ONTOLOGIA

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5. EXISTÊNCIA E NÃO-EXISTÊNCIA

Ibn al-Arabi é reconhecido como fundador da escola da Unidade do Ser, segundo a qual há somente um Ser e toda existência é manifestação ou irradiação desse Único Ser, de modo que tudo o que não é esse Único Ser — ou seja, o cosmos inteiro — é inexistente em si mesmo, ainda que possa ser considerado existente por meio do Ser.

Ser/Existência e o Existente: Wujud e Mawjud

A discussão sobre a Unidade do Ser gira em torno da palavra wujud, que pode ser traduzida como Ser, existência ou encontrar, e cujos dois sentidos principais precisam ser distinguidos: “Ser” designa a realidade e essência próprias de Deus, enquanto “existência” designa o fato de certas coisas serem encontradas no cosmos.

Coisas Possíveis

Os filósofos distinguiram o Ser Necessário das “coisas possíveis” (mumkin) e das “coisas impossíveis” (mumtani ou muhal): o Ser Necessário é aquela realidade que não pode não ser; a coisa impossível não pode vir à existência no cosmos; a coisa possível é aquela cuja relação com a existência e a não-existência é igual.

Entidades

O termo mais familiar para estudantes de Ibn al-Arabi em língua inglesa é 'ayn, traduzido no presente trabalho como “entidade”; em seu sentido técnico, o termo se refere à especificidade, particularização e designação — aquilo que distingue uma coisa de outra.

6. A NOVA CRIAÇÃO

A discussão sobre a Unidade do Ser deixa um quadro relativamente estático de tudo o que existe, mas poucos conceitos são tão centrais aos ensinamentos de Ibn al-Arabi quanto a mudança: “tudo que não é Deus” habita, por definição, um fluxo contínuo, enquanto somente o Ser permanece inalterado, exibindo as propriedades infinitas do Ser em variedade caleidoscópica.

Possibilidade Infinita

As coisas possíveis em seu estado de não-existência são infinitas em número; a possibilidade é um Tesouro inesgotável do qual Deus continua criando para sempre, conforme aludido no versículo “Não há coisa cujos tesouros não estejam conosco, e não a enviamos senão em medida conhecida” (15:21).

Renovação Perpétua

Ibn al-Arabi localiza a exposição teórica da ideia de uma criação perpetuamente renovada nos teólogos asharitas, embora critique a perspectiva deles como incompleta: eles sustentavam que o cosmos é composto de substâncias (jawahir) e acidentes (a'rad) e que “o acidente não permanece por dois momentos (la tabqa zamanayn)”, mas não compreenderam que o cosmos inteiro é uma coleção de acidentes, passando por mudança contínua (tabaddul) a cada momento.

Tarefas Divinas

Ibn al-Arabi cita o versículo “Cada dia Ele está sobre alguma tarefa” (55:29) mais do que qualquer outro para sustentar a nova criação; o “dia” aqui é o menor de todos os dias, correspondendo ao instante presente ou ao “momento indivisível” (al-zaman al-fard), enquanto as “tarefas” divinas são todas as coisas, estados e situações encontrados na existência engendrada.

Rompimento de Hábitos

Ibn al-Arabi emprega o conceito de nova criação em contextos inesperados, como ao discutir os “atos carismáticos” (karamat), os milagres realizados pelos amigos de Deus; a palavra para “milagre” é “rompimento do hábito” (kharq al-'ada), mas, etimologicamente, um “hábito” ('ada) é “aquilo que retorna” — e, segundo o Sheykh, não há nada habitual, pois tudo é constantemente renovado e nada jamais retorna.

Transmutação e Transformação

Um dos suportes escriturísticos mais explícitos para a contenda de Ibn al-Arabi de que Deus pode assumir um número indefinido de “tarefas” conforme cada criatura é encontrado em um hadith de Sahih Muslim, que descreve a cena no Dia da Ressurreição, quando Deus aparece a cada grupo de pessoas em variadas formas; eles O negam em cada forma, até que “Ele Se transmuta (tahawwul) na forma em que O viram pela primeira vez e diz: 'Eu sou o vosso Senhor'”.

