THE MYSTICAL PHILOSOPHY OF IBN ARABI
A. E. Affifi — Cambridge, 17 de setembro de 1938.
A filosofia mística de Shaykh Muhyid-Din Ibn Arabi constitui uma exceção à regra geral de que os místicos não possuem sistemas filosóficos ou doutrinas fixas, uma vez que ele elaborou uma doutrina panteísta definida e uma dialética formal que domina todo o seu pensamento.
O misticismo é essencialmente uma matéria eclética, mas
Ibn Arabi reúne, tanto na substância quanto na forma, as qualificações do filósofo místico típico.
Em nenhuma de suas numerosas obras sua filosofia mística está expressa como um todo ou com grau apreciável de coerência ou ordem.
O
Fusus ul Hikam pode ser considerado o resumo da forma mais madura de sua doutrina panteísta — porém trata-se de um resumo ininteligível e desordenado.
Para se chegar a algo semelhante a um sistema, é necessário muito trabalho de pesquisa em outros livros de
Ibn Arabi, além do
Fusus, e muito esforço de análise, síntese e recolha de pontos relevantes dispersos entre massas de detalhes triviais ou irrelevantes.
Ibn Arabi era certamente consciente de uma filosofia panteísta completa, mas, por falta de formação filosófica, não soube como expressá-la.
Pode ser considerado um pensador coerente, desde que não se atribua importância excessiva aos seus paradoxos verbais e à maneira como frequentemente tenta reconciliar os dogmas islâmicos com os princípios filosóficos.
Não há possibilidade de reconciliar sua filosofia com o Islã; a roupagem ortodoxa com que ele reveste persistentemente suas ideias panteístas é uma aparência ilusória colocada ali propositalmente.
A importância do pensamento de Ibn Arabi e seu valor — não apenas para o desenvolvimento do misticismo islâmico, mas também para a história geral do pensamento na Idade Média — dificilmente podem ser superestimados.
O prof. E. G. Browne afirma que nenhum místico do Islã, com a possível exceção de Jalalud-Din
Rumi, superou Shaykh Muhyid-Din em influência, fecundidade ou profundidade, e que nenhum estudo adequado de suas obras e doutrinas foi realizado até então na Europa ou no Oriente, embora poucos campos ofereçam maior promessa ao arabista interessado nesse aspecto característico do pensamento oriental.
O ensinamento e o exemplo de
Ibn Arabi foram grande fonte de inspiração para praticamente todos os sufis panteístas que vieram depois dele, tanto em países de língua árabe quanto na Pérsia.
Mesmo o grande Jalalud-Din
Rumi teria recebido parcela dessa influência ao frequentar as aulas de Sadrud-Din de Quniyah sobre o
Fusus de
Ibn Arabi.
Iraqui (m. 686/1287),
Jami (m. 898/1492),
Jili (m. 811/1408), Shabistar (m. 720/1320), seu grande comentador e seguidor
Qashani (m. 730/1329), e muitos outros estão entre os sufis cujas doutrinas, terminologia e modo de pensar carregam marcas evidentes da influência recebida dos livros de
Ibn Arabi ou de seus discípulos.
Fora do mundo islâmico, a influência de
Ibn Arabi alcançou filósofos e místicos cristãos da Idade Média; as obras de Lully e Dante mostram traços dessa influência, conforme sustenta Monsieur
Palacios.
O trabalho está dividido em quatro capítulos que tratam de toda a filosofia mística de Ibn Arabi — sua ontologia, doutrina do Logos, epistemologia, psicologia, misticismo, religião, ética, escatologia e estética —, além de um apêndice com um esboço das principais fontes que parecem ter influenciado seu pensamento.
No Oriente, vários autores discutiram Ibn Arabi e escreveram tratados sobre ele, mas o que mais lhes preocupava era a questão de sua ortodoxia — não tanto seu misticismo ou sua filosofia em si, mas em que medida tal filosofia concorda ou discorda dos dogmas islâmicos.
O tema não é tratado de forma exaustiva; o objetivo alcançado foi apresentar o esboço básico da mente de Ibn Arabi, que possa servir de chave para a compreensão de toda a sua filosofia mística ou de qualquer parte dela, bem como da filosofia de seus seguidores.