GNOSE

HCLSO. Christian Jambet.

O mundo da alma é o lugar de uma prova, e é aí que se revela a natureza antagonista da matéria — a identificação do ser e da Luz não teria nada de original se não se acompanhasse, em Sohravardî, de um sentimento dualista e gnóstico.

Em virtude desse sentimento dualista, Sohravardî pode escrever que havia entre os antigos Persas uma comunidade cujos membros eram guiados pelo Verdadeiro e que observavam a equidade — Sábios eminentes a não confundir com os Magos, portadores de uma alta filosofia da Luz, da qual testemunha também a experiência pessoal de Platão com a de outros Sábios anteriores, ressuscitada no livro intitulado O Livro da Teosofia oriental, sem que Sohravardî tivesse tido predecessor para algo semelhante.

Enquanto o mazdaísmo foi uma religião muito atenta a todos os aspectos exteriores e sociais da fé, Sohravardî quer ignorá-los e vai diretamente ao essencial, à experiência extática de Zoroastro, que, segundo ele, em nada difere da experiência de Platão.

Além do discurso, incapaz de dar uma relação completa, o existente não revela uma homogeneidade, uma compacidade, mas antes o conflito, a cisão, a oposição de regiões estranhas.

A filosofia de Sohravardî se inscreve no programa dos soberanos míticos do Livro dos Reis, como no da República ou do Fédon — não se trata de uma ética, mas de uma gnose.

A Luz de Glória da antiga Pérsia, o Khorrah (avéstico: xvarnah), pôde simbolizar ao mesmo tempo a autoridade real e o triunfo eclatante do ser sobre o nada.

A experiência da dualidade das substâncias pode sem dúvida exprimir-se pelo relato simbólico ou pelo poema, mas a dialética, segundo Platão, é, dentre os discursos, o único capaz de guiar a alma em direção à visão interior da Luz.

Quando o pensamento do Um se transforma numa teoria do ser, ele esquece o conflito que anima cada realidade e acredita na existência de um “ser universal” que se modalizaria segundo categorias ou gêneros diferentes, mas que não se oporia a si mesmo.

Isso é o que permite a Sohravardî desvelar a ambiguidade da palavra “ser”: se se entende por ela o ato de presença, a integralidade do ser é Luz e a Trevas não é — se se entende simplesmente “as coisas”, “o que se encontra”, como indica o termo árabe mawjûd, então se encontram “coisas”, “pessoas” de Luz e “coisas”, “pessoas” de Trevas.

As coisas (literalmente al-shay', o existente) se dividem no que é Luz na realidade essencial de si mesmo e no que não é Luz — não se trata de uma tese sobre classes de objetos, mas sobre a haqîqa, a realidade fonceira que, muito mais do que a essência (dhât), é o ponto focal de um ser.