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15. PONDERAÇÃO DA AUTORREVELAÇÃO
A aceitação do que provém de Deus não dispensa a faculdade racional de discernimento, mas fundamenta-se na fé dupla testemunha de que não há outro deus além de Deus e de que Muhammad é Seu Mensageiro, sendo o desvelamento uma verificação da fé que transforma o conhecimento teórico em visão direta.
O conhecimento derivado do desvelamento para o Povo de Deus assume exatamente a forma da fé, pois a fé é toda verdadeira e o Profeta a anuncia com base em desvelamento sólido.
A reflexão, como poder específico da razão, tem seu papel importante, mas não pode contradizer a palavra de Deus, devendo-se reconhecer que as provas racionais são limitadas quando entram em contradição com a revelação.
O conhecimento divino não entra em qualquer balança, pois Ele próprio estabeleceu a balança; o conhecimento contradiz a razão porque esta é uma limitação, enquanto o conhecimento provém de uma marca que indica a própria coisa.
Qualquer desvelamento, sabor, intuição, testemunho ou autorrevelação que contradiga o sentido literal do Alcorão e da Tradição deve ser abandonado, pois o desvelamento, como a razão, deve submeter-se à Balança da Lei.
O amigo de Deus é sempre seguidor do Profeta, nunca independente de sua orientação, resumindo seu papel no versículo corânico que ordena dizer: “Chamo a Deus com intuição, eu e quem me segue”.
O desvelamento pode acrescentar profundidade de entendimento e certeza à doutrina, mas não pode mudar nenhum de seus princípios ou corolários, nem pode acrescentar nada à prática além do entendimento.
Se um comando divino se manifestar tornando lícito algo declarado ilícito pela Lei Muhammadiana, a pessoa foi enganada e deve abandonar esse comando, retornando ao veredito estabelecido da Lei.
O amigo de Deus nunca recebe o comando de seguir um conhecimento que contenha uma legislação que ab-rogue sua Lei, mas pode ser inspirado a compor uma forma não especificada na Lei em seu todo, desde que cada parte derive do que a Lei estabeleceu.
O Mensageiro estabeleceu em sua Tradição que o amigo pode estabelecer um costume, desde que não se oponha à Lei estabelecida tornando lícito o ilícito ou ilícito o lícito, sendo esta a participação do amigo na profecia.
O Verificador é aquele que sustenta a Balança em toda presença, seja de conhecimento ou de prática, conforme o que a Balança exige, conhecendo a balança não por reflexão ou lógica, mas por temor a Deus.
O desvelamento do amigo nas ciências divinas não ultrapassa o que é dado pela escritura e revelação de seu profeta, pois todo desvelamento não testemunhado pelo Livro e pela Tradição não é nada.
A INVIOLABILIDADE DA LEI
A Lei é uma dimensão exterior da Realidade, enquanto a Realidade é a dimensão interior da Lei, negando-se qualquer distinção real entre shari'a e haqiqa, pois a Lei e a Realidade Divina que ela manifesta são idênticas.
Não há realidade que se oponha a uma Lei, já que a Lei é uma das realidades e as realidades são semelhantes; a Lei nega e afirma simultaneamente, como quando diz que nada é como Ele e ao mesmo tempo que Ele é o Ouvinte, o Vidente.
Os anjos da revelação descem sobre os profetas, ou certas tenuidades descem dos anjos sobre os corações dos amigos de Deus, mas nenhum anjo jamais desce com revelação sobre o coração de outro que não seja um profeta.
A profecia e a mensagem foram cortadas com Muhammad, não restando nenhuma criatura a quem Deus desse um comando que fosse uma Lei para adoração; quem afirma o contrário reivindica uma profecia que foi cortada.
As visões em sonho vistas por um muçulmano ou para ele são verdadeiras e uma revelação, podendo ocorrer durante o sono ou em outros momentos, sendo uma imaginação verdadeira na faculdade imaginativa.
Quando o anjo traz um veredito ou relato contendo conhecimento a um profeta, o espírito humano encontra a forma imaginal e os dois se encontram, ocorrendo um estado que altera a fisiologia da pessoa.
Se a descida for uma inspiração, pode ocorrer para um amigo ou profeta, sendo que o amigo de Deus coloca o que recebe ao lado do Livro e da Tradição, vendo-o como um discurso verdadeiro se conforme, ou como uma tentação se não conforme.
ESTADOS ESPIRITUAIS
Um estado é aquilo que entra no coração sem esforço próprio ou tentativa de atraí-lo, tendo como uma de suas condições desaparecer e ser seguido por seu semelhante até se extinguir, diferenciando-se da estação por sua transitoriedade.
Os estados são dádivas divinas, enquanto as estações são aquisições permanentes do viajante espiritual, que não possuem a instabilidade e natureza fugaz dos estados.
Deus ordenou a Seu Profeta que dissesse “Meu Senhor, aumenta-me em conhecimento” para que, através do novo conhecimento, ele pudesse ascender a uma estação com Deus que não possuía.
Os estados pertencem perpetuamente a toda coisa criada neste mundo e no próximo, sendo que Deus cria os estados perpetuamente dentro das criaturas.
Os possuidores de estados engendram coisas através de suas Resoluções e afastam as causas secundárias para longe de si, mas Ibn al-Arabi não valoriza os milagres, pois não provam nada sobre a situação da pessoa diante de Deus.
O verdadeiro amigo de Deus é aquele que, ao ser visto, faz lembrar de Deus, vivendo na extremidade de sua fraqueza e sendo uma misericórdia divina dentro da existência engendrada.
