PRELIMINARES METAFÍSICAS

Dagli, Caner K. Ibn al-ʻArabi and Islamic intellectual culture: from mysticism to philosophy. London New York (N.Y.): Routledge, 2016.

Preliminares Metafísicas

Ta'ayyun deriva da raiz árabe 'ayn e designa o processo pelo qual algo se torna ou é constituído como uma 'ayn, termo de sentidos múltiplos que remete à especificidade e à particularização de cada coisa.

Quando o termo 'ayn aparece isolado nos escritos akbarianos, refere-se habitualmente à identidade imutável, entendida como arquétipo universal ou particular e como a realidade mais íntima de cada coisa.

Existem duas grandes estratégias de tradução para 'ayn e ta'ayyun, cada uma com vantagens e limites conforme o contexto.

A limitação do termo “identificação” torna-se evidente quando ta'ayyun descreve não um ato do intelecto humano, mas a “descida” ontológica pelos níveis da realidade.

Ta'ayyun é simultaneamente um conceito epistemológico — relativo ao modo como o intelecto humano qualifica a realidade última — e um conceito metafísico — relativo à autodeterminação de Deus pela qual os níveis da realidade emergem.

Outros termos akbarianos se articulam diretamente com ta'ayyun e descrevem a progressão dos níveis ontológicos.

Tashkik designa um tipo de relação entre termos que não é nem sinonímia convencional nem homonímia convencional, conforme delineado por Farabi no Kitab al-Huruf.

O conceito de tashkik aparece em Ibn Sina com o sentido de predicação graduada ou não-unívoca, exemplificada pela predicação de “luminoso” aplicada ao sol, a uma lanterna e a uma vela.

Tashkik caracteriza primariamente um tipo de predicação e, em seu uso mais antigo, é conceito lógico que responde à questão de como um atributo é predicado de múltiplas coisas, permanecendo para os peripatéticos uma descrição situada entre univocidade e homonímia.

A tradução de tashkik por “equivocidade” enfrenta dificuldades terminológicas, pois o sentido medieval de “equívoco” não corresponde ao sentido contemporâneo.

Wolfson analisa a etimologia e a história das traduções de mushakkak, mostrando como o termo passou de “ambíguo” para “analógico” por influência de Tomás de Aquino.

O principal desafio de traduzir tashkik como “equívoco” reside na oscilação entre o sentido medieval — pelo qual a equivocidade não seria boa tradução — e o sentido contemporâneo — pelo qual o seria.

Comentários de Tusi sobre a Equivocidade no Sharh al-isharat

Nasir al-Din al-Tusi, filósofo peripatético e mutakallim xiita, recorre ao conceito de tashkik para responder a um desafio de Fakhr al-Din al-Razi acerca da relação entre o wujud de Deus e o wujud das demais coisas.

Razi — denominado pelo autor “digno comentador” de Tusi — considera problemática essa relação entre quididade e existência, pois ela implicaria que a existência de Deus e a existência de qualquer coisa particular teriam status igual.

A resposta de Tusi à objeção de Razi apoia-se no conceito de equivocidade — tashkik — e retoma pontos já formulados por Ibn Sina.

Nesse tipo de predicação — nem sinonímia nem homonímia —, aquilo que unifica as quididades das diversas coisas não pode ser parte intrínseca delas.

Razi apresenta uma objeção adicional: os filósofos afirmam que a realidade do Necessariamente Existente é incognoscível pela mente humana, mas também sustentam que sua existência pode ser conhecida a priori — o que pareceria implicar que a realidade de Deus é algo distinto de Sua existência.

Ao distinguir o wujud individual de Deus da noção geral de wujud que Ele partilha com as demais coisas existentes, Tusi supera o desafio de Razi, segundo o qual a relação entre essência e existência implicaria uma comunidade entre Deus e as coisas fatal para o estatuto de Deus como unicamente necessário em Seu wujud.