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Onde se explica que o ser não precisa de notificação
A realidade positiva do ser — sua heccéidade — é a mais evidente das coisas, sendo uma presença e uma descoberta imediata, ao passo que sua quididade é a mais obscura quando se trata de representá-la e aprofundá-la.
O conceito de ser é o que menos precisa de notificação, sendo uma evidência e uma patuidade perfeitas, e é o mais geral em extensão entre todos os conceitos.
A ipseidade do ser é a mais própria das propriedades, sendo determinação e individuação, pois é pelo próprio ser que toda coisa individualizada é individualizada, toda coisa atualizada é atualizada, toda coisa determinada é determinada e particularizada.
O ser é individualizado por sua própria essência e determinado concretamente por si mesmo.
Não é possível notificar o ser porque a notificação se faz por uma definição ou por uma descrição, e o ser não admite nenhuma das duas.
O ser não pode ser notificado por uma definição, pois, não tendo gênero nem diferença, é incapaz de tê-la.
O ser tampouco pode ser notificado por uma descrição, pois nada há de mais manifesto e notório do que ele, nem qualquer forma que seja igual a ele.
Quem pretende notificar o ser engana-se, pois só conseguirá fazê-lo por meio de algo mais obscuro — ainda que seja possível despertar o ouvinte e provocar nele uma reminiscência, sem que isso equivalha a uma notificação verbal.
Representar uma coisa em geral significa que seu conceito é atualizado na alma conforme o que existe in concreto, o que vale para os conceitos e quididades universais distintos do ser, os quais existem ora de uma existência concreta, ora de uma existência mental à maneira de sombra.
Toda realidade em ato de ser comporta um único modo de atualização, e o ato de ser — o existir — não comporta existência mental ou lógica (wojud dhihni).
O ser é em si mesmo algo simples, individualizado por si mesmo, sem gênero nem diferença, não sendo nem gênero nem diferença nem espécie nem acidente geral nem propriedade.
O ser dito acidental para os existentes é um conceito resultante de uma abstração operada pelo pensamento, e não a realidade do ato de ser.
Esse ser acidental é um conceito lógico pertencente aos inteligíveis segundos, tais como a reidade, a não-necessidade, a substantialidade, a acidentalidade, a hominidade, a nigritude, e todas as demais abstrações expressas por um nome verbal (masdar).
Essas abstrações são apenas uma imitação (hikayat) de coisas das quais umas têm realidade concreta e outras não.
O ser de que se trata aqui é precisamente “o que é imitado” — uma realidade una e simples que, para se encontrar realizada e atualizada, não precisa absolutamente da adição de qualquer determinante, seja uma diferença ou um acidente, uma classe ou um indivíduo.
Ocorre, certamente, que essas coisas sejam adjuntas ao ser em função dos conceitos e das quididades universais que são atualizados e existem por ele, pois todo ato de ser, toda existência, exceto a Existência primeira e simples — que é a Luz das Luzes — implica uma quididade universal contingente que é o objeto dessas qualificações enquanto atualizada no pensamento.
Essa quididade torna-se gênero ou diferença, elemento essencial ou acidental, definição ou descrição, e outros conceitos universais fazendo função de atributos.
Essas qualificações — que qualificam por essência a quididade — só qualificam o ser, a existência, por acidente.