Addas, Claude. Ibn 'Arabî ou La quête du Soufre Rouge. Paris: Gallimard, 1989
Ao regressar a al-Andalus acompanhado de seu fiel companheiro etíope, Ibn Arabi já havia tomado a decisão de abandonar o Magrebe rumo ao Oriente islâmico, e uma carta conservada no Kitab al-kutub permite reconstituir com precisão o itinerário de suas numerosas peregrinações pela Península no ano 595/1198, revelando que se tratava de uma última visita à terra natal e uma despedida dos mestres.
Depois de despedir-se do destinatário anônimo, Ibn Arabi percorreu Alcazarquivir, Algeciras, Ronda e Sevilha, visitando em cada cidade mestres e companheiros espirituais em atos que os próprios interlocutores reconheciam como adeus definitivo.
Em Alcazarquivir encontrou o Shaykh Abdalyalil b. Musa, discípulo de Ibn Galib; em Algeciras, o Shaykh Ibn Tarif; em Ronda, certo Abu l-Hasan al-Qanawi, seguidor da via da futuwwa.
Em Ronda,
Ibn Arabi apresentou ao companheiro Abdallah Badr al-Habashi seu amigo e mestre Abu Abdallah Muhammad b. Ashraf ar-Rundi, com quem havia estreitado amizade em 589/1193.
Diante de al-Habashi, ar-Rundi tomou um punhado de erva, golpeou-a com o dedo e disse: “Aqui tendes fogo!” — e a erva acendeu, permitindo acender a lâmpada.
Em Sevilha, Abu Imran al-Mirtuli disse a
Ibn Arabi: “Temia por ti por causa de tua juventude […] mas louvado seja Deus que me consolou contigo!” — palavras que confirmam o caráter de despedida da visita.
A etapa seguinte, provavelmente Córdoba — designada por Ibn Arabi como “cidade venerada” e lugar de “sublimes contemplações” —, coincidiu com o enterro de Averróis, cujos restos mortais haviam sido trasladados de Marrakech para a cidade natal.
Averróis morreu em 9 de Safar do ano 595 (11 de dezembro de 1198) em Marrakech.
Ibn Arabi assistiu à inumação na companhia do escritor Ibn Jubayr (m. 614/1217) e do discípulo deste, Ibn as-Sarraj.
Em Córdoba, entrevistou-se também com um certo Abu Abdallah al-Astani, personagem que não foi possível identificar.
De Córdoba, os dois viajantes partiram para Granada, onde se instalaram na casa do Shaykh Abu Muhammad ash-Shakkaz, e Ibn Arabi reteve sobretudo a definição deste mestre das quatro categorias de homens espirituais, fundada nos quatro sentidos do Alcorão enunciados em um famoso hadith.
Ash-Shakkaz comparou seu fervor e mortificações com os do tio de
Ibn Arabi, Abu Muslim al-Hawlani.
As quatro categorias segundo ash-Shakkaz: os “homens do aparente” — rijal az-zahir —, os “homens do interior” — rijal al-batin —, os “homens do limite” — rijal al-hadd, os A'raf do Alcorão 7:46 — e os “homens do ponto elevado” — rijal al-matla', aqueles que acorrem a Deus a pé (Alcorão 22:27).
Abdallah al-Mawruri reuniu-se ao grupo em Granada e contou um detalhe do milagre que ele próprio havia realizado nessa cidade algum tempo antes.
Ibn Arabi abandonou Granada rumo a Múrcia, sua cidade natal, onde visitou Ibn Saydabun, célebre discípulo de Abu Madyan, que atravessava então um período de fatra — languidez espiritual — e cujo comportamento revelava a consciência de que a separação seria definitiva.
“Seu Amado o abandonou, seu Amigo o aborreceu… contudo, os objetivos do Shaykh são louváveis e seus esforços, justos; mas o poder que lhe havia sido conferido sobre o mundo escapou-lhe.”
“Quando me despedi dele, chorou, tão afligido estava de me ver partir, e me acompanhou um trecho do caminho para se despedir.”
Com essa última visita, Ibn Arabi encerrara a série de encontros mencionada na carta, mas a renúncia às visitas — ziyâra — não significava renúncia às peregrinações — siyâha —; em Almeria, para onde se dirigiu ao início do Ramadã do ano 595 (27 de junho de 1199), redigiu em onze dias, por inspiração divina confirmada por um sonho de Habashi, o Kitab mawaqì' an-nujum.
Ibn Arabi atribuía importância considerável a essa obra, declarando nas Futûhât: “Esta obra dispensa de recorrer a um mestre; direi ainda mais: é indispensável ao mestre.”