Auto-revelação e Receptividade

Deus é o Manifesto e o Não-Manifesto: pelo nome Manifesto, Ele Se revela de modo primordialmente “ontológico”, criando o universo; pelo nome Não-Manifesto, Ele Se revela de modo primordialmente “epistemológico” às compreensões e insights de Suas criaturas; na visão do Sheykh, existência e conhecimento são dois nomes para a mesma realidade.

Não-revelação e Receptividade — Hierarquia Ontológica

Cada entidade é um “receptáculo” (qabil) para o Ser; na medida em que é capaz de receber e manifestar o Ser, diz-se que “existe”, embora, de fato, a existência pertença apenas a Deus; os objetos inanimados demonstram um nível de capacidade, as plantas um nível superior, os animais um ainda mais elevado, e os seres humanos o nível mais elevado entre todas as coisas criadas; apenas o Homem Perfeito possui a receptividade para exibir o Ser em Sua plenitude.

Nenhuma repetição nas Auto-revelações

Ibn al-Arabi cita Abu Talib al-Makki (m. 386/996), autor do famoso manual sufi Qut al-qulub, como dizendo: “Deus jamais Se revela sob uma única forma a dois indivíduos, nem sob uma única forma duas vezes”; essa afirmação tornou-se o axioma sufi: “La takrar fi'l-tajalli” — “Não há repetição na auto-revelação”.

O Coração

Uma das palavras empregadas como sinônimo de transformação é taqallub ou “flutuação”; da mesma raiz vem a palavra qalb ou “coração”; o Sheykh vê o coração como um lugar de mudança e flutuação constantes, encontrando a raiz divina da natureza flutuante do coração mencionada em vários hadiths, como: “Os corações de todos os filhos de Adão são como um único coração entre dois dos dedos do Todo-Misericordioso; Ele o gira (tasrif) onde quer que deseje”.

Não-delimitação

Deus em Si mesmo é livre de qualquer restrição, “Independente dos mundos”, “não-delimitado” (mutlaq) por qualquer atributo; consequentemente, Ele não é somente Não-delimitado, mas também livre da delimitação pela não-delimitação — ou seja, por ser livre de todas as limitações, é também livre da limitação de ser livre; como resultado, pode delimitar-Se por meio de todas as restrições e limitações, sem com isso tornar-Se delimitado por elas.

7. IMAGINAÇÃO CÓSMICA

Ninguém encontrará verdadeiro conhecimento da natureza das coisas buscando explicações no “ou/ou”; a situação real deve ser buscada no “tanto/quanto” ou no “nem/nem”; a ambiguidade não surge simplesmente de nossa ignorância, sendo antes um fato ontológico, inerente à natureza do cosmos; nada é certo senão o próprio Ser, e ainda assim Ele é a “coincidência dos opostos” (jam' al-addad), reunindo todos os opostos em uma única realidade.

Ele/Não-Ele

O versículo corânico que Ibn al-Arabi cita mais frequentemente para mostrar a radical ambiguidade da existência foi revelado após a batalha de Badr: “Não foste tu quem lançou quando lançaste, mas foi Deus quem lançou” (8:17); o versículo afirma a realidade individual do Profeta, depois a nega, dizendo que Deus era de fato a realidade por trás da aparência.

Imaginação

Segundo Ibn al-Arabi, a realidade do “Ele/não-Ele” encontra sua expressão mais clara no cosmos por meio da imaginação (khayal); nos sonhos, por exemplo, uma pessoa vê coisas corpóreas que não são coisas corpóreas; os objetos vistos possuem formas corpóreas, mas habitam não no mundo dos corpos corpóreos, mas naquele mundo imaginal que é a alma.

