CÓRDOBA, A GRANDE VISÃO

Addas, Claude. Ibn 'Arabî ou La quête du Soufre Rouge. Paris: Gallimard, 1989

O destino espiritual de Ibn Arabi organiza-se em torno de três datas — 586, 594 e 598 da Hégira —, cada uma correspondendo a episódios capitais de um mesmo acontecimento que ultrapassa a aventura individual e se confunde, a partir do primeiro deles, com a própria história da walaya.

Na Grande Visão de Córdoba, no ano 586/1190, Ibn Arabi viu simultaneamente todos os profetas desde Adão até Muhammad, todos os crentes que existiram e existirão até o Dia da Ressurreição, e conversou com um deles — Hud, irmão de Ad — que lhe revelou a razão da reunião.

O segredo da Grande Visão de Córdoba foi transmitido oralmente de geração em geração entre os discípulos de Ibn Arabi e só se tornou acessível por escrito graças a um discípulo de segunda geração, Mu'ayyad ad-Din Yandi (m. ca. 700/1301), que o revelou em seu comentário dos Fusus.

A noção de “Selo da santidade” articula-se em torno de uma doutrina precisa: a haqiqa muhammadiyya pré-existe a todos os profetas, percorre a história humana até sua exteriorização total em Muhammad, e com a morte deste a porta da profecia legiferante fechou-se, subsistindo apenas a santidade como veículo da realidade muhammadiana até o fim dos tempos.

Os três Selos da santidade distribuem entre si a função de clausura da walaya: o Selo muhammadiano, o Selo da santidade universal e o terceiro Selo — o último ser humano a nascer neste mundo.

Sevilha: retiros e revelações

A chegada do novo sultão Abu Yusuf Ya'qub al-Mansur a Sevilha no ano 586/1190 marcou o apogeu do Estado almoada: Mansur recuperou Bujia dos Banu Ganiya, esmagou o exército almorávide na batalha de Hamma, submeteu as tribos árabes da Ifriqiya aliadas aos almorávidas e infligiu aos castelhanos a humilhante derrota de Alarcos em 591/1195.

Também em 586, Ibn Arabi teve uma visão de um “espetáculo sublime” relacionado ao Juízo Final — da qual deriva a certeza de sua intercessão universal —, sendo o relato mais completo conservado no Kitab al-mubasshirat.

Ibn Arabi conheceu pelo menos duas esposas identificadas, e possivelmente mais, sendo a questão de qual delas é “Umm Abdarrahman” irresolúvel no estado atual das pesquisas.

Para Ibn Arabi não há nenhum grau de realização espiritual inacessível às mulheres, e várias delas figuram entre seus mestres espirituais, duas das quais conviveu na juventude em Sevilha.

Nesse mesmo ano de 586/1190, Ibn Arabi conheceu awliya' pertencentes à categoria singular dos bahâlîl — os “loucos de Deus” —, cuja razão foi retida diante de Deus em consequência de uma teofania súbita e avassaladora.

Também em 586/1190, Abu Imran Musa as-Sadrani — companheiro de Abu Madyan e um dos sete abdal — apareceu à porta de Ibn Arabi em Sevilha logo após a oração do magrib, enviado diretamente por Abu Madyan de Bujia com uma mensagem: o encontro corporal entre os dois nunca se daria, mas o encontro “em espírito” ocorreria sem dúvida.

Entre os discípulos de Abu Madyan com quem Ibn Arabi conviveu nesse ano destacam-se Abu Ahmad as-Salawi — companheiro de Abu Madyan durante dezoito anos — e o Shaykh Abu Ya'qub Yusuf al-Kumi, com quem manteve uma relação singularíssima de mútua dependência espiritual.

Ibn Arabi recebia revelações durante seus retiros solitários nos cemitérios de Sevilha, incluindo a descida “estrelada” do Alcorão — experiência direta da Revelação original, distinta da memorização metódica — que pode ser vivida pelos awliya' assim como foi pelo Profeta.