DESVELAMENTO DOS EFEITOS DA VIAGEM (2)

Ibn Arabi, tr. Denis Gril

§ 31

O efeito do Adão — a composição, o crescimento e a dissolução — revela que no Paraíso se anseia pelo prazer e pelas delícias, enquanto neste mundo se anseia pelo aumento e pela busca da ciência, razão pela qual o homem conhece aqui o que não conhece lá.

§ 32 — A viagem de Enoc (Idris) — a viagem da dignidade e da elevação em lugar e grau

Enoc foi o primeiro dos filhos de Adão a escrever com o cálamo, recebeu o primeiro influxo espiritual do Cálamo superior e foi conduzido em viagem noturna até o sétimo céu, abraçando assim todos os céus.

§ 33

Deus fez de todos os céus o receptáculo das ciências ocultas relativas aos seres que há de trazer à existência, e depositou em cada céu uma ciência confiada ao seu guardião, inscrevendo Sua ordem nos movimentos das esferas e nas conjunções e separações dos astros.

§ 34

Reconhecer as influências celestes não atenta contra o credo, pois Deus submeteu certas criaturas a outras; somente quem crê que o ato pertence aos astros e não a Deus comete associacionismo — mas considerar os astros como submetidos e seguindo o curso da sabedoria divina não o é.

§ 35

Enoc soube, pela ciência que Deus lhe inspirou, que todos os seres do mundo estão ligados entre si, e ao regular sua marcha pelo movimento lento fez o movimento rápido passar sob a autoridade deste — pois o movimento é circular e o ciclo do ser pequeno e rápido deve necessariamente retornar ao lento.

§ 36

Enoc desceu, escolheu os mais sagazes entre os adeptos de sua religião, ensinou-lhes os segredos do mundo superior e ordenou que os inscrevessem em rochas e pedras para que a ciência perdurasse após o dilúvio.

§ 37 — A viagem da salvação — a viagem de Noé

Noé soube que se aproximava o tempo da conjunção astral que Deus havia determinado em Sua sabedoria: ela ocorreria no signo de Câncer — elemento água —, o signo instável em que Deus criou o mundo, e Deus quis permutá-lo para o signo estável do leão.

§ 38

Noé embarcou na Arca “um casal de cada espécie” (Alcorão 11:40) e, quando o Forno borbulhou e as nuvens despejaram sua carga, as duas águas — a da terra e a do céu — foram reunidas, as montanhas foram submersas e a Arca se estabilizou sobre o monte Judi — alusão à generosidade divina (jud).

§ 39

A Arca é também a constituição interior de salvação do aspirante, e as mesmas forças que zombaram de Noé — a alma que ordena o mal, Satã, o mundo e a paixão — zombam de quem a edifica; o Forno, receptáculo do fogo, é o lugar de onde sairá a água, pois fogo e água são formas de uma mesma substância.

§ 40

A água simboliza a ciência — da qual provém a vida no plano sensível e no plano espiritual —, e os que pereceram afogados são os que recusaram a ciência transmitida por Noé; a água saiu do Forno porque nessa água eles haviam descrido, não reconhecendo que tannur é a luz (nur) acrescida do ta' do acabamento da constituição humana pelo corpo.

§ 41 — A viagem da guia — a viagem de Abraão, o Amigo íntimo

Abraão pediu a Deus um filho entre os santos — pediu, portanto, algo diferente d'Ele —, e Deus, ciumento, o pôs à prova exigindo o sacrifício do filho, o que era ainda mais terrível do que exigir o sacrifício de sua própria alma.

§ 42

Quem busca realizar a viagem da guia deve aprofundar plenamente o mundo de sua imaginação, onde as realidades superiores devem descer sobre ele; só o homem verdadeiro transpõe essa etapa — lugar de passagem, não buscado por si mesmo, mas pelo que nele se deve cumprir.

§ 43

Quem viaja no mundo de sua imaginação deve ultrapassá-lo para chegar ao das realidades superiores, onde vê as coisas como são e recebe o dom absoluto que não é condicionado por nenhuma obra de aquisição — dom que produz a permanência em Deus, ao contrário da contemplação que conduz à extinção.

§ 44 — A viagem sem retorno — a viagem de Ló em direção a Abraão e sua reunião com ele na Certeza

O nome Ló (Lut) em árabe significa “apegar-se à Presença divina”, e por isso ele se apoiava em Deus e nunca foi ligado a nenhum outro — o Enviado de Deus lhe prestou testemunho: “Deus tenha misericórdia de meu irmão Ló, ele se refugiava num apoio sólido.”

