A faculdade Imaginativa, seja macrocósmica ou microcósmica, tem duas funções: uma criativa e existencial, a outra recoletiva ou recreativa e espiritual.
No primeiro caso, o processo Imaginativo absorve e envolve a consciência, divina e humana, no impulso criativo do devir cósmico em toda a sua infinita complexidade fascinante.
No segundo caso, por um processo de interpretação e realização, a consciência redescobre e restabelece sua integridade e unidade última inalienável e absoluta.
Na esfera humana individual, a primeira função é ilustrada pelo homem cuja consciência está sempre sendo atraída para fora em direção aos objetos materiais, dissipada e absorvida por uma multiplicidade de “interesses”; a segunda é ilustrada pela pessoa que abstrai os objetos sensíveis ao seu redor para reforçar e confirmar sua própria identidade consciente.
O segundo processo ajuda a ilustrar a visão corânica do Cosmo como sendo um desfile infinito de ayāt ou sinais, cuja interpretação e contemplação inteligentes conduzem, inevitavelmente, de volta à verdade absoluta e unitiva de Deus.
As formas cósmicas têm dois aspectos: o aspecto existencial e criativo da atualidade cósmica, que parece sempre alienar e dissipar a consciência integral, e o aspecto espiritual e simbólico, que auxilia no refoco do intelecto no arquetípico e ideal.
O que se percebe com a percepção mundana e cósmica é uma imagem que por um lado oculta sua verdade essencial, mas por outro revela essa verdade à percepção espiritual, exigindo esta última a capacidade de saltar, por assim dizer, da corrente de saída para a corrente de entrada da Imaginação, correntes essas que se encontram na síntese microcósmica do estado humano, de modo que somente o homem é capaz de fazer essa transição.
Além de ser da terra e do Céu, o homem também ocupa um meio-termo vital e importante, o ‘ālam al-mithāl ou mundo das semelhanças, no qual os arquétipos misteriosamente se tornam traduzidos em coisas existentes, e através do qual as formas cósmicas são transformadas em essências espirituais – um reino sutil e fluido no qual as correntes do devir cósmico e da reintegração espiritual se encontram e se misturam.
O salto que o homem deve fazer para que possa usar as imagens cósmicas como um meio de realizar sua identidade eterna com Deus é precisamente o ato de ta’wīl, que significa “voltar aos primeiros princípios”, ou seja, perceber nas formas cósmicas aquele aspecto que aponta, simbolicamente, para seu criador, Deus.
As formas cósmicas não são o que parecem, mas sim o que significam; não o que se tornaram, mas o que são in aeternis.
Embora a maioria das formas cósmicas seja potencialmente diabólica no sentido de que, em seu aspecto existencial, podem encorajar uma aparente alienação e separação do princípio divino, a forma de Muhammad, como uma manifestação formal particular do Homem Perfeito que inalteravelmente simboliza a totalidade da Realidade divina, não pode sê-lo.
O assunto do Homem Perfeito e sua manifestação na forma de Muhammad conduz naturalmente ao segundo assunto deste capítulo, o do Coração.
O terceiro e último assunto tratado neste capítulo é o da himmah ou força criativa do gnóstico, aquela faculdade que o capacita a ligar seu próprio poder particular de imaginação criativa à Imaginação criativa divina.