O livro trata das oito partes do corpo — olhos, ouvidos, língua, mãos, ventre, genitais, pés e coração — sujeitas à obrigação legal, e dos tipos de milagres e desvelamentos que lhes correspondem.
O capítulo sobre o coração não figurava na redação original;
Ibn Arabi o acrescentou dois anos depois, em Bujia, no ano 597, quando numerosas cópias já circulavam sem essa seção — testemunho importante tanto da ampla difusão de suas obras em vida quanto da necessidade de levar em conta revisões posteriores ao datar seus escritos.
A partir do Ramadã do ano 595, perde-se o rastro de Ibn Arabi por cerca de um ano inteiro — o ano 596 não é mencionado em nenhum de seus escritos —, e tudo leva a supor que o Shaykh al-Akbar viveu esse período em grande recolhimento, dedicado a escritos, retiros e preparativos para a grande viagem.
Caso tivesse viajado durante esse ano, forçosamente teria encontrado sufis e registrado algum acontecimento — o silêncio absoluto do ano 596 é, por si só, um dado significativo.
Ibn Arabi abandona definitivamente al-Andalus provavelmente no final do ano 596 ou início do 597/1200, sendo então encontrado em Salé, no Magrebe, de onde parte para Marrakech compondo um poema de adeus ao mestre-discípulo Abu Ya'qub Yusuf al-Kumi.
Entre Salé e Marrakech há, segundo al-Idrisi, nove dias de marcha; a meio caminho, o viajante atravessa o vale de Umm Rabi', onde se situam os povoados berberes de Iyisal — hoje Guisser — e Anyâl.
Em Iyisal, no mês de Muharram do ano 597 (outubro/novembro de 1200),
Ibn Arabi atingiu o maqam al-qurba — a estação da Proximidade —, um dos episódios mais marcantes de seu destino espiritual.
A experiência do maqam al-qurba, descrita por Ibn Arabi em primeira pessoa, foi de alegria vertiginosa acompanhada de terror diante da solidão absoluta, até que o espírito de Abu Abdarrahman as-Sulami tomou forma corporal e lhe revelou o nome da estação.
“Cheguei a esse maqam no mês de Muharram do ano 597, estando em viagem, em um lugar chamado Iyisal, no Magrebe. Louco de alegria, pus-me a errar por essa estação, mas não vi a ninguém mais e essa solidão me deu medo.”
As-Sulami declarou: “É nessa estação que a morte me surpreendeu e nunca cessarei de estar aqui!” e consolou
Ibn Arabi: “O exilado se sente sempre só! Depois que a providência te fez aceder a essa estação, louva a Deus por isso — pois a quem é concedido esse privilégio? Não estás satisfeito de que Khadir seja teu companheiro nessa estação?”
As-Sulami revelou então o nome da estação: “Chama-a de estação da Proximidade — maqam al-qurba. Realiza-a plenamente!”
O maqam al-qurba é, segundo
Ibn Arabi, a estação suprema da walaya — o grau espiritual mais elevado acessível a um santo —, situada imediatamente abaixo da estação da profecia legisladora e também chamada de estação da profecia geral.
Reconfortado pelas palavras de Sulami, Ibn Arabi retomou o caminho para Marrakech, capital do Império almoada sob o sultão an-Nasir Abu Abdallah Muhammad b. Ya'qub, que havia sucedido a seu pai al-Mansur — falecido em 595/1199, pouco depois de Averróis.
Al-Mansur legou ao filho um império vasto mas frágil: a vitória de Alarcos e a trégua de 593 afastaram provisoriamente a ameaça castelhana, mas menos de quinze anos após sua morte os cristãos esmagariam os almoadas em Las Navas de Tolosa (609/1213).
Al-Mansur construiu ou concluiu a Giralda de Sevilha, a Kutubiyya e a mesquita Hasan de Rabate — “irmã gêmea” das duas primeiras —, além de um magnífico hospital em Marrakech que visitava toda sexta-feira.
Ibn Idari elogia al-Mansur por ter determinado que os judeus usassem vestimenta distintiva — túnica alargada e albornoz azuis — para diferenciá-los dos muçulmanos.
O reinado de an-Nasir marca o início da decadência do Império almoada; em 597/1200, porém, ninguém ainda percebia que o fim se aproximava.
Em Marrakech, Ibn Arabi apressou-se a visitar o “patrono” da cidade, Abu l-Abbas as-Sabti (m. 601/1205), natural de Ceuta, célebre por seu apego quase obsessivo à sadaqa — esmola —, e cujas virtudes tanto admiravam quanto exasperavam seus contemporâneos.
Tâdili, que conviveu longamente com Abu l-Abbas, afirma: “Sua doutrina girava em torno da sadaqa.”
Averróis declarou que, para Abu l-Abbas, “a Existência procede da generosidade.”
