IDRIES SHAH

Études Traditionnelles

O livro de Idries Shah, Les Soufis et l'Ésotérisme — tradução francesa de The Sufis [em português Os Sufis], publicado na Inglaterra há cerca de dez anos —, apresenta-se como introdução ao “modo de pensamento” dos sufis com ilustrações tiradas principalmente da literatura persa, mas acumula tantas incoerências, equívocos e contraverdades que oferece ao crítico universitário mais limitado um triunfo particularmente fácil.

O emprego da palavra “sufismo” implica necessariamente uma referência ao islã — como Guénon já havia sublinhado —, e em nenhum caso pode ser considerada equivalente pura e simples de “esoterismo”; Idries Shah, porém, não hesita em escrever que “houve Sufis em todos os tempos e em todos os países” e que “os Sufis existiram como tais, e sob esse nome, antes do islã.”

As afirmações sobre influências do sufismo são particularmente arbitrárias e por vezes beiram o burlesco: a semelhança da obra de Kant com o Vedanta seria imputável à “corrente filosófica Sufi”, e entre os “diretamente influenciados pelo Sufismo” figuram, ao acaso, Raymond Lulle, Goethe, o presidente de Gaulle e Dag Hammarskjöld.

O autor confunde o termo “sufi” — que deveria designar quem atingiu o objetivo último da via iniciática — com todos os que em qualquer grau pertencem a uma tal via, o que o leva a concluir que entre vinte e quarenta milhões de pessoas seriam membros ou afiliados a escolas sufis.

A confusão mais grave não é de terminologia, mas de princípio: ao desligar o “pensamento sufi” de sua raiz islâmica, Idries Shah acaba por desligar todo esoterismo da forma tradicional que lhe corresponde — e duvida-se muito que haja para ele qualquer sufismo verdadeiramente islâmico.

A apresentação do islã no livro é desconcertante: a profissão de fé islâmica é citada incorretamente e interpretada como “Nada adorar senão a divindade, o único loado, o mensageiro do Venerável” — o que equivale a dizer que os muçulmanos adoram o Profeta; menciona-se uma “Igreja muçulmana” que jamais existiu e a “Pedra Cúbica” como designação da Pedra Negra da Caaba.

O suposto “pensamento sufi” de Idries Shah é, quando examinado de perto, um produto típico do pensamento ocidental moderno, o mais contrário a qualquer espírito tradicional, pois não vê entre ciências tradicionais e ciência profana uma diferença de natureza, mas apenas de grau.

A metafísica — objeto próprio do sufismo e de todo esoterismo — está completamente ausente do volumoso livro, o que é tanto mais inverossímil quanto vários capítulos são consagrados a grandes escritores do tasawwuf, incluindo Muhyi ed-Din Ibn Arabi; o autor confunde metafísica sucessivamente com filosofia, misticismo, “poderes ocultos” e com o próprio sufismo.

O objetivo que Idries Shah atribui ao sufismo é uma exteriorização e vulgarização “humanista” e “evolucionista” do simbolismo do amor, a mais decepcionante possível: o sufi “volta ao mundo a fim de dar uma ideia das etapas da Via”, pois “o amor é o denominador comum para a humanidade.”