O “esoterismo”, assim compreendido, aporta uma luz decisiva para entender o fundo da tragédia do mundo pós-cristão — e talvez de um mundo já pós-islâmico — assim como a ideia joanina preserva secretamente a existência do mundo, da mesma forma que, para os xiitas, é a presença do Imã que permite ao mundo humano continuar existindo mesmo incógnito.

A Demanda do Graal e a Demanda do Imã como “Livro que fala” se revelam como expressões do mesmo fenômeno espiritual fundamental — a busca da Palavra perdida no âmbito do “fenômeno do Livro sagrado descido do Céu.”

O cruzamento dos caminhos da Demanda do Graal e da Demanda do Imã como “Livro que fala” é o ponto onde parecem ter-se dado encontro todos os que entraram na Demanda — ismaelitas, xiitas duodecimanos, joaquinistas do Evangelho eterno e cavaleiros joaninos do Graal.