AMOR

Addas, Claude. Ibn 'Arabî ou La quête du Soufre Rouge. Paris: Gallimard, 1989

A atribuição de uma exclamação de amor ardente à Ibn Arabi surpreende quem o reduz a um dialético frio, pois o grito que parece pertencer a Rumi ou a Ruzbehân Baqlî provém do próprio Futûhât, obra que Massignon acusou de tom “impassível e glacial.”

A oposição entre mística do amor e mística do conhecimento ecoa controvérsias antigas do próprio cristianismo latino sobre o papel da vontade e do intelecto no itinerarium in deum.

Em Ibn Arabi, os escritos provam que opor o caminho do amor ao caminho do conhecimento é irrelevante, e as obras devem ser lidas sem ideias preconcebidas, lembrando que o único exemplum do peregrino de Deus, no quadro islâmico, é o Profeta Muhammad.

A questão da embriaguez espiritual (sukr) assombra a mística muçulmana desde a execução de Hallaj em Bagdá no ano 309 da Hégira, e os mestres proclamam que a sobriedade é preferível, embora o cume seja a combinação das duas, o i'tidal, equilíbrio perfeito.

O mestre andaluz escreveu sobre o amor em inumeráveis ocasiões, tanto em textos líricos quanto em exposições discursivas, testemunhando uma experiência pessoal e não apenas doutrinária.

O Shaykh al-Akbar declara ter um Amado cujo nome é o de todos os que têm nome, e o termo hawâ — amor passional definido como “aniquilação total da vontade no Amado” — percorre como obsessão sua longa série de odes.

Tal amor dirigido ao Todo-Poderoso não é questão retórica, pois eminentes juristas islâmicos, de Ibn Jawzî aos doutores wahabitas, condenaram como sacrilégio o uso do vocabulário amoroso em relação a Deus; Ibn Arabi abre o capítulo 178 respondendo com versículos corânicos e hadiths que atribuem o ato de amar tanto a Deus quanto ao homem.

Os hadiths qudsis mencionados a seguir alimentam toda a cosmogênese akbariana: o amor é a razão da criação e o elo indissolúvel entre amor e conhecimento.

O hadith “Deus é belo e ama a beleza” é onipresente nos escritos de Ibn Arabi sobre o amor, pois beleza e amor são para ele noções indissociáveis, sendo a beleza a fonte primária e inesgotável do amor.

O universo existe porque o amor divino precisou tornar presente o objeto amado necessariamente ausente, e o recurso à imaginação — khayâl — permite re-presentar o Amado, como o Profeta implicitamente recomendou ao definir o ihsan como “adorar a Deus como se O vissem.”

O processo cosmogônico é descrito por Ibn Arabi como um suspiro de desejo amoroso — o nafas rahmânî, o Sopro do Misericordioso — pelo qual Deus exala a “Nuvem” primordial que contém potencialmente toda a Criação.

A beleza assume papel primordial no processo cosmogônico akbariano, e o universo, criado à imagem de Deus para ser Seu lugar de manifestação — majlâ —, é necessariamente belo, o que interdita o contemptus mundi sem excluir o desapego.

Deus não pode deixar de amar o mundo que lhe devolve a imagem de Sua beleza, e sobretudo o Homem, Seu lugar de manifestação por excelência, de modo que ao amar a criatura Ele ama apenas a Si mesmo — amor sem começo nem fim.

O amor universal e incondicionalmente devotado por Deus à humanidade garante a felicidade eterna de cada ser, embora não da mesma espécie para todos — certeza de que Ibn Arabi extrai, assim como Juliana de Norwich extrai a apocatastase.

O aspirante espiritual deve conquistar o amor especial que Deus reserva aos crentes sob certas condições, pagando o preço de uma beleza interior conquistada pelo sulûk — caminho iniciático que deve fazer brilhar de novo a teomorfia original obscurecida pelos pecados.

O amor sincero e absoluto leva o amante — muhibb — a identificar-se com o Amado a ponto de assumir Seus atributos, realizando a teomorfose descrita no hadith: “Sou o ouvido com que ouve, a vista com que vê.”

Os eleitos que realizam plenamente essa teomimese são raros, e ainda mais raros são os que alcançam a estação superior da 'ubûdiyya al-idtirar, fruto do faqr — pobreza total — na qual o gnóstico é maqtûl, “morto”, incapaz de qualquer vontade própria.

O Profeta do islã foi o mais sóbrio de todos; Ibn Arabi repete que o Enviado não deixava transparecer as graças espirituais que Deus lhe concedia em abundância, e essa ocultação constitui a marca da perfeição espiritual e a característica principal dos herdeiros do Profeta — os malamâtiyya, ou “muhammadanos.”

O episódio de Hallaj e Shibli ilustra a superioridade da sobriedade sobre a embriaguez: quando Hallaj foi executado, Shibli declarou que ambos beberam do mesmo cálice mas que ele permaneceu sóbrio enquanto Hallaj permaneceu embriagado.

O amor nasce da ausência; quando essa ausência se torna presença, o amor se torna conhecimento; quando esse amor é amor de Deus, esse conhecimento é conhecimento de Deus; e quando esse conhecimento é perfeito, não há mais 'arif porque somente Deus conhece Deus, que é “o conhecedor, o conhecimento e o conhecido.”