FORMA ATUAL DA CAABA

GILIS, Charles-André. La doctrine initiatique du pèlerinage. Paris: Editions de l’Oeuvre, 1994.

A forma da Caaba foi modificada no tempo de Muhammad e permanece, desde então, inalterada, sendo possível reconstituir a forma do Templo anterior, herdado de Abraão, a partir dos dados fornecidos por um hadith atribuído a Aisha, esposa do Profeta, e utilizado por Ibn Zubayr contra os califas omíadas.

As modificações arquitetônicas da Caaba expressam, em linguagem simbólica, a decadência cíclica da humanidade ao se aproximar do polo substantiel do ciclo, sendo a forma cúbica atual, segundo Guénon, a representação adequada desse estado final.

O simbolismo dos três ângulos primitivos da Caaba abraâmica corresponde a tipos de pensamento segundo o coração, excluindo os pensamentos de inspiração diabólica, que somente irrompe com o quarto ângulo.

O termo kufr, habitualmente traduzido como incredulidade, comporta o sentido primeiro de cobrir ou ocultar uma graça, podendo ser compreendido como referência direta à transformação e à cobertura da Caaba realizadas pouco antes do início do Islã.

A eventualidade enunciada pelo Profeta de restabelecer a Caaba sobre as fundações abraâmicas aparece como confirmação da reforma arquitetural ocorrida, sugerindo que a mudança se deve unicamente a condições de ordem cíclica, sem que a cobertura acrescida modifique as qualidades e privilégios da Profecia.

A Caaba abraâmica, segundo o Cheikh al-Akbar, apresenta uma figura triangular isósceles — não equilátera — cujo terceiro lado menor permite estabelecer distinção entre os dois lados iguais que simbolizam as duas alças divinas que regem as duas moradas do Paraíso e do Inferno.

A significação iniciática do versículo corânico sobre a reunião do lado ao lado relaciona-se essencialmente à reunião principial, num estado de equilíbrio perfeito, de duas fases que se manifestam como alternativas e complementares — remetendo, segundo Ibn Arabi, à morada da excelência muhammadiana e ao Maqam Mahmud, a Estação Louvada.

A Caaba abraâmica aparece como orientada, com orientação correspondendo ao eixo mediano do hijr, aproximadamente norte-noroeste, o que sugere uma relação com a direção seguida por Abraão para atingir Meca — direção praticamente equivalente à de Jerusalém.

Após a Hégira, a qibla passou a ser dirigida exclusivamente para a Casa de Allâh, sem qualquer referência a Jerusalém, marcando o início da Conquista empreendida pelos muçulmanos contra os Quraychitas — mudança que ocorreu no décimo sétimo mês da Hégira, pouco antes da batalha de Badr.

A Caaba muamadiana, no julgamento do Cheikh al-Akbar, apresenta uma excelência particular pelo fato de não mais compreender o hijr, tornando seu aspecto interior acessível a todos — com a supressão da proibição (tahjir) e a epifania divina inerente à abertura da porta para quem deseja penetrar no interior do Templo.

Do ponto de vista estritamente arquitetônico, a Caaba apresenta-se não como um cubo mas como um paralelepípedo retângulo, com aproximadamente 10 metros de largura, 12 de comprimento e 15 a 16 de altura, cujas proporções fundamentais revelam relações harmônicas com os números 3, 4 e 5, os mesmos que intervêm no cálculo do número nupcial evocado por Platão no VIII Livro da República.

A forma do Templo — circular na origem como Tenda de Adão, intermediária na construção de Abraão e cúbica no tempo do Islã — corresponde perfeitamente às fases principais de um ciclo de manifestação, desde a indiferenciação primordial do polo celeste até a estabilidade final do polo substancial, passando pelo estágio mediano do movimento diferenciado e específico.

Os três momentos privilegiados do ciclo da Caaba estão ligados, do ponto de vista metafísico, a uma manifestação do Verbo divino que deixa transparecer as três letras árabes que constituem a representação islâmica do monossílabo sagrado Om — o alif, o waw e o mim.

A história sagrada da Caaba e do culto a ela vinculado não é senão a expressão, em modo sucessivo, da permanente atualidade do Centro espiritual do Mundo manifestante, ao longo do ciclo humano, em sua presença invisível e providencial.