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19. Transcendendo os Deuses da Crença

A fé islâmica exige crença nos objetos revelados — Deus, os anjos, os profetas, as escrituras e o Último Dia — e a crença, no sentido técnico árabe, é um nó atado no coração, uma convicção que algo é verdadeiro.

A Raiz da Crença

Nenhum ser humano possui exatamente a mesma crença que outro, porque cada existente é uma autorrevelação de Deus que difere de todas as demais.

A extensão em que uma pessoa aperta o nó de sua crença, mais ela se afasta da Realidade Divina, que é por definição Não-Delimitada.

A Respiração do Todo-Misericordioso é a Imaginação Não-Delimitada, e a percepção das formas dentro dela depende da receptividade dos sujeitos que percebem.

Adorando a Deus e a Si Mesmo

As pessoas imaginam que creem em Deus, mas na realidade creem na autorrevelação de Deus a elas mesmas, que sempre assume a forma do receptáculo.

Deus possui dois tipos de autorrevelação: a “invisível” e a “visível”.

A crença é um nó, uma amarração, uma vinculação — Deus em Si mesmo é incognoscível para qualquer “outro”, pois é absolutamente não-delimitado e indefinido.

Na última passagem do Fusus al-hikam, Ibn al-'Arabi resume suas visões sobre o Deus criado pela crença do servo ao discutir a oração ritual (salat).

Conhecendo a Si Mesmo

O hadith famoso — “Quem se conhece conhece seu Senhor” — recebe de Ibn al-'Arabi uma nova nuance: quando o servo chega a conhecer a si mesmo e por isso conhece a Deus, ele não conhece a Deus em Si mesmo, mas como seu próprio Senhor.

Quando o servo louva a Deus, faz isso por nomes de incomparabilidade ou por nomes de atos.

No Fusus al-hikam, Ibn al-'Arabi afirma: “Sabei que o que é chamado 'Deus' é Um em Essência mas Todo (al-kull) pelos nomes. Nenhum existente tem nada de Deus exceto seu próprio Senhor específico. Não pode possivelmente ter o Todo… O que se lhe designa do Todo é apenas o que lhe corresponde, e isso é seu próprio Senhor.” (Fusus 90, 91)

Caminhos da Crença

A tremenda variedade das crenças humanas pode ser classificada segundo o grau em que as pessoas declaram a incomparabilidade de Deus ou reconhecem Sua similaridade.

Os caminhos das crenças estão ordenados em graus: alguns veem a Deus apenas em termos negativos pela incomparabilidade; outros veem Seus Mais Belos Nomes em direção à incomparabilidade; outros ainda O veem apenas em termos de Sua similaridade.

Uma das estações do caminho sufi é a “examinação” (muraqaba), por meio da qual o servo se guarda e observa Deus manifestando-Se no cosmos e em si mesmo.

Crença e a Lei

Embora as pessoas adorem a Deus em qualquer forma que o façam, são ordenadas a adorá-Lo como Allah — e a adoração específica que leva o servo à felicidade é determinada pela Lei revelada, o comando prescritivo.

Ibn al-'Arabi resume as causas das crenças divergentes ao discutir os diferentes tipos de seres humanos que Deus traz à existência.

Depois de discutir a estação exaltada do homem perfeito, Ibn al-'Arabi aconselha o leitor a seguir o Profeta Muhammad como espelho.

A Crença do Gnóstico

Deus em Si mesmo é absolutamente não-delimitado — o que significa que Ele não é delimitado pela não-delimitação — e por esse mesmo fato pode, por meio de Sua autorrevelação, assumir toda constrição e confinamento.

O gnóstico acredita em toda crença, mas não pode expressar a raiz fundamental de sua própria crença sobre Deus, pois ela remonta ao “paladar” (tasting), e o paladar não pode ser expresso pela terminologia técnica.

Visão Beatífica

Nenhuma criatura pode exibir a Deus como Ele é em Si mesmo — apenas como Ele Se revela — e entre todas as criaturas, os seres humanos possuem a característica particular de poder participar ativamente na manifestação de suas próprias realidades.

Ibn al-'Arabi alerta: “Guardai-vos de vos tornardes delimitados por um nó específico e desacreditar em tudo o mais, para que grande bem não vos escape. Antes, sede em vós mesmos uma hyle para as formas de todas as crenças, pois Deus é mais vasto e mais tremendo do que para ser constrângido por um nó em vez de outro.” (Fusus 113)

20. Vendo com Dois Olhos

Deus é Um — o que significa que tudo além de Deus é dois ou mais — e a Unicidade absoluta e não-delimitada pertence apenas à Essência.

Do ponto de vista de certa perspectiva, a mais fundamental de todas as dualidades é a entre o Ser Não-Delimitado e o nada absoluto.

Dualidade e os Sinais da Unidade

Embora a dualidade exiba suas propriedades e efeitos por toda a existência, cada propriedade e cada efeito é um sinal (aya) da Unicidade de Deus.

Cosmologicamente falando, a dualidade começa com o Primeiro Intelecto — o polo ativo da existência espiritual e inteligível — emparelhado com a Alma Universal, o polo receptivo.

O Possuidor dos Dois Olhos

Onde quer que o gnóstico olhe, ele vê o único Deus — mas, habitando na multiplicidade, o vê de dois pontos de vista: como incomparável e como similar.

Estando com Deus Onde Quer que Estejas

O homem não tem acesso ao domínio da Unidade Absoluta — a Essência permanece inacessível e incognoscível para toda criatura sempre e para sempre.

Duas Perfeições

O homem perfeito possui dois tipos de perfeição: uma relacionada à sua realidade essencial como forma de Deus, e outra relacionada aos vários atributos e qualidades que manifesta em suas funções específicas neste mundo e no próximo.

Em sua perfeição dual, o homem perfeito percebe a Deus com dois olhos: por um O vê como incomparável, pelo outro como similar — esta é a perfeição do conhecimento.

Servindo aos Nomes Divinos

Em relação à Essência de Deus, o homem perfeito manifesta o nome abrangente Allah; em relação à Sua autorrevelação e à perfeição da virilidade, manifesta os nomes individuais de Deus.

O Povo da Blame

Ao manifestar todos os nomes divinos sem nenhum traço de Senhoria e assim exibir a servidão perfeita, o homem perfeito torna-se, por assim dizer, totalmente ordinário.

A Estação de Nenhuma Estação

A perfeição é um equilíbrio em que todos os nomes divinos desempenham seu papel adequado sem a predominância de um nome ou de alguns nomes sobre os outros.

O servo verdadeiro de Deus manifesta as propriedades do nome Allah da maneira mais perfeita — e três propriedades se destacam: a declaração de incomparabilidade, a adoração e o pasmo (hayra).