Ibn Arabi refere que Abu l-Abbas lhe contou ter pedido a Deus que lhe desse antecipadamente nesta vida tudo o que lhe estava reservado na Vida Futura — obtendo assim poder sobre a doença, a cura, a vida e a morte por meio da prática da esmola —, reservando para si apenas os méritos correspondentes a uma esmola de um quarto de dirham para o Além.
“Pratiquei isso também em meus começos e constatei coisas maravilhosas, mas em meu caso […] obtivemos isso de Deus sem tê-lo pedido.”
Ibn Arabi estreitou igualmente amizade com outro sufí de Marrakech, Muhammad al-Marrakushi — desconhecido dos hagiógrafos —, cujo lema iniciático era o versículo “Suporta pacientemente a decisão de teu Senhor, pois te vemos” (Alcorão 52:48), e que jamais foi visto abatido pelas calamidades.
De Marrakech, Ibn Arabi partiu para Fez a fim de tomar como companheiro de viagem para o Oriente um certo Muhammad al-Hassar, cuja identidade lhe havia sido revelada em uma visão em que belos pássaros voavam ao redor do trono divino e um deles, o mais belo, o saudou e indicou que deveria segui-lo.
“Vi um que era mais belo que os demais, que me saudou e me fez saber que devia tomá-lo como companheiro para ir ao Oriente […] Perguntei: 'Quem é esse companheiro?' Respondeu-se-me: 'É Muhammad al-Hassar, de Fez; ele pediu a Deus partir para o Oriente, toma-o contigo.'”
Ao chegar a Fez e perguntar por esse homem,
Ibn Arabi descobriu que al-Hassar já o aguardava, pois havia recebido em sonho a indicação de que “Fulano te levará.”
“Tomei-o como companheiro no ano 597 e o levei comigo ao
Egito, onde morreu.”
Em companhia de Muhammad al-Hassar e provavelmente de Habashi, Ibn Arabi seguiu em direção à Ifriqiya, passando por Tremecém — onde possivelmente peregrinou ao túmulo de Abu Madyan em Ubbad — e depois por Bujia, onde sonhou que se unia em matrimônio a todas as estrelas do céu e a todas as letras do alfabeto.
Um intérprete de sonhos, a quem o amigo de
Ibn Arabi submeteu o sonho sem revelar o nome do sonhador, declarou imediatamente: “Isso é o mar sem fundo; quem teve esse sonho receberá uma parte das ciências celestes, das ciências ocultas e dos mistérios dos astros e das letras, como nenhuma outra pessoa obteve em sua época […] Se quem teve esse sonho encontra-se nesta cidade, não pode ser senão esse jovem andaluz que acabou de chegar.”
Gubríni (m. 704/1304) afirma que
Ibn Arabi entrevistou-se em Bujia com um certo Abu Abdallah al-Arabi, que
Ibn Arabi teria considerado um malami — ou ao menos um walí que ocultava seu verdadeiro estado espiritual simulando ser um simplório.
“Ocultava o que era em realidade e o dissimulava tomando a aparência, durante toda a sua vida, de um louco. Partia de Bujia no mês de Dhu l-hijja para realizar a peregrinação e voltava sem que ninguém se desse conta, exceto aqueles que estão informados dos mistérios e dos segredos.”
A última etapa antes da grande viagem foi Túnis, onde Ibn Arabi permaneceu nove meses na companhia do Shaykh Abdalaziz al-Mahdawi, do servo deste — Ibn al-Murâbit — e de Habashi, formando um quarteto que, reunido num mesmo lugar, era para o universo o que os quatro “ângulos” são à Ka'ba.
“Éramos os quatro pilares sobre os quais descansa o ser do universo e o Homem perfeito; nos separamos nesse estado, por causa de uma mudança que havia sobrevindo, pois eu havia decidido realizar a Grande e a Pequena Peregrinação para voltar em seguida à tua nobre companhia.”
A interpretação literal dessa passagem — de que
Ibn Arabi ignorava não voltaria a ver o Ocidente islâmico — parece pouco convincente: a maneira metódica como se despediu de seres e lugares que marcaram sua juventude, e a certeza tantas vezes expressa de uma vocação que ultrapassava os limites do Ocidente islâmico, excluem que tenha considerado a partida uma ruptura meramente provisória.
A certeza de não regressar fundava-se sobretudo na visão que, segundo ele, Deus lhe concedera em 589 em Algeciras, na qual lhe foi dado contemplar todo o seu futuro, e que havia sido confirmada quando, em Fez no ano 594/1198, foi designado para assumir a suprema função de hatm al-awliya' — “selo dos santos” —, função cuja universalidade implicava deslocar-se da periferia para o centro do mundo islâmico e ali estabelecer-se.