Quando os viajantes são dominados por estados, tornam-se como loucos e deixam de ser responsáveis perante a Lei enquanto experimentam o estado, perdendo muito bem, razão pela qual os grandes nunca buscam estados, mas apenas estações.
PERFEIÇÃO DA IMPERFEIÇÃO
Não há coisa imperfeita no cosmos, pois Deus deu a cada coisa sua criação, que é idêntica à perfeição daquela coisa, sendo a imperfeição um acidente cuja essência é a perfeição.
A perfeição do Ser exige a manifestação de Suas propriedades, e os efeitos dos nomes e atributos devem ser exibidos para que Deus seja Deus, demandando a existência da imperfeição para que a criação exista.
Os seres humanos e os gênios nascem em uma situação ambígua que permanece ambígua até a morte, viajando para cima respondendo à convocação da Lei ou para baixo respondendo ao comando do Desejo, até atingirem a estação conhecida para a qual foram criados.
O ciúme é um atributo divino que exige o “outro”, e Deus trouxe o cosmos à existência segundo o modo mais perfeito que a existência poderia assumir, sendo parte da perfeição do cosmos a existência de imperfeição relativa dentro dele.
O ARGUMENTO CONCLUINTE DE DEUS
Deus conhece as coisas através de Seu conhecimento de Si mesmo, e o cosmos emerge sobre Sua forma, não possuindo nenhuma propriedade que escape a Ele, pois Ele é o Senhor e Mestre de cada coisa.
O conhecimento segue seu objeto, de modo que Deus não “faz” a coisa ser como ela é, mas meramente a conhece como ela é em si mesma, trazendo-a à existência de acordo com a medida de Seu conhecimento.
A coisa possível é chamada assim porque se equidista entre existência e não-existência, mas uma vez que Deus sabe que uma das duas possibilidades ocorrerá, ela deve ocorrer, sendo chamada de “existente necessário através do Outro”.
A Deus pertence o argumento concluinte contra aqueles que estão velados, pois no Dia da Ressurreição verão que o Real não lhes fez o que alegam, já que tudo derivou deles mesmos.
O CAMINHO RETO
O significado de retidão é movimento e repouso sobre o caminho estabelecido pela Lei, sendo o caminho reto a Lei divina, cuja fé em Deus é o início e cujos ramos da fé são suas estações.
Todos os caminhos levam a Deus, mas nem todos que retornam a Ele alcançam felicidade; o caminho da felicidade é o estabelecido pela Lei, nada mais.
O caminho específico que pertence ao Profeta é o Alcorão, a corda firme de Deus e a Lei abrangente, sendo este o caminho reto que os muçulmanos rezam para serem guiados, delimitado ao caminho do Profeta.
Deus diz que este é Seu caminho reto, para que o sigam e não sigam caminhos diversos, que os dispersariam de sua estrada, ou seja, a estrada onde está sua felicidade.
NOBREZA DE CARÁTER
A perspicácia através da fé é uma luz divina que Deus concede à pessoa de fé no olho de sua intuição, discernindo o louvável do censurável, sendo atribuída ao nome Allah porque desvela tanto o louvável quanto o censurável.
O médico divino trata os traços de caráter e disciplina os desejos da alma através de lembrança, admoestação e chamando atenção para os assuntos mais elevados, examinando o que a configuração da alma requer.
O Profeta foi enviado para completar os nobres traços de caráter, transformando os traços censuráveis em louváveis ao explicar como aplicá-los adequadamente, unindo o que fora chamado de traços base aos nobres.
O Muçulmano recita na Fatiha três caminhos diferentes: o caminho reto, o caminho daqueles contra quem Deus está irado e o caminho daqueles que estão extraviados, sendo um reto e dois tortuosos.
SEGURANÇA NA SERVIDÃO
A servidão é a atribuição do servo ao seu Senhor, seguindo o comando sem oposição, enquanto a serventia é a atribuição ao locus divino de manifestação, podendo haver oposição ao comando em respeito a ser um locus de manifestação.
A adoração é de dois tipos: inerente, que pertence por direito à Essência do Real e deriva de uma autorrevelação divina; e convencional, comandada, que deriva da profecia.
O servo é servo por sua essência e não pode competir com o Senhor em Sua Senhoria, mesmo quando ambos existem; quem declara a Unidade de Deus não assume os traços dos nomes divinos de forma competitiva.
Os grandes gnomônicos sempre preservam a cortesia para com Deus e nunca são vencidos pela desatenção, ao contrário dos gnomônicos menores que às vezes sucumbem à influência de um estado e proferem dizeres como “Eu sou o Real”.
OBRIGAÇÕES E SUPERERROGAÇÕES
As obras obrigatórias são atos a serem realizados ou evitados que Deus tornou incumbentes e inequivocamente necessários para Seus servos, enquanto as obras supererrogatórias são atos voluntários que resultam no amor de Deus pelo servo.
O servo se aproxima de Deus através das obras obrigatórias, e quando alguém adquire o fruto disso, ele é a audição e a visão do Real, de modo que o Real deseja através de seu desejo.
As obras obrigatórias resultam no servo ser o atributo do Real — Sua audição e Sua visão — enquanto o amor das obras supererrogatórias resulta no Real ser a audição e visão do servo, sendo o grau mais elevado o das obrigatórias.
O Mensageiro de Deus disse que Deus afirma: “Meu servo se aproxima de Mim através de nada que Eu ame mais do que aquilo que lhe tornei obrigatório”, sendo esta uma servidão compulsória, enquanto as obras supererrogatórias são uma servidão de livre escolha.