HCHA
VI. O tempo dos profetas ainda não terminou
O desfecho do diálogo se anuncia quando Salih explica a Abu Malik que o que ele “chama” é reconhecer a equidade divina — formulação aparentemente inofensiva, mas que na teosofía esotérica do xiismo significa que os suportes reais dos Nomes e Atributos divinos são os Imãs e os Amigos de Deus, não uma entidade abstrata.
A questão central é: se a Revelação divina está encerrada e a humanidade nada mais tem a esperar, a Palavra está perdida; se não está encerrada, o Espírito deve fazer aflorar perpetuamente seu sentido oculto — e isso é o tawil, a Palavra perpetuamente recuperada.
Abu Malik afirma com boa consciência: “Afirmo que Deus é único. Nada há semelhante a ele. É equitativo. Não impõe aos homens cargas que não possam suportar.” — mas Salih o interrompe: esses Nomes e Atributos são tão abstratos quanto inúteis.
Salih usa a analogia do fogo: “Se a simples menção do fogo bastasse para queimar a língua, teríamos razão de falar assim de Deus. Mas tu mesmo confessaste: 'não fazemos senão aferrar-nos ao nome da religião.'”
Salih propõe um exercício sobre a grafia árabe de ALLH (Allah) — onde a alif inicial está isolada e as três letras restantes unidas — perguntando: qual dessas letras é Allah? Qual é o Nome? Quem é o Nomeado? A qual dos dois se dirige teu culto?
Abu Malik, abrumado, murmura: “Desta vez a Palavra se foi… A palavra supõe um sujeito que fala, um sujeito qualificado pelo discurso. Ora, Deus transcende todo atributo.” — e Salih precisa: é exatamente essa a questão: qual é o sujeito desses atributos?
A equidade divina não é o atributo moral de uma entidade suprema abstrata — seus suportes reais são os Amigos de Deus, suscitados como contrapesos à ignorância e à limitação humanas.
Deus não criou os seres humanos como sábios, mas como ignorantes — é preciso que essa ignorância seja compensada por um conhecimento diretamente inspirado por Deus (ilm ladoni).
Os seres humanos a quem esse conhecimento é inspirado são os “Amigos de Deus” — e é nisto que consiste a equidade divina: suscitar os contrapesos que equilibram a ignorância dos homens.
Os Amigos de Deus são a equidade divina — o segredo do misterioso equilíbrio em que essa equidade consiste.
Por eles o Verbo divino, embora indizível, é proferido em um Verbo humano audível e compreensível — e sob esse Verbo humano pode ser recuperado o sentido oculto que é o Verbo divino.
A hermenêutica do jovem Lutero entende a justiça divina não como atributo de uma Essência divina em si, mas em sua significatio passiva — como a justiça pela qual o homem é justificado; analogamente, a equidade é aqui o atributo divino pelo qual os Amigos de Deus são transformados nos contrapesos que equilibram a impotência humana.
O tawil é colocado em plena igualdade com o tanzil, pois ambos têm sua fonte na revelação divina — e isso postula que o tempo dos profetas nunca está encerrado.
Há uma ordem de prioridade: o tawil pressupõe o tanzil, assim como o esotérico pressupõe o exotérico; mas é isso apenas — e nada mais — o que determina a prioridade do profeta “falando a Revelação” sobre o Imã “falando a hermenêutica.”
O caso da preeminência de Abraão ilustra o princípio: a revelação de que Ismael e Isaque foram objeto pressupunha a revelação a Abraão.
Salih declara: “O hermeneuta espiritual (sahib al-tawil) aporta com seu tawil um conhecimento que vem do Céu e uma explicação (bayan) que procede do Plérôma supremo; foi-lhe prestado testemunho no próprio Livro.”
Abu Malik responde: “Dou testemunho daquilo de que dão testemunho os Livros revelados, a saber, que o tanzil atesta que cada tawil é uma revelação que vem de Deus (wahy min inda'llah); caso contrário, haveria que desmentir todos os Livros e todos os enviados, pois seu sentido oculto (mana) é o mesmo e o único para todos.”
Só para aqueles que recusam o tawil — a hermenêutica espiritual dos símbolos, a via anagógica do sentido esotérico — está perdida a Palavra.
A requisitória de Salih contra o encerramento do tempo dos profetas apresenta toda a história das religiões como uma recorrência perpétua da mesma traição dos doutores da Lei.
Salih expõe a mecânica da impostura: “Em todas as épocas a situação teve uma origem semelhante: um Satã rebelde, um elemento orgulhoso e obstinado, um doutor da Lei (faqih) hipócrita. Queriam amputar os vestígios dos profetas das virtudes próprias à mensagem profética e constituir entre eles um Estado (dawlat, um poder temporal).”
Os mazdeos atrincheraram-se em seus santuários do Fogo — após
Zoroastro não haveria mais profetas; os judeus afirmaram que não haveria mais enviado de Deus após Moisés; os cristãos, imaginando seu profeta como o próprio Deus em pessoa, pretenderam que Deus não proporia nenhum outro Enviado após Jesus.
