SUFISMO E SOFIOLOGIA

HCIF

Há um hadith — uma tradição santa — que tem curso no sufismo iraniano. Encontra-se em um contexto referindo ao templo do Fogo como a uma forma e símbolo do amor divino, subjugando e exclusivo. A este amor, Zaratustra (Zoroastro) deu forma visível nele erigindo o altar do Fogo. Quando os exércitos do Islã triunfaram no Irã, este mistério foi velado ao mundo e se retirou no secreto íntimo dos corações. Mas a pessoa de uma mulher revelou o emblema: a princesa real Shahrbanou, filha de Yazdegard III (último soberano sassanida), que se tornou a mãe do IV Imã dos xiitas, depois de sua entrada na família dos Puríssimos por seu casamento com o Príncipe dos Mártires, o imã Hosayn. Eis porque os próprios lábios do Profeta do Islã enunciaram esta ordem: Não tenhais jamais propósitos hostis ou irreverenciais contra Zaratustra, pois Zaratustra foi no Irã o profeta enviado pelo Senhor de amor.

RESUMO

Soufismo, amor e o Eterno Feminino

Um hadith corrente no sufismo iraniano narra que Zaratustra deu forma visível ao amor divino ao erguer o altar do Fogo, e que, quando os exércitos do Islã triunfaram sobre o Irã, esse mistério se recolheu ao íntimo secreto dos corações — mas a princesa real Shahrbanou, filha de Yazdegard III (o último soberano sassânida), tornou-se mãe do quarto Imã xiita ao se unir ao Príncipe dos Mártires, o Imã Hossein.

O papel das personagens femininas na hagiografia e na teologia do xiismo é de importância extrema, inusitada em relação às concepções do Islã ortodoxo.

A figura de Fátima foi exaltada pelas diferentes correntes da teosophia xiita a um posto em que se podem reconhecer os traços da Sophia celeste, meditada por todas as escolas da gnose.

Há outras regiões do sufismo em que o Eternamente Feminino da Essência divina se manifesta sob símbolos portando outros nomes, mas talvez seja a “Fátima a Fulgurante” (Zahra) que afinal os reconduz como símbolo preceleente.

A medição prolongada da consciência iraniana em seus cenários de picos desnudos que guardam sonhos e visões acaba por impor a continuidade das presenças celestes que transfiguraram essa terra pela Luz sacrossanta do mazdaísmo, o Xvarnah.

A Fravarti é o pressentimento do velho Irã de que nosso eu presente neste mundo não é senão uma parte de nosso ser total.

Para perceber o irreal mais-que-real, é necessário um órgão diferente da razão, dos sentidos ou da fé histórica — é necessário admitir, entre o racional e o sensível, um terceiro mundo: o do imaginável.

O dilema falso de se perguntar se as Damas dos Fedeli d'amore — Beatriz e suas irmãs — eram figuras de mulheres reais ou alegorias da Inteligência-Sabedoria resolve-se pela substituição do conceito de alegoria pelo de símbolo.

A ideia do Deus que é essencialmente tristeza e nostalgia, aspirando a se revelar e a se conhecer num ser que o conheça, dependendo assim desse ser que ainda é ele mesmo mas que nesse sentido o cria — essa ideia só pôde ser professada por alguns cavaleiros errantes da mística.

A ideia de forma ou figura teofânica, essencial a todas as escolas místicas inspiradas em Ibn Arabi ou em Jalaloddin Rumi, é para sempre estranha às profanações dos furores ascéticos.

Ibn Arabi opõe, num esquema de quaternidade, o casal Adão-Eva ao casal Maria-Jesus (Sophia-Christos): ao Feminino oriundo e dependente do só Masculino responde e se substitui um Masculino oriundo do só Feminino.

O poema de Rumi sobre a Anunciação formula o paradoxo do Anjo que é ao mesmo tempo figura visível e morada invisível.