Ibn Arabi, MGAM
Tratado traduzido em francês por Maurice Gloton, e comentado por Jean Canteins no periódico “Études Traditionnelles”. Segundo Canteins trata-se de um curto tratado, com excelente tradução de Gloton, enquadrada por introdução e comentários.
O tratado aborda a Realidade maometana, noção abstrata que Ibn Arabi expõe da maneira mais concreta possível utilizando todos os recursos do simbolismo da árvore:
“criação” a partir da Semente (o “Tesouro oculto” do hadith) posto a germinar e a vegetar na argila original (tema da fermentação);
crescimento da árvore, seja um processo de diferenciação (é o sentido da raiz da palavra “árvore”: shajara) por passagem da unidade à multiplicidade;
representação da árvore, símbolo axial cuja estrutura determina uma trindade hierárquica (raiz, tronco, ramos) considerada em todos os níveis de interpretação, para alcançar em uma última parte, a uma exegese da ascensão do Profeta (árvore reta) em seguida de sua Redescida (árvore invertida)…
Essa é uma imagem muito parcial do tratado que pode ser percorrido como um rosário ininterrupto de símbolos que se sucedem como em um sinótico e cujos grãos rapidamente manuseados escapariam frequentemente ao entendimento do leitor médio sem as glosas seguras de Maurice Gloton, seu tradutor. (resumo da apresentação do livro MGAM)
A originalidade do tratado sobre a Árvore do Mundo está no uso do simbolismo da Árvore, que permite ao autor apresentar a Realidade Muhammadana em seus vários aspectos de forma muito concreta.
Esses aspectos estão implícitos no Espírito Muhammadan incriado e criado (ruh muhammadiyya), o resultado do movimento de Amor que Allah determina para tornar conhecido o conteúdo de Seu Tesouro escondido em Sua Essência incondicionada.
O Espírito está, então, na origem de todas as determinações essenciais, ontológicas ou cósmicas. Ele as contém por meio da Ciência que Deus lhe comunica e as expressa por meio de Sua Palavra.
Deus, amando e desejando tornar conhecido o conteúdo desse Tesouro enterrado, sem qualquer distinção possível, em Sua Essência absoluta, infinita e eterna, que não pode ser descrita, determina o Princípio da criação para que ele possa se manifestar. Isso é expresso na seguinte Tradição relatada por Ibn Arabi no tratado: “Eu era um tesouro oculto e não era conhecido. Mas eu gostava de ser conhecido. Então, criei as criaturas e as tornei conhecidas por Mim. Então elas Me conheceram.
A Realidade de Muhammadan, o intermediário entre a Essência incondicionada ou Tesouro Oculto e a Criação, o objeto do Amor divino a ser conhecido, nasce dessa primeira autodeterminação divina.
Essa Tradição é apresentada para que compreendamos algo desse processo e para que a alusão à Essência e ao seu Tesouro Oculto desperte em nós a consciência de nossa realidade última e nossa atração por ela. Ela estabelece imediatamente o Mistério divino em Sua Essência e a realidade igualmente misteriosa que deseja que conheçamos: a criação.
A Realidade Muhammadana, resultado dessa autodeterminação principial, do Espírito de Allah e do movimento de Amor que Lhe é próprio, contém, portanto, todas as verdades do Tesouro divino que Ele quer que conheçamos. É o que o Profeta diz sobre isso neste hadith: “a primeira coisa (ou realidade) que Allah autodeterminou (khalaqa ou criou no Princípio divino) é o Espírito de teu Profeta, ó Jâbir”, o adjetivo “teu” indicando que os seres dependem dele e que ele é o padrão de tudo, tanto na Pessoa ou Alma divina (nafs) quanto em Sua manifestação.
