Études Traditionnelles
O livro de Idries Shah, Les Soufis et l'Ésotérisme — tradução francesa de The Sufis [em português Os Sufis], publicado na Inglaterra há cerca de dez anos —, apresenta-se como introdução ao “modo de pensamento” dos sufis com ilustrações tiradas principalmente da literatura persa, mas acumula tantas incoerências, equívocos e contraverdades que oferece ao crítico universitário mais limitado um triunfo particularmente fácil.
O autor é oriental de origem afegã e declara na prefácio querer atrair a atenção dos ocidentais sobre os caracteres particulares do “pensamento sufi”, que escapa, segundo ele, aos modos de investigação da ciência universitária.
Algumas observações da prefácio são pertinentes, mas se perdem no acúmulo de fantasia que permeia a obra.
O emprego da palavra “sufismo” implica necessariamente uma referência ao islã — como Guénon já havia sublinhado —, e em nenhum caso pode ser considerada equivalente pura e simples de “esoterismo”; Idries Shah, porém, não hesita em escrever que “houve Sufis em todos os tempos e em todos os países” e que “os Sufis existiram como tais, e sob esse nome, antes do islã.”
O tradutor francês percebeu a assimilação abusiva e acrescentou “et l'Ésotérisme” ao título, embora essa solução seja pouco feliz, pois sugere que os sufis poderiam ter relação com o esoterismo mas também poderiam não tê-la.
A partir de noções tão confusas, o autor encontra sufismo e sufis em quase todo lugar: “Sufis cristãos”, “antigos sacerdotes zoroastrianos, cristãos, hindus, budistas e outros” entre os sufis, e traços da doutrina sufi “em cada país.”
As afirmações sobre influências do sufismo são particularmente arbitrárias e por vezes beiram o burlesco: a semelhança da obra de Kant com o Vedanta seria imputável à “corrente filosófica Sufi”, e entre os “diretamente influenciados pelo Sufismo” figuram, ao acaso, Raymond Lulle, Goethe, o presidente de Gaulle e Dag Hammarskjöld.
A justificativa para de Gaulle é que ele teria dito “Tenho a Baraka!”
Os Carbonários italianos são ligados ao sufismo por uma assimilação da raiz árabe FHM (h surdo, “compreensão”) com outra raiz FHM (h sonoro, “carvão”) — duas raízes totalmente distintas em árabe, distinção que o próprio autor menciona expressamente, tornando sua interpretação um caso de inconsciência ou de má-fé.
O simbolismo luz-e-sombra atribuído à Maçonaria é apresentado como prova de influência sufi, embora seja um dos mais universais que existem; um “quadrado mágico” de 15 é chamado de “diagrama sufi” e um sinal maçônico é dito “cobrir” oito números quando na verdade cobre apenas sete.
A alquimia, a feitiçaria, a Ordem da Jarreteira, a Ordem do Templo, São Francisco, os movimentos Bhakti, o budismo
Zen no Japão — tudo é atribuído à influência do sufismo.
“A ciência feminina das bruxas é em certos casos tão próxima da poesia amorosa sufi da Idade Média, especialmente a do espanhol Ibn el-Arabi, que não é necessário dizer muito mais sobre o assunto” — afirmação classificada pelo resenhista como “verdadeiramente monstruosa.”
O autor confunde o termo “sufi” — que deveria designar quem atingiu o objetivo último da via iniciática — com todos os que em qualquer grau pertencem a uma tal via, o que o leva a concluir que entre vinte e quarenta milhões de pessoas seriam membros ou afiliados a escolas sufis.
A confusão mais grave não é de terminologia, mas de princípio: ao desligar o “pensamento sufi” de sua raiz islâmica, Idries Shah acaba por desligar todo esoterismo da forma tradicional que lhe corresponde — e duvida-se muito que haja para ele qualquer sufismo verdadeiramente islâmico.
O autor é obrigado a reconhecer que a religião formal “é autêntica” e “cumpre uma função”, mas vê nisso apenas uma questão de fato, não de princípio.
“A vida sufi pode ser vivida em qualquer momento, em qualquer lugar. Não requer retirada do mundo, nem movimentos organizados, nem dogmas.”
“Os Sufis não precisam da mesquita, da língua árabe, das litanias, dos livros de filosofia, nem mesmo de estabilidade social.”
A tradição “se harmonizava bastante bem com o islã e foi mesmo incidentalmente encorajada por ele” — o que equivale a afirmar que o esoterismo é tradicional mas o islã não o é.
A apresentação do islã no livro é desconcertante: a profissão de fé islâmica é citada incorretamente e interpretada como “Nada adorar senão a divindade, o único loado, o mensageiro do Venerável” — o que equivale a dizer que os muçulmanos adoram o Profeta; menciona-se uma “Igreja muçulmana” que jamais existiu e a “Pedra Cúbica” como designação da Pedra Negra da Caaba.
O suposto “pensamento sufi” de Idries Shah é, quando examinado de perto, um produto típico do pensamento ocidental moderno, o mais contrário a qualquer espírito tradicional, pois não vê entre ciências tradicionais e ciência profana uma diferença de natureza, mas apenas de grau.
“Mil anos antes de Einstein, o derviche
Hujwiri discutia, nos escritos técnicos, a identidade do tempo e do espaço na experiência sufi aplicada.”
Os sufis “aceitaram a teoria atômica e formularam uma ciência da evolução mais de seiscentos anos antes de Darwin.”
“A teoria do Inconsciente Coletivo de Jung é exposta pelo