SADRA

MOLLÂ SADRÂ SHÎRÂZÎ

ṢADR AL-DĪN AL-ŠĪRĀZĪ, Muḥammad ibn Ibrāhīm. Le Livre des pénétrations métaphysiques. Tradução: Henry Corbin. Lagrasse: Verdier, 1988.

A hikmat ilahiya — sabedoria divina — constitui o tipo constante de pensamento que emerge da filosofia islâmica, situando-se etimologicamente como teosophia, distinta tanto da teologia quanto da filosofia nos sentidos correntes.

Para compreender a obra de um pensador como Molla Sadra em seu conjunto, não basta catalogar temas e citações identificáveis, pois a verdadeira tarefa consiste em situar a altura do horizonte e definir as linhas de força que articulam sua doutrina.

A estrutura do pensamento de Molla Sadra não resulta de elaboração artificial, mas é fruto lentamente amadurecido pela experiência espiritual vivida na solidão exaltante de Kahak, conforme o próprio filósofo revela ao leitor na introdução de sua obra magna.

Os termos que descrevem a experiência espiritual de Molla Sadra concordam exatamente com os de Sohravardi e de Mir Damad, revelando sua pertença à escola Ishraqi, que se define como escola da teosophia oriental.

Molla Sadra pode ser chamado, em certo sentido, de aviceniano, porém profundamente impregnado da obra do shaykh al-Ishraq, interpretando Sohravardi segundo sua própria metafísica do ser, que rejeita a vã metafísica das essências.

O xiismo e o ismaelismo partilham uma gnose comum enraizada no ensinamento dos Imãs, e a doutrina xiita duodecimana estrutura-se essencialmente em torno da polaridade entre a shariat (Revelação divina literal) e a haqiqat (verdade espiritual e gnóstica dessa Revelação).

A profetologia islâmica é obra do xiismo porque este colocou seus problemas fundamentais, e a profetologia implica necessariamente a imamologia em razão do fenômeno do Livro revelado, centro de toda religião profética.

O fundamento metafísico dessa profetologia encontra-se na ideia da Haqiqat mohammadiya — Realidade mohammadiana ou Realidade profética eterna —, que possui uma dupla dimensão: zahir e batin.

Por longo tempo o pensamento islâmico foi considerado como limitado aos três grupos dos dialéticos do Kalam, dos sufis e dos filósofos ditos helenizantes, quando xiismo e ismaelismo desempenharam nele o papel principal.

Molla Sadra trava um combate espiritual em duas frentes: contra certos sufis que desprezam o estudo e o esforço do pensamento, e contra os doutores da Lei que mutilam a essência do xiismo instaurando uma nova religião da letra privada de seu batin.

O quarto Imã, Ali Zaynol-Abidin (falecido em 95/714), exprime em um de seus poemas o perigo de revelar a gnose ao vulgo ignorante, e Molla Sadra recorre a esse testemunho para mostrar qual é a ciência que os doutores da Lei não podem suportar.

Molla Sadra explica o papel da meditação filosófica por meio de uma imagem clara em seu comentário do Kitab al-Hojjat: a revelação corânica é a luz que faz ver, mas para que ela faça ver é preciso que o ensinamento dos Imãs levante o véu, e a meditação filosófica é o olho que contempla essa luz.

A espiritualidade dos Ishraqiyun é definida por Molla Sadra, em página muito densa de seu comentário, como um entre-dois (barzakh) que conjuga o método dos sufis puros — tendente essencialmente à purificação interior — e o método dos filósofos, tendente ao conhecimento puro.