SÍMBOLO DE FÉ DOS FILÓSOFOS

HCAE

A intenção de Sohravardi aqui não é defender aqueles que são, de certa forma, meros teóricos da filosofia. Tal afirmação não estaria em desacordo com o significado dado a toda a sua obra por sua “conversão”, nem com o conteúdo desse “Símbolo da Fé”, que começa com as demonstrações clássicas da teologia filosófica e termina com um longo lembrete do carisma dos profetas e da Sakîna.

É claro que esse tratado não inclui certas teses características da doutrina Ishraqi (luz e escuridão, ideias platônicas e angelologia zoroastriana etc.). Ele contém a teoria da procissão das dez inteligências hierárquicas, que tem sido um clássico desde Fârâbî e Avicena. Isso não deve nos levar a interpretar mal o significado da “conversão” de Sohravardi. Insistimos muito nisso em outros lugares. O jovem xeique nunca foi um peripatético no sentido racionalista da palavra, excluindo a experiência mística de suas preocupações. Ele sempre foi místico. Ele mesmo explicou longamente como o que se desfez durante uma visão interior decisiva foi precisamente a limitação da hierarquia dos seres espirituais ao esquema das dez (ou mesmo cinquenta e cinco) inteligências hierárquicas da cosmologia peripatética. Essa experiência decisiva foi a visão do universo de pura Luz arcangélica com suas inúmeras multidões, todo o universo de l'lshrâq, do “Oriente da Luz”. Mas a busca pelo Anjo pessoal, a aspiração de encontrar aquele que é tanto a Inteligência dos filósofos quanto o Espírito Santo, o Anjo Gabriel do Apocalipse, já havia começado (veja o capítulo IV aqui). Os tratados apresentados aqui fornecem vários relatos precisos dessa devoção ao alter ego celestial.

Portanto, mesmo se colocarmos esse breve “Símbolo de Fé” no início da carreira filosófica de Sohravardi, por exemplo, durante sua estada em Isfahan após seus primeiros estudos em Marâgheh, no Azerbaijão, por volta do vigésimo ano (c. 1175 d.C.), nesse mesmo caso o encontramos no processo de amadurecimento das intenções que sempre foram suas, as mesmas que o levaram a defender os metafísicos.

Uma olhada nos títulos dos quinze capítulos curtos é suficiente para nos edificar sobre esse ponto. O capítulo VII é dedicado à imortalidade da alma, referida como o Espírito Divino (Rûh ilâhî). Colocado no contexto das discussões teológicas no Islã, onde a noção e a natureza do Espírito estavam longe de emergir tão claramente como aqui, esse capítulo parece estabelecer um dos temas dominantes da filosofia sohravardiana. Ele já inicia a tese da não-espacialidade desse espaço espiritual para o qual o guia de algumas das histórias místicas é iniciado, e que Sohravardi designa por um nome persa cunhado por ele mesmo: Nâ-kojâ-âbâd, o “país do Não-onde” (ou Rûh-âbâd, o lugar ou cidade do Espírito): não mais um espaço no qual o Espírito estaria, mas um espaço que está dentro do Espírito, dentro de si mesmo.

Isso é o que Avicena já havia mencionado à margem da Teologia de Aristóteles, a respeito da multiplicidade de entidades espirituais nos mundos suprassensíveis. Cada uma ocupa toda a esfera de seu céu, todas simultâneas, cada uma sendo uma na outra, cada uma formando assim uma totalidade monádica. Portanto, aqui Sohravardi relembra um famoso ditado de Hallaj: “O que é suficiente ao Único é que o único o faça Um”. O Um se constitui como Um, e é isso o ser. O ser se constitui cada vez em constituindo *um* ser. Monadam monadare, disse Leibniz.

O “Símbolo da fé dos filósofos” termina de maneira coerente, como já dissemos, com a estrutura das outras obras do xeique al-Ishraq: com a indicação de uma “filosofia profética” e, finalmente, com a breve evocação da Sakîna (hebraico Shekhina), a Presença divina no “templo” do homem, e cuja evocação está ligada, em Sohravardi, a toda a sua doutrina do conhecimento visionário, a hierognosis.


RESUMO

1. Motivo da composição do livro

Más línguas atacam injustamente os homens de ciência entre os teósofos místicos, distorcendo seu pensamento com base em presunções equivocadas.

2. O símbolo de fé dos filósofos em geral

Os mestres teósofos que têm experiência da Verdadeira Realidade professam um conjunto de doutrinas que os distancia radicalmente do materialismo.

3. A demonstração do Ser Necessário

A contingência do universo é demonstrada pelo fato de que nem os corpos nem os acidentes podem ser princípios originais por si mesmos, exigindo portanto um princípio que não seja nem corpo nem acidente.

4. A procissão das dez Inteligências

O primeiro ser que Deus origina é uma entidade intelectiva, a partir da qual emanam, por graus, nove outras Inteligências, os céus correspondentes e as Almas motrizes celestes, culminando no mundo dos Elementos e nas almas humanas.

5. Que a Criação é eterna

Os seres criados não retardam em relação ao seu Princípio nem no tempo nem no espaço, pois tempo e espaço são consequentes a esses seres, e o único retardo existente é de essência.

6. Que o ato criador é um ato gratuito

Deus Altíssimo não origina as coisas em razão de um ato de vontade deliberada, pois sua essência mesma exige e implica o ato de existir.

7. Da imaterialidade da alma como Espírito divino

A alma pensante é uma essência intelectiva e monádica que não pertence ao mundo dos corpos, pois somente uma essência monádica pode conhecer o Ser Único.

8. Da ação do Espírito Santo como Doador das Formas

Os movimentos atualizam as aptidões da matéria para receber as Formas, e o Doador das Formas confere então a existência correspondente.

9. Da Matéria e das metamorfoses dos Elementos

A matéria é uma substância que reveste alternadamente as formas dos quatro Elementos — Fogo, Ar, Água e Terra — como se observa nas transformações naturais.

10. Os três reinos naturais

Da mistura dos quatro Elementos resultam os três reinos naturais — mineral, vegetal e animal —, ordenados em graus crescentes de perfeição e complexidade.

11. As Almas motrizes dos céus e seus êxtases

As Esferas celestes possuem, cada uma, uma Alma pensante eternamente nostálgica e em êxtase de amor pelo Princípio do qual emana, e esse êxtase comunica ao corpo celeste seu movimento perpétuo.

12. Os três universos

Os universos são três: o mundo das Inteligências, o mundo das Almas e o mundo dos corpos materiais.

13. Das condições da sobrevivência da alma

A alma humana sobrevive à morte quando alcança o conhecimento de Deus e de seus Anjos e quando se imprime nela a marca das realidades espirituais.

14. Da missão dos profetas

Os profetas são suscitados por Deus para ordenar os assuntos deste mundo e fazer os homens se lembrarem do outro mundo, pois os homens são descuidados da vida futura e não observam o justo meio nas coisas deste mundo.

15. Da Sakina e dos estados visionários

Quando os mestres espirituais adquirem altos conhecimentos e enfraquecem os sentidos pela redução da alimentação, produzem-se neles Luzes espirituais que se tornam um hábito e se transformam em Sakina, permitindo-lhes visões e revelações supra-sensíveis.