Fusus, RABW
Adão como Princípio de Agência e Reflexão
Este capítulo trata amplamente da relação entre Adão, que aqui simboliza o arquétipo da humanidade, e Deus, particularmente da função de Adão no processo criativo como princípio de agência, transmissão, reflexão e como a própria razão para a criação do Cosmo.
Adão representa precisamente aquele princípio que ao mesmo tempo medeia e resolve toda a experiência da polaridade, sendo o elo vital sem o qual toda a ocorrência da Autoconsciência divina não seria possível.
Na imagem do espelho, Adão é o fator de ligação no processo de reflexão e reconhecimento da reflexão, sendo representativo tanto do espelho (símbolo da receptividade e refletividade da natureza cósmica) quanto do sujeito observador (o próprio Deus).
Adão é descrito como “o próprio princípio da reflexão” e o “espírito da forma [refletida]”.
Enquanto o espelho estivesse perfeitamente polido e plano, o sujeito observador poderia ver sua própria forma ou imagem perfeitamente refletida em sua superfície, caso em que a alteridade do próprio espelho é reduzida ao mínimo na consciência observadora, ou mesmo completamente apagada.
Na medida em que o espelho reflete uma imagem embaçada ou distorcida, ele manifesta sua própria alteridade e diminui a identidade da imagem e do sujeito.
No espelho tem-se um símbolo muito apto da polaridade divino-cósmica: em um extremo da relação, a Natureza cósmica ameaça absorver e assimilar o sujeito na infinidade e complexidade de seu impulso criativo; no outro, o Sujeito divino parece aniquilar a Natureza na reafirmação da identidade, sendo cada um, ao mesmo tempo, outro e não-outro.
Adão, como arquétipo da humanidade, é em sua natureza essencial ao mesmo tempo o meio de visão pelo qual o Sujeito observador contempla Sua própria imagem ou reflexão cósmica e o meio de reflexão pelo qual o “outro” cósmico é restaurado a Si Mesmo.
Como medium, é Adão quem é o próprio princípio da relação polar e quem, como tal, conhece os Nomes de Deus, os quais é ordenado no Alcorão a ensinar aos anjos.
Os Anjos e a Criação Animal
Os anjos parecem ter sido particularizações do poder divino, seja criativo ou recriativo, seres que, embora próximos da presença divina, não tinham parte na atualidade física e formal da criação cósmica; eles são seres puramente espirituais, diferentemente do ser adâmico bipolar e sintético que, sozinho entre toda a criação, compartilha da Autoconsciência da Realidade.
A Imagem do Anel de Selar
Na imagem do anel de selar, o homem é visto como o selo que sela e protege o tesouro cósmico de Deus e no qual está estampado o sinete de seu Proprietário.
Adão, como homem, é a cera receptiva que carrega a imagem do Nome abrangente e supremo de Deus, cuja quebra do selo significa o fim de todo o devir cósmico.
A Mutualidade Subjacente da Experiência Polar
Embora insistindo principalmente na supremacia eterna do polo cognitivo e volitivo, retorna-se sempre à mutualidade subjacente da experiência polar, em conformidade com o conceito fundamental da Unidade do Ser.
O termo “origem” não tem sentido sem se assumir a existência daquilo que é “originado”, e assim por diante com todos os conceitos polares, incluindo os termos “Deus” e “Senhor”, que são significativos apenas se os termos correspondentes “adorador” e “escravo” estiverem implicados.
O Princípio Diabólico ou Satanás
A noção do Diabo ou Satanás é um tanto diferente daquela da teologia comum, vendo-se o princípio diabólico de duas maneiras.
Primeiro, o princípio diabólico é aquele que resiste ao impulso de autorrealização de criar o objeto próprio-outro e insiste no direito exclusivo do espírito puro e da transcendência, sendo esta a razão para a recusa de Satanás em obedecer ao comando de Deus de se prostrar diante de Adão, por ciúme da integridade do espírito puro.
Segundo, é também aquele princípio que insiste na realidade separada da vida e substância cósmicas e que nega toda primazia ao Espírito.
É aquele princípio que buscaria insistir na realidade separada de qualquer um dos polos, às custas do outro, e assim prejudicar a totalidade original da experiência divina como a Realidade, tentando romper o elo importantíssimo entre “próprio” e “outro” e consignar cada um ao isolamento mutuamente exclusivo no absurdo.