TERCEIRA PENETRAÇÃO

HCLPM

Do que constitui a essência do ser in concreto

O ser é a coisa mais apta a possuir uma realidade existente, e várias considerações decisivas testemunham esse fato.

1a consideração posta a testemunho

A realidade de cada coisa é seu próprio ato de ser, do qual resultam os efeitos e as eficiências que dela se esperam — sendo o ser, portanto, entre todas as coisas, o mais apto a possuir uma realidade.

Ao atribuir ao conceito de realidade ou de existir — que é uma representação espontânea — o ser de uma realidade ou uma existência, não se trata de uma atribuição comum a várias coisas, mas de uma atribuição primária essencial, não comum a várias coisas.

O ser não é existente porque haveria nele uma segunda existência sobreposta a ele como um acidente — a existencialidade do ser pertence à própria essência do ser.

Todo existente in concreto é outro que o ser, pois comporta uma mistura e uma composição — ainda que apenas para o pensamento — à diferença do ser puro.

A todas as existências — os atos de existir — correspondem realidades concretas, mas seus nomes próprios são ignorados; para suprir a ausência desses nomes, diz-se “a existência disto”, “a existência daquilo”, referindo-se à quididade.

2a consideração posta a testemunho

Quando se diz “isto existe in concreto” e “aquilo existe no pensamento”, o que se entende por concreto (al-kharij, extramental) e por pensamento não diz respeito à categoria dos receptáculos, nem à dos lugares, nem à dos substratos — o que se significa é que a coisa possui uma existência da qual resultam os efeitos e eficiências que dela se esperam.

3a consideração posta a testemunho

Se a existencialidade das coisas resultasse das suas próprias quididades — e não de algo outro — seria impossível tomá-las como predicados umas das outras e pronunciar que uma coisa é uma certa coisa, como quando se diz “Zayd é um vivente” ou “o homem é um caminhante.”

4a consideração posta a testemunho

Se o ato de ser não fosse em si mesmo existente, seguir-se-ia que nenhuma coisa seria existente — a falsidade do consequente implica a falsidade do antecedente.

A proposição de que a existencialidade das coisas decorre da ascendência que as liga ao Ser Necessário é inoperante, pois a existência para a quididade não é como a filiação para as crianças — já que a qualificação das quididades pela existência não é outra coisa que a própria existência delas (cf. parágrafo 28 e seguintes).

5a consideração posta a testemunho

Se o ato de ser não tivesse uma forma in concreto, nenhuma realidade parcial nas espécies — nenhum indivíduo de espécie alguma — teria jamais realidade, pois a quididade não repugna em si mesma nem a ser comum a vários, nem a receber a universalidade conferida no pensamento.

A tese de que a individuação resulta da relação com o Ser Divino individualizado por si mesmo é refutada pelo exemplo dado anteriormente (parágrafo 25), pois a relação de uma coisa com outra pressupõe a individuação de uma e de outra.

A relação, enquanto conceito lógico entre outros, não constitui uma relação nem é um conceito desprovido de autonomia — ela é despojada da nisbiyat, do esse ad, isto é, da ausência de autonomia concreta.

6a consideração posta a testemunho

O acidente é de duas sortes: o acidente que advém à existência e o acidente que advém à quididade — e exemplos de cada sorte mostram a diferença entre qualificação in concreto e qualificação lógica.

Se o existir não tivesse uma forma e uma realidade in concreto, sua adveniência à quididade seria como todas as demais abstrações lógicas que se ligam à quididade depois que esta é positiva e estabelecida.

7a consideração posta a testemunho

Os filósofos declaram que a existência dos acidentes em si mesmos é precisamente sua existência para seu substrato — isto é, a existência efetiva do acidente consiste precisamente em sua imanência a seu substrato.

Se o ato de ser não fosse algo real in concreto — mas apenas algo que o pensamento distingue por abstração na quididade, sendo o existir apenas o verbo ser da cópula — então a existência da cor negra, por exemplo, consistiria pura e simplesmente em ser-negra, isto é, em sua nigritude, e não em sua imanência efetiva a um corpo negro.

8a consideração posta a testemunho

Os graus do intenso e do fraco — nas coisas que comportam uma escala de intensidade e de fraqueza — constituem, segundo os filósofos, espécies diferenciadas pelas diferenças lógicas, e isso ilumina o aspecto do problema aqui tratado.