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O Verbo do Sufismo (Kalimat al-Tasawwof) — Apresentação da Obra
O tratado de Sohravardi redigido em árabe e inédito até hoje apresenta autenticidade indiscutível, atestada por Shahrazori em sua bibliografia do Shaykh al-Ishraq e confirmada pelos cruzamentos com os demais livros do autor, que nele mesmo remete ao seu grande “Livro da Teosofia Oriental”.
Um dos manuscritos dá ao tratado o título desenvolvido: “Redação de propósitos referentes às realidades espirituais (haqaiq) e explicando as estações místicas (maqamat) dos sufis.”
Os demais manuscritos, seguindo Shahrazori, dão como título Kalimat al-tasawwof — “O Verbo do Sufismo”, isto é, o Verbo tal como o concebe o sufismo.
O termo designa por excelência a alma humana pensante como Verbo, e com ela todas as categorias de seres espirituais que são outros tantos Verbos.
O tratado forma a melhor introdução ao relato místico “O Frêmito das Asas de Gabriel”, onde a noção de Verbo abrange, com as três categorias de Verbos, toda a angélologia e a antropologia.
O tratado comporta vinte e cinco capítulos; os apresentados aqui foram extraídos por sua virtude recapitulativa dos temas expostos nos tratados precedentes e por assegurarem excelente transição para os da segunda parte do volume.
A Noção de Verbo e as Inteligências Querubínicas
Os capítulos III, IV, VI, VIII e XIV explicitam ao máximo a noção de Verbo como designando a alma humana pensante, as Animae caelestes e as Inteligências hierárquicas.
As Inteligências são aqui novamente designadas como Querubins (Karubiyun), remetendo de imediato à angélologia judaica (Querubins).
Cada Querubim é objeto de amor de uma Anima caelestis e é o Oriente da luz que nasce (ishraq) sobre ela.
O imperativo existenciador (Amr) — o ser como tal posto ao imperativo (KN, Esto, Sois!) — explica a designação das três categorias de seres espirituais como Verbos: cada Verbo é esse imperativo; seu ser é do ser posto ao imperativo, nem infinitivo esse nem substantivo participial ens.
Essa ontologia do ser ao imperativo inicial só pode exprimir sua noção do ser na noção de Verbo, pois não é um ser que subsiste como uma coisa após a desaparição de seu autor.
O filósofo xiita Mohsen Fayz Kashani (ob. 1091/1680) observará: “o ser do Verbo procede do sujeito falante (motakallim) — se este se cala, o Verbo desaparece”, como a luz do sol num mundo que é noite por essência.
O Anjo-Espírito Santo e a Cristologia Ishraqi
O tema das Inteligências querubínicas como Verbos faz reaparecer o tema central da Décima delas — o Anjo-Espírito Santo, que os filósofos designam como Inteligência agente — e introduz a cristologia de Sohravardi.
O Anjo-Espírito Santo é chamado em persa de Ravan-bakhsh — dador de almas —, e é para as almas humanas o que o sol é para a percepção visual (Dator formarum).
Os Verbos que são as almas humanas pensantes estão para esse Anjo na mesma relação de amor que cada Anima caelestis para com a Inteligência querubínica de que emana.
Esse Anjo é designado como “Anjo do Cristo” (Rabb nûal-Masih), expressão calcada sobre “senhor da raça humana” (Rabb nu al-insan) — expressão não encontrada em nenhum outro lugar e que introduz e caracteriza toda a concepção sohravardiana da cristologia.
A noção de “pai” no Evangelho de João é compreendida por Sohravardi como qualificação do Anjo-Espírito Santo, “parente celestial” do Verbo que é o Cristo, bem como de todos os Verbos que são as almas humanas.
Essa cristologia pneumatológica é perfeitamente estranha à cristologia histórica oficial e remete a uma cristologia desaparecida, a ser buscada no ebionismo, no arianismo, no nestorianismo — em suma, no judeo-cristianismo e na cristologia de Christos Angelos.
A cristologia ishraqi deve ser estudada paralelamente com a estrutura da imamologia xiita, quanto aos tipos de cristologia que a inspiraram — tanto o monofisismo quanto o nestorianismo.
O capítulo XIX, com concisão segura de si mesma, enuncia a posição de tese cristológica, consolidando e ampliando o capítulo IX.
A Metafísica da Imaginação Ativa e o Mundo Imaginal
Todas as contribuições dos tratados precedentes sobre a Imaginação ativa e a diferença entre o imaginário e o imaginal são aqui recapituladas.
Quando submetida à estimativa (wahm), a Imaginação ativa extravia a alma na combinação de percepções sensíveis — ela é a árvore maldita, a árvore infernal.
Quando a serviço do intelecto, projeta no sensório as imagens intelectivas propriamente metafísicas — ela é a árvore emergindo no cume do Sinai, a Sarça ardente — e produz o evento visionário narrado nos Relatos místicos.
Sohravardi declara que a estimativa (wahm) é Iblis recusando-se a inclinar-se diante do Verbo que é o khalife de Deus: por esse tawil, todos os dados corânicos relativos a Iblis-Satanás devem ser entendidos no nível do Iblis-Satanás do microcosmo humano.
