DESVELAMENTO DOS EFEITOS DA VIAGEM

Ibn Arabi, tr. Denis Gril. ONLINE

§ 1 — Invocação e enumeração das viagens divinas e proféticas

A louvor pertence a Deus, que residia na Nuvem e se estabeleceu sobre o Trono após o acabamento da criação; que fez descer o Corão na Noite do Destino até o céu mais próximo; que fez viajar os planetas nas mansões do misto e da purificação, proclamando assim Seu próprio louvor pelas determinações de Sua onipotência.

§ 2 — Tipologia das viagens e das rotas

As viagens reconhecidas por Deus são três em número — e não quatro — : a viagem vinda d'Ele, a viagem em direção a Ele e a viagem em Ele; esta última é a viagem do extravio e da perplexidade, sem fim.

§ 3 — A viagem como lei universal da existência

A existência tem por origem o movimento; não pode portanto haver imobilidade nela, pois se ficasse imóvel retornaria à sua origem, que é o nada — e a viagem nunca cessa, no mundo superior e no inferior.

§ 4 — A viagem do ser humano através das fases da criação

Inúmeras viagens já foram realizadas através das fases da criação — desde o estado de sangue no pai e na mãe até o esperma, a aderência, o pedaço de carne, os ossos, a carne que os recobre, o nascimento, a infância, a juventude, a adolescência, a força juvenil, a maturidade, a velhice e a decrepitude.

§ 5 — A alternância perpétua dos estados e das realidades divinas

Não há imobilidade alguma; o movimento neste mundo é contínuo — a noite e o dia se sucedem, assim como se sucedem os pensamentos, os estados e as disposições segundo a alternância das realidades divinas em todas essas coisas.

§ 6 — O retorno do servidor sobre si mesmo e a distinção entre as viagens

O servidor deve fazer um retorno sobre si mesmo, refletindo e meditando sobre a distinção entre a viagem à qual a Lei divina lhe impõe preparar-se e aquela à qual ela não lhe impõe tal preparo.

§ 7 — Tipologia dos viajantes: os que vêm d'Ele, os que vão a Ele e os que viajam em Ele

Os viajantes vindo d'Ele são de três tipos, e os que viajam em direção a Ele são igualmente três; os que viajam em Ele se dividem em dois grupos.

§ 8 — A multiplicação do desvelamento nos tempos atuais e a redistribuição da ciência

O tempo de hoje não é o mesmo de outrora, pois se aproxima da morada do além — o desvelamento se multiplica nos homens da época atual, os cintilamentos das luzes começam a brilhar e a aparecer.

§ 9 — Anúncio do conteúdo do tratado

O presente breve tratado mencionará as viagens conhecidas por ciência e visão direta — viagens realizadas pelos profetas, viagens divinas, viagens das entidades espirituais — a fim de mostrar o que se deve desejar como viagem.

§ 10 — Viagem senhorial desde a Nuvem até o Trono

A tradição relata que se perguntou ao Enviado de Deus onde estava o Senhor antes de criar a criação, ao que ele respondeu: “Numa nuvem acima e abaixo da qual não havia ar.”

§ 11 — O estabelecimento do nome o Todo-Misericordioso sobre o Trono

Uma vez existenciada a esfera que abraça todos os seres — chamada Trono ou Assento real muito santo — era preciso um rei; a qualidade de todo-misericordiosidade devia reger essa separação entre o divino e o humano.

§ 12 — Os limites da reflexão diante da Divindade absoluta

Quando se deseja viajar em direção ao conhecimento do que está além dos nomes de atos, refletindo sobre esses nomes, essas reflexões saem da esfera do Trono sem todavia abandoná-la e separam-se dela, buscando atingir a Dignidade divina muito santa.

§ 13 — A viagem da criação e da ordem

Deus disse: “Em seguida Ele se estabeleceu em direção ao céu, que era então uma fumaça, e lhe disse, assim como à terra: — Vinde de bom grado ou à força. Elas responderam: — Viemos de plena vontade” (Corão 41:11-12).

§ 14 — O ornamento do céu mais próximo e os luminares

Uma vez desligados, os céus entraram em rotação; sendo transparentes em essência e em volume para não ocultar o que está além deles, os olhares avistaram os luminares estrelados da oitava esfera e os imaginaram no céu mais próximo.

§ 15 — A correspondência microcósmica: o homem como réplica do cosmos

Quando foi concluída a construção humana e assegurado seu equilíbrio, e quando a orientação divina produziu a insuflação superior no movimento da quarta das sete esferas, esse ser chamado “o homem” recebeu, graças à perfeição de seu equilíbrio, sozinho, o segredo divino.