Sonhos

Os sonhos são citados como a experiência humana mais comum da natureza das coisas imaginais; neles se veem coisas que não são coisas; é possível dizer a alguém “vi você em sonho ontem à noite”, sabendo perfeitamente que a afirmação não é completamente verdadeira nem completamente falsa; os sonhos são, de fato, uma chave dada por Deus para desbloquear o mistério da ambiguidade cósmica.

A Manifestação do Impossível

Compreender a imaginação é a chave para vários tipos de conhecimento normalmente ocultos à mente racional, pois a imaginação é capaz de combinar opostos e contradições; por exemplo, apenas a imaginação fornece os meios para captar o significado dos relatos revelados concernentes à vida após a morte, relatos repletos de ocorrências logicamente impossíveis.

8. O BARZAKH SUPREMO

O Ser é uno e imutável, enquanto as coisas existentes jamais permanecem quietas por um instante; a fonte dessa agitação constante deve ser buscada na relação entre Deus e o nada, relação tornada possível pelo barzakh que se interpõe entre os dois; para diferenciar esse “Barzakh Supremo” (al-barzakh al-a'la) do barzakh que fica entre o mundo dos espíritos e o mundo dos corpos corpóreos — e que corresponde à alma no microcosmo —, ele será referido simplesmente como o Barzakh.

A Nuvem

O Profeta foi perguntado: “Onde (ayn) estava nosso Senhor antes de criar as criaturas (khalq)?”; ele respondeu: “Ele estava em uma nuvem, acima da qual nem abaixo da qual havia qualquer ar (hawa')”; Ibn al-Arabi explica que a palavra 'ama' significa uma nuvem tênue rodeada de ar e que, ao descrever a Nuvem dessa forma, o Profeta informou seus ouvintes que ela é diferente de qualquer nuvem que tenham visto.

O Sopro do Todo-Misericordioso

Ibn al-Arabi cita dois hadiths como fonte para a expressão “Sopro do Todo-Misericordioso” (nafas al-rahman): “Não amaldiçoeis o vento, pois ele deriva do Sopro do Todo-Misericordioso!” e “Encontro o Sopro do Todo-Misericordioso vindo na direção do Iêmen”; em ambos os casos, a palavra nafas alude a um tipo de tanfis, que significa aliviar, consolar, remover o sofrimento.

Alívio por Meio da Misericórdia

A misericórdia (rahma) pode ser dividida em dois tipos básicos: a misericórdia essencial (dhatiyya) ou misericórdia de dom gratuito (al-imtinan, al-minna), que é all-inclusiva ('amma), pois nenhuma coisa existente está excluída dela — “a própria existência é uma misericórdia para toda coisa existente” (II 281.27) —; e a misericórdia de obrigação (wujub), que é específica (khassa), pois sua outorga se torna obrigatória para Deus apenas no caso de certos servos que passam a merecê-la.

O Real Por Meio de Quem a Criação se Realiza

A palavra haqq é um substantivo e adjetivo que significa verdade, correção, retidão, adequação, real, são, válido; Ibn al-Arabi e muitas outras autoridades muçulmanas consideram os termos Allah e al-haqq basicamente sinônimos e os empregam de forma intercambiável; o termo al-haqq frequentemente evoca seus próprios contrários — al-khalq (“criação” ou “criaturas”) e al-batil (“falsidade” ou “irreal”).

A Realidade Universal

O termo “realidade” (haqiqa) é frequentemente usado como sinônimo de entidade; a “realidade de uma coisa” é a entidade imutável de uma coisa existente, ou a coisa tal como é conhecida por Deus; se se consideram os noventa e nove nomes de Deus como as realidades universais do cosmos, então cada entidade imutável pode ser chamada de realidade particular.

Natureza

Ibn al-Arabi chama o Barzakh Supremo por vários outros nomes, como a Realidade do Homem Perfeito e a Realidade Muhammadana; ao identificar o Barzakh e a Natureza, ele relaciona seus ensinamentos cosmológicos diretamente à tradição filosófica; o termo tabr'a alude ao lado feminino de uma relação macho/fêmea, ativo/receptivo, yang/yin.