Salih dirige-se diretamente ao islã: “Vós, os muçulmanos, não fizestes senão seguir o caminho dos que vos precederam. Vossa comunidade herdou o Livro (o Corão) de gentes indignas; seguiu guias arrivistas; entregou-se ao serviço de mestres que a extraviam; envileceu-se diante de doutores da Lei cheios de orgulho… Seguistes, por medo, homens orgulhosos inferiores a vós, e outros a seu turno vos seguiram com diligência, crendo que essa era a verdade.”
A conclusão explosiva: “Se os povos anteriores (mazdeos, judeus, cristãos) se ajustaram à verdade em maior medida do que vós, muçulmanos, é pelas três marcas que os fazem testemunhar contra vós: 1) os antigos 'povos do Livro' têm sobre vós o privilégio de vos haverem precedido; 2) estais de acordo com eles em reconhecer a verdade da mensagem profética que lhes foi dirigida; 3) ao contrário, nenhum deles deu testemunho de vosso profeta Maomé, nem quanto à sua missão profética, nem quanto à verdade de sua mensagem.”
O versículo corânico (55,29) — “Está cada dia em uma condição nova” — é invocado para concluir: não pertence a ninguém desmentir ou denegar sua ação, “mesmo se cada dia suscita um profeta.”
A requisitória de Salih supera tudo o que se pode ler na literatura ismaelita clássica — e faz compreender melhor o sentido do processo de Sohravardi, Shaykh al-Ishraq, cerca de dois séculos mais tarde, perseguido pelos ulama de Alepo que não distinguiam entre a linhagem imâmica dos hermeneutas espirituais e a linhagem profética dos profetas legisladores.
A ocultação dos Amigos de Deus não é sinal de ausência da Palavra, mas consequência da perseguição perpetrada pelos que negam o ministério hermenêutico dos Imãs — e Salih responsabiliza Abu Malik por essa cumplicidade.
Salih responde à pergunta sobre o sentido da ocultação (ghaybat): “Adornas a injusticia deles com a diadema de tua equidade. Vestes sua jactância com a túnica da legalidade religiosa. E depois te lamentas de que o Amigo de Deus (o Imã) se veja reduzido à ocultação… Se ajudásseis os Amigos de Deus, poderiam manifestar-se ao descuberto. Se abandonásseis os inimigos de Deus, não poderiam impor sua lei.”
Abu Malik admite: “A muitos deles se deu morte.” — e Salih responde: “Teus doutores da Lei sentem grande piedade pela vítima, mas não consideram culpável o assassino.”
O princípio supremo do imamismo na teosofía xiita — duodecimana ou ismaelita — partilhado pelos ishraqiyun, os “teósofos da Luz” da escola de Sohravardi, bem como pelo esoterismo do sufismo, é que a presença do Imã neste mundo — visível ou invisível, conhecida ou incógnita — é condição necessária para a sobrevivência do mundo humano: “o mundo terrestre jamais pode ficar privado, nem por um só instante, daquele que é seu contrapeso perante Deus.”
Para o xiismo duodecimano, esse polo místico é o XII Imã atualmente oculto — que vive o tempo da ocultação (ghaybat); para o ismaelismo, houve períodos críticos em que o Imã devia manter-se na clandestinidade (Imam mastur).
A pergunta decisiva de Abu Malik — “Há para mim um caminho para a vida?” — ecoa a que Salih havia formulado no início do romance, e o diálogo converge para a incorporação de todos à fraternidade ismaelita.
Abu Malik pergunta: “Qual é, então, a solução para tudo isso? Onde está a saída? Em quanto a mim, me protejo contra o castigo divino voltando-me a Deus e buscando o caminho que leva a ele. Concede, pois, este favor a quem te pede, a quem solicita ser guiado pelo caminho reto.”
Salih responde: “Se essa é tua atitude, encontrarás Deus mais perto de ti do que tu mesmo estás dele… Sempre me encontrarás anelante por dirigir-te pelo caminho reto.”
Salih, com os olhos banhados em lágrimas, interrompe seu discurso e vai buscar o Sábio — seu “pai espiritual” e iniciador — para consultá-lo sobre a situação de Abu Malik e seus companheiros.
O autor indica que, passado o tempo necessário de prova, o Amigo de Deus — o Imã ou seu substituto — mostrou sua aprovação para que todos fossem incorporados à fraternidade ismaelita; voltaram para seu povo e por sua vez se tornaram “avisadores”, e por meio deles Deus guiou numerosas criaturas à sua religião.
O autor conclui que seu relato não é uma história forjada pela fantasia, mas um testemunho da Disposição divina que estabelece a continuidade de seus Enviados — e o personagem de Salih é o herói-arquétipo da gnose ismaelita, cuja história é verdadeira por ser exemplar como uma parábola.
“Não é esta uma história forjada pela fantasia, mas um testemunho da Disposição divina que estabelece a continuidade de seus Enviados e determina os sinais que marcam a seus herdeiros (os Imãs), assim como os usos que regulam a formação dos aspirantes. Aqui termina o Livro do Sábio e do Discípulo.”
As parábolas são talvez as únicas histórias verdadeiras — e a história de Salih o é porque é exemplar.