Ibn Arabi, William Chittick
A alma (nafs) como o si mesmo humano
A palavra árabe nafs designa o si mesmo ou a alma humana, sendo o resultado líquido do ato divino que combina o corpo e o espírito.
Nafs funciona como o pronome reflexivo (como “self” em inglês), podendo ser aplicado a qualquer coisa.
No Alcorão, nafs com o artigo definido designa o si mesmo humano como um termo genérico (“a alma”).
Ibn ‘Arabi fala da nafs como o que vem a ser quando Deus combina o corpo e o espírito (o sopro divino e o barro terrestre).
O domínio da alma humana está “no entremeio” (bayniyya) – entre o espírito e o corpo.
Relatividade
O conhecimento do si mesmo é o meio primário para a realização (tahqiq), mas o sujeito cognoscente está no entremeio, o que resulta em incerteza em todos os domínios.
O conhecimento da alma participa da natureza indeterminada da alma, situando-se entre a verdade e o erro, a realidade e a irrealidade.
Todo conhecimento é relativo: verdadeiro sob um aspecto e falso sob outro.
O Haqq Absoluto permanece sob a superfície e exige que o haqq das coisas individuais seja reconhecido, impedindo o relativismo.
“A manhã não está escondida do Possuidor dos Dois Olhos, pois ele distingue o entremeio do entremeio [al-bayn min al-bayn]” (F. IV 384.33).
Os “dois olhos” designam a razão e a imaginação; ver com um olho leva à distorção.
Deus deve ser visto tanto como incomparável, transcendente e ausente quanto como similar, imanente e presente.
A cosmovisão do entremeio
Para conhecer a situação real de todas as coisas, é preciso conhecer o Wujud Real, mas o si mesmo não tem fixidez e incorpora a relatividade, sendo um fluxo de relações.
A alma é configurada pela teia de relações que a moldam, incluindo tudo o que escapa aos métodos da investigação racional e científica.
A alma é o entremeio supremo, situando-se entre todas as coisas.
O que distingue a alma humana é a abrangência das qualidades e características latentes dentro dela.
Potencialmente, a alma pode assumir como seus qualquer atributo e qualidade existentes, sendo o ponto central do wujud cósmico.
Após a morte, o primeiro reino é chamado barzakh (“istmo”), mas tudo na existência que não seja o Real é um istmo.
“Não há repetição na Automanifestação”: tudo que não é Deus é destruído e recriado a cada instante.
Deus é a “luz dos céus e da terra” (Q. 24:35), e todos os reinos da existência são raios da luz de Deus.
Imaginação cósmica
Khayal (imaginação ou imagem) é uma noção central no aparato conceitual de Ibn ‘Arabi, denotando tanto a faculdade interna quanto a realidade externa das imagens.
Os filósofos consideravam a imaginação uma das faculdades internas; Ibn ‘Arabi universalizou o conceito, mostrando que ele designa propriamente tudo o que não é Deus.
Todas as coisas são imagens do Wujud Real e também imagens do nada absoluto, cintilando entre o ser e o não-ser.
“O reino do ser não é nada além de imagem / mas em verdade ele é haqq. / Quem quer que compreenda este fato / agarrou os segredos do Caminho” (FH 159).
Ser uma imagem é ser um istmo entre um objeto que projeta a imagem e o local no qual a imagem aparece.
Como a própria substância da alma, a imaginação marca o ponto onde a vitalidade ativa da inteligência encontra os sinais e sedimentos percebidos pelos sentidos.
O cosmos (exterior, disperso, objetivado) e a alma (interior, concentrada, subjetivada) são duas imagens abrangentes do Real que se refletem mutuamente.
A alma
A alma é o único tópico de Ibn ‘Arabi, pois só se pode conhecer o que se é, e todo conhecimento humano é simplesmente a articulação da consciência e da percepção humanas.