O Espírito de Deus, nascido do Amor de ser conhecido, essa realidade é, ao mesmo tempo, Conhecimento ou Ciência divina, Amor divino e Aquele que tornará conhecidas as possibilidades divinas que ela transmite. (MGAM)
INTRODUÇÃO
Apresentação doutrinal do Tratado
I. Origem e propósito da Árvore muhamadiana
II. Economia viva da Árvore muhamadiana e sua representação formal
III. Viagem e ascensão noturna sobre a Árvore muhamadiana
IV. Notas
Nota 1: Sobre a realidade exemplar dos Profetas segundo o Alcorão
Nota 2: Sobre os nomes dados ao Profeta pela Tradição
Nota 3: Ahadith sobre a realidade do Profeta
TRADUÇÃO DO TRATADO
I. PRÓLOGO
II. SIMBOLISMO E SIGNIFICADO DA ÁRVORE UNIVERSAL
1. Em relação ao Imperativo divino “Sê!” (KuN) e as duas letras K e N que o compõem
2. Simbolismo das letras K e N em relação a Adão e Iblis
3. Relação de Adão e Iblis com a Árvore antes e depois da queda
4. Diferenciação e implicação desta Árvore
5. Nomes atribuídos a diferentes aspectos da Árvore universal
6. Parte destinada a cada um na economia da Árvore
7. Sua substância luminosa e espiritual em relação com Adão e os seres humanos
III. MUHAMMAD: SUA REALIDADE: ORIGEM, PROPÓSITO E FIM DA MANIFESTAÇÃO DA ÁRVORE
1. Origem e natureza da excelência muhamadiana
2. Reconhecimento da realidade muhamadiana por todos os seres
3. Muhammad, fermento do limo constituinte de todos os seres
4. Todos os seres tiram sua existência da sua
5. Adão criado segundo a forma de MuHaMmaD
6. Relações entre o Macrocosmo e o microcosmo muhamadiano
a) O mundo do Reino e da Realeza celeste: sua corporalidade e sua espiritualidade
b) As montanhas e os ossos
c) O elemento aquático e o sangue
d) O sol e o Espírito
e) A lua e a inteligência
f) Os planetas e os cinco sentidos
g) O Trono e o Escabelo, o coração e o peito
h) O Paraíso e o Inferno, o coração e a alma
i) A Tábua e o Cálamo, a língua e o peito
j) Os mensageiros e os sentidos
k) O Reitor senhorial e o Espírito
l) O duplo aspecto do Enviado, a Vontade e a palavra
m) O conteúdo da Lei com as mãos e os dedos
n) A oração e a esmola com os pés
o) A morte e a Ressurreição com o sono
7. As três classes de seres que adoram Allah
8. Função dos seres na economia da Árvore muhamadiana
9. Comportamento de Iblis
10. Queda de Adão e Iblis e sua consequência para o homem
IV. OS GRAUS DA REALIDADE MUHAMADIANA
1. Seus três ramos existenciais
2. As quatro estações muhamadianas axiais
3. Muhammad, lugar epifânico original e final da Árvore universal
4. Solicitude divina em relação ao ramo muhamadiano
5. Do duplo aspecto espiritual e corporal da substância de Muhammad à qual os seres participam
6. Os três graus da forma muhamadiana
a) Seu aspecto humano perfeito
b) Seu aspecto espiritual
c) Seu aspecto senhorial e divino
7. As quatro estações muhamadianas
a) A estação aqui embaixo
b) A estação louvada no Dia da Ressurreição
c) A estação da Presença contemplativa
d) A estação da visão do Adorado
8. Excelência da Realidade muhamadiana universal. Conclusão
V. VIAGEM NOTURNA E ASCENSÃO DE MUHAMMAD
1. Gabriel, guia espiritual de Muhammad
2. Razões da Viagem cósmica: aperfeiçoamento e enobrecimento dos seres na hierarquia cósmica
3. Bouraq, montaria cósmica preposta à viagem
4. Miguel Arcanjo, segundo companheiro de Muhammad nesta viagem
5. Israfil, outro companheiro de Muhammad
6. Realidade do Trono divino
7. As quatro primeiras montarias na ascensão do Profeta
8. Quinta montaria celestial: Rafraf até o Trono divino
9. Sexta montaria celestial: at-Ta'yîd até a proximidade divina
10. Diálogo com o Senhor
VI. EPÍLOGO