§ 16 — A inspiração da ordem em cada céu interior

A Deus inspirou a cada céu sua ordem — a percepção das coisas sensíveis depositada nos sentidos, a representação das coisas imaginadas na imaginação e a das inteligíveis no intelecto.

§ 17 — O sentido da palavra 'viagem' (safar) e o desvelamento

Essa viagem desvelou seu rosto, indicou a transcendência de seu Mestre e produziu a manifestação do mundo superior; a viagem é chamada safar porque desvela (yusfiru) os caracteres dos homens, fazendo aparecer os caracteres censuráveis e louváveis que todo homem encerra em si.

§ 18 — A viagem do Corão incomparável

Deus fez descer o Corão na Noite do Destino, em uma única vez até o céu mais próximo; depois ele desceu sobre o coração de Muhammad de forma fragmentada — e essa viagem nunca cessa, enquanto as línguas recitam o Corão interior e externamente.

§ 19 — A descida contínua do Corão sobre os corações

A descida contínua do Corão sobre os corações dos servidores é provada pela impossibilidade do acidente de durar dois tempos seguidos e de se transferir de um lugar a outro.

§ 20 — A conveniência espiritual do Profeta ao receber o Corão

Quando Gabriel vinha trazer o Corão, o Profeta se apressava a recitá-lo antes que a inspiração fosse decretada — graças ao poder de seu desvelamento, ele tinha a intuição do que Gabriel trazia e sua língua apressava a chegada.

§ 21 — O Homem total como Corão incomparável

O Homem total, segundo a realidade essencial, é o Corão incomparável descido da presença de si mesmo em direção à Presença de seu Existenciador — que é também a Noite bem-aventurada por sua não-manifestação.

§ 22 — A viagem da visão através dos sinais divinos e da transposição simbólica

“Glória a Aquele que fez viajar de noite Seu servidor da Mesquita Sagrada até a Mesquita mais distante, em torno da qual pusemos Nossas bênçãos, para lhe mostrar alguns de Nossos sinais” (17:1).

§ 23 — O significado da servitude e das duas mesquitas

“Seu servidor” é precedido da partícula bi por duas razões, segundo os conhecedores da Realidade: por causa da correspondência entre a servitude — que é humilhação — e a partícula do “rebaixamento” e da “ruptura”, pois todo ser humilhado é quebrado.

§ 24 — Os sinais vistos pelo Profeta: nos horizontes e em si mesmo

Os sinais vistos pelo Profeta são de dois tipos: uns nos horizontes, outros nele mesmo — “Nós lhes mostraremos Nossos sinais nos horizontes e neles mesmos” (41:53).

§ 25 — Os sinais do Profeta em si mesmo e nos horizontes

Os sinais que o Profeta viu em si mesmo são sua conformidade ao si do Si em razão da servitude absoluta da servitude absoluta, na ausência da ausência, pelo olho do coração do coração ou do coração interior.

§ 26 — A viagem da provação ou a queda do alto ao baixo

O que ocorreu a Adão e Eva em aparência é uma viagem procedente d'Ele, como a de Iblis — mas enquanto no curso de sua viagem este último encontrou a realeza e o repouso que o conduzirão finalmente ao infelicidade eterna, Adão experimentou pena, fadiga e imposição legal que o conduzirão à felicidade.

§ 27 — O esquecimento de Adão, a desobediência e o papel de Iblis

Adão não prestou atenção à restrição divina que lhe proibia comer o fruto da árvore — o lugar do Paraíso não impõe a restrição, e a restrição intervinha num lugar que não a exigia.

§ 28 — O sentido da descida de Adão e o acabamento de sua constituição

A descida de Adão e Eva à terra é em aparência uma viagem procedente d'Ele, como a de Iblis — mas enquanto este último encontrou realeza e repouso que o conduzirão ao infortúnio eterno, Adão experimentou pena, fadiga e imposição legal que o conduzirão à felicidade.

§ 29 — Os conhecimentos adquiridos por Adão graças à imposição legal

No curso dessa viagem, Adão continuou a adquirir os conhecimentos que não teria podido obter sem a imposição legal — este mundo constitui para o servidor uma morada de acabamento e de aquisição dos conhecimentos reflexivos.

§ 30 — Os conhecimentos adquiridos por Adão por meio da desobediência

Graças à desobediência e à sua viagem, Adão adquiriu o conhecimento dos nomes de seu Senhor e dos efeitos produzidos por eles, assim como sua contemplação — como o Muito-Perdoador e o perdão, que ele ignorava até então.