Tudo o que se conhece é o si mesmo, pois a consciência e o conhecimento estão situados dentro do si mesmo.
As coisas externas são imagens lançadas no espelho do nada, sem permanência ou substancialidade.
O conhecimento humano é uma imagem interna de uma imagem externa; na medida em que o conhecimento coincide com a realidade da coisa conhecida (a entidade fixa), a imagem interna é mais real do que a imagem externa.
A alma do Homem Perfeito toma a totalidade do mundo como seu objeto; juntos, a alma perfeita e o cosmos são uma única realidade unitária.
Para apreender a plenitude e integração da alma, é preciso habitar na raiz de todas as almas: o sopro divino soprado no barro de Adão, o Sopro do Misericordioso, o Significado Divino.
A raiz da alma
Conhecer a alma é situá-la dentro do grande fluxo que é o cosmos, o que depende do conhecimento dos princípios e raízes da realidade.
Os nomes divinos representam as raízes das coisas no próprio Deus, significando as modalidades básicas do Wujud Real.
Como o Uno/Múltiplo, Deus é a raiz da autoexpressividade divina ou do Logos (conhecido como Istmo Supremo, Imaginação Não Delimitada, Realidade do Homem Perfeito, Sopro do Misericordioso).
Os 124.000 profetas (de Adão a Muhammad) funcionam como uma ponte entre a unidade do Logos e as diversas possibilidades do devir humano, designando as raízes divinas da multiplicidade à medida que se tornam humanamente incorporadas.
Tudo o que não é Deus é uma imagem, então nada pode ser conhecido em si mesmo; o conhecimento final é o conhecimento do não-saber, chamado hayra (“perplexidade” ou “desnorteamento”).
“Não percebi a realidade de coisa alguma – / Como posso perceber uma coisa na qual Tu estás?” (D. 96).
Controvérsias
Ibn ‘Arabi tem sido visto com hostilidade por muitos teólogos e juristas muçulmanos porque ameaça todas as certezas fáceis, lançando um ataque maciço às afirmações diretas.
Ibn ‘Arabi não nega a validade relativa e utilidade do dogma, mas desestabiliza mentes não reflexivas ao mostrar que todas as distinções preto no branco do dogma são sombras ilusórias.
Seus alvos são as opiniões e ensinamentos dos eruditos (especialmente juristas, teólogos e filósofos), cujas explicações da realidade ele submete a críticas devastadoras.
A grande contribuição de Ibn ‘Arabi ao aprendizado islâmico foi afrouxar e desarticular todos os pontos fixos de referência aos quais as pessoas se agarram em suas crenças e opiniões.
A fórmula do tawhid (“Não há deus senão Deus”) mina radicalmente tudo o que não é Deus, incluindo todas as crenças e certezas sobre Deus e o mundo.
Os deuses da crença
Tudo o que não é Wujud Real é um istmo, uma imagem, um entremeio; portanto, tudo o que as pessoas adoram e servem só pode ser uma imagem baseada em seu próprio entendimento.
Todos são adoradores de ídolos, pois todos adoram um deus que fabricam em suas próprias mentes.
Todos adoram a si mesmos, pois o que é adorado é o que é conceituado, apreendido, acreditado e compreendido, e isso não pode estar fora do si mesmo.
O deus que é conhecido não é o Deus que simplesmente é, mas sim o deus que precisa ser negado: “Ninguém conhece a Deus senão Deus.”
O Significado do qual Adão é a forma é o Logos, a totalidade do Si mesmo automanifestante de Deus, a unidade primal de todas as imagens que constituem o universo, o Istmo Supremo, a realidade eterna do Homem Perfeito.
Quando se conhece a forma de Deus, reconhece-se a si mesmo como a forma da automanifestação de Deus: o sujeito cognoscente percebe que não é outro senão o objeto conhecido.
O processo humano de conhecer a si mesmo é interminável, porque a alma não tem margens neste mundo nem no próximo.