DO SENTIDO MUSICAL DA MÍSTICA PERSA

HCIF

Em algumas páginas gostaria de considerar como me apareceu o fato, que entre todas as místicas que podem nos dar a conhecer nossa ciência das religiões, a mística persa se caracteriza como tendo sempre tendido à expressão musical e como não tendo encontrado sua expressão acabada senão nesta. A sorte da música no Islã não seguiu, ao longo dos séculos, o mesmo curso que no Ocidente; sem dúvida porque aqueles que condenavam o uso não viam nela senão uma diversão profana. Em revanche, o que nossos místicos produziram, é algo como o equivalente do que chamamos música sagrada; e a razão é tão profunda que, se a compreendemos, toda música, na condição que seja dada a sua finalidade suprema, nos aparecerá como não podendo ser senão uma música sagrada. Mas não está aí um novo paradoxo?

RESUMO

O sentido musical da mística persa

A mística persa se caracteriza, entre todas as místicas que a ciência das religiões tem a conhecer, por ter sempre tendido à expressão musical e por só ter encontrado nela sua expressão acabada.

Um hadith da tradição xiita fornece a chave desse paradoxo: o primeiro Imã Ali ibn Abî Tâlib teria dito certa vez diante de seus familiares: “Porque havia em meu coração preocupações que o angustiavam e não encontrei ninguém a quem as confiar, bati na Terra com a palma de minha mão e lhe confiei meus segredos, de modo que, cada vez que da Terra brota uma planta, essa planta é um de meus segredos.”

O prólogo do Mathnawî de Jalâloddîn Balkhi Rûmî — chamado mais correntemente no Irã de Mawlânâ — recela a justificação do paradoxo entre mística e expressão musical.

O indizível que o místico se empenha em dizer é uma história que rompe o que chamamos de história, e que é preciso chamar de meta-história, pois o evento está situado na origem das origens.

A estrutura da audição musical iraníana reflete essa necessidade profunda.

Rûzbehân Baqlî Shîrâzî, no século XII — compatriota de Hâfez de Shîrâz, que o precede de cerca de dois séculos —, é um dos grandes mestres que praticaram o concerto espiritual.

Um amigo e discípulo de Shaykh Rûzbehân estava particularmente inconsolável com sua partida.

A sacralização da música pela mística persa convida a pressentir o sentido de uma “beleza” que hoje uma verdadeira fúria de negação e destruição rejeita no mundo.