A metafísica da Imaginação culmina no confronto do anjo e do demônio.
A Posição Ishraqi perante as Comunidades do Livro
A tomada de posição de Sohravardi perante as “comunidades do Livro” resulta das retificações operadas na cristologia e na cosmologia mazdaica.
Aos judeus é censurado não consentir na ab-rogação da Torá, sob o pretexto de que isso implicaria um ato de arrependimento da parte de Deus — mas a mudança não é do lado de Deus, e sim do lado dos homens.
Em termos da profetologia do Verus Propheta, os judeus erram ao afirmar que as manifestações do Verdadeiro Profeta se encerram com a pessoa de Moisés.
O romance iniciático ismaelita do século X repreende com veemência os muçulmanos por terem cometido o mesmo erro ao afirmar que a linhagem profética se encerraria com o profeta Mohammad.
O processo movido contra Sohravardi pelos ulemas de Alepo tinha a mesma base: o Shaykh era acusado de professar que Deus pode suscitar um profeta sempre que o quiser.
Quanto aos mazdaicos e zoroastrianos (cap. XXI), Sohravardi opera uma retificação do dualismo da cosmologia mazdaica, condição e prelúdio da declaração solene que se seguirá.
A grande operação consiste em reconduzir o zervanismo a um esquema compatível com o monoteísmo: o surgimento da Trevas se produz não mais no nível do Princípio supremo, mas no nível de um Anjo do pléroma — o Primeiro ou o Terceiro.
Esse neo-zervanismo ou zervanismo retificado encontra paralelo na gnose ismaelita e nos Gayomarthianos mencionados por Shahrastani, e conduzirá Sohravardi a configurar o admirável símbolo das duas asas do arcanjo Gabriel.
A Declaração Solene sobre a Filosofia da Luz dos Antigos Persas
O encontro entre o helenismo e o iranismo na tradição da Ishraq supera em muito os limites de um encontro cujos parceiros fossem apenas o arabismo e o helenismo.
A Ishraq foi o lugar de encontro, no Irã islâmico, entre o helenismo dos sábios considerados como “profetas gregos” e a teosofia dos antigos persas — duas faces complementares da doutrina sohravardiana.
De um lado, a vontade de integrar a tradição do profetismo iraniano à tradição do profetismo abraâmico da Bíblia e do Corão; de outro, a integração de Platão e da tradição platônica à tradição iraniana da filosofia da Luz.
A declaração solene do capítulo XXII: “É a sua alta filosofia da Luz que ressuscitamos em nosso Livro da Teosofia Oriental.”
Sobre o “Livro da Teosofia Oriental”, o próprio Sohravardi declara que “foi inspirado a seu coração pelo Espírito Santo, de um só golpe, durante um dia maravilhoso”, concluído ao fim de Jomada II 582 (16 de setembro de 1186), cinco anos antes de seu martírio aos trinta e seis anos.
“Não tive predecessor para algo como isso” — declarações que marcam para sempre o lugar da Ishraq e dos ishraqiyun na filosofia irano-islâmica.
O hermenêutico do Imã Mohammad Baqir (ob. 115/733), Quinto Imã dos xiitas, formula o princípio de que o sentido interior do Livro não cessa de se cumprir de geração em geração — e é isso que recapitula o imperativo enunciado nas últimas linhas traduzidas: “Lê o Corão como se ele houvesse sido revelado apenas para o teu próprio caso.”
A Comunidade da Sakina — Os Guardiões do Verbo
O grande projeto de Sohravardi explicitamente declarado converge para reunir a comunidade da Sakina, formada pelos “guardiões do Verbo” (hafizu'l-Kalima) do lado oriental e do lado ocidental — aqui no sentido geográfico.
Os “Guardiões do Verbo” a ocidente são todos os sábios gregos, incluindo Hermes — Platão, Empédocles, os pitagóricos e outros.
A oriente são os Khosrovaniyun — Fereydun, Kay
Khosraw e outros.
Todos tiveram a visão da mesma Luz e das mesmas Luzes, cuja “Fonte oriental” — aqui a oriente metafísico — é a Luz de Glória, o Xvarnah.
O conceito de Sakina, cuja designação em árabe é o equivalente do hebraico Shekhina, identifica-se em Sohravardi com a Luz de Glória, o Xvarnah zoroastriano.
A regra hermenêutica é aplicada por Sohravardi não só ao Corão, mas ao livro que contém toda a tradição iraniana em língua persa — o Livro dos Reis, o Shah-Nameh de Ferdawsi.
Sohravardi só teve tempo de aplicá-la a algumas figuras e episódios — suficientes, porém, para marcar em sua obra a passagem da epopeia heroica à epopeia mística, que é toda a história secreta da consciência iraniana.
Essa história secreta é também a de todo buscador espiritual que entrou um dia na via da Busca — e é igualmente a passagem da doutrina do filósofo místico à doutrina tornada evento da alma, da primeira à segunda parte da presente Antologia sohravardiana.