§ 45

As viagens dos profetas são pontes e passarelas para que o leitor passe sobre elas em direção à sua própria essência e a seus próprios estados — o objetivo declarado de Ibn Arabi não é a exegese das histórias proféticas, mas sua transposição interior.

§ 46 — A viagem do ardil e da prova — Jacó e José

A quem honra, Deus conduz em viagem na servidão — “Glória a Aquele que fez viajar de noite Seu servo” (Alcorão 17:1) —, pois o servo não pode adornar-se com ornamento mais belo do que a excelência de sua servidão; quem realizou plenamente essa estação fica exposto à prova.

§ 47

Quando Deus quer que a alma crente viaje em direção a Ele, a resgata de seus “irmãos” — a alma que ordena o mal e a alma que se censura —, separando-a de seu pai — o intelecto —, que fica triste e chora até perder a vista.

§ 48

A Alma universal recebeu José generosamente e se deu a ele; as almas particulares, ao vê-lo santificado fora dos desejos físicos, exclamaram: “Não é um ser humano; só pode ser um anjo nobre!” (Alcorão 12:31).

§ 49

A região do Intelecto — o pai — conheceu a seca; ao ouvir falar da opulência na cidade de seu filho, Jacó, cego, não sabia que era ele; José lhe enviou a camisa que guardava seu odor, e ao respirá-la Jacó a jogou sobre seu rosto e voltou a ver.

§ 50 — A viagem do tempo fixado por Deus — a viagem de Moisés

O servo que é verdadeiramente servo observa perante a Dignidade dominical todas as conveniências do serviço, não cobiça nada d'Ele e permanece inerte sem qualquer movimento; mas o desejo está escondido em sua natureza original como o fogo na pedra — e se inflama quando o Mestre promete conversar com ele.

§ 51

Os quarenta dias fixados a Moisés correspondem à consumação de sua forma corporal de quatro princípios — os quatro humores complexos: bile negra, bile, fleuma e sangue —, e o período foi anunciado primeiro como trinta para não assustá-lo desde o início com quarenta.

§ 52

O que sobrevém após esse tempo fixado não deixa no servo nenhum traço do servo — se é uma conversação, ele se torna todo ouvido; se é uma contemplação, ele se torna todo olho — e não está mais submetido ao estatuto exigido por sua essência.

§ 53

Depois de completar os trinta dias, Moisés se purificou a boca com o siwak — e ao buscar a santificação saiu da servidão, pois a Presença Sacro-santa só acolhe o servo, e o atributo de santidade não pertence ao servo; Deus acrescentou dez noites para que a santificação buscada por Moisés o abandonasse.

§ 54

Quando as teofanias divinas se manifestam, as montanhas viajam, prostradas pela majestade d'Aquele que assim se manifesta — e se as montanhas não suportam a descida do Alcorão, o que dizer diante da audição da Palavra divina sem intermediário?

§ 55 — A viagem da satisfação

A satisfação é uma qualidade tanto de Deus quanto da criatura, segundo o que convém a cada um; os dons de Deus são sem fim e os servos não conseguem cumprir tudo o que Deus lhes impôs segundo sua capacidade real — o que funda e confirma a satisfação mútua.

§ 56

Quem ignora seu estado ignora seu instante; quem ignora seu instante ignora a si mesmo; quem se ignora ignora seu Senhor — “Quem se conhece a si mesmo conhece seu Senhor.”

§ 57 — § 60 — A viagem da cólera e do retorno — Moisés e o Samaritano

Moisés retornou ao seu povo “em cólera, desesperado” (Alcorão 7:150) porque o Samaritano, ao ver o ângulo portador do Trono com a forma de touro, imaginou ser esse o deus que falava com Moisés, moldou o Bezerro com as joias do povo e, sabendo que Gabriel revivifica tudo por onde passa, jogou sobre o Bezerro um punhado de terra das pegadas de Gabriel — e o Bezerro mugiu.

§ 61 — A viagem do devotamento pelos seus

Deus disse pela voz de Moisés: “Avistei um fogo; talvez vos traga um tição ou encontre por esse fogo uma guia” (Alcorão 20:10) — Moisés não afirmou com certeza que o que viu era necessariamente um fogo; e de fato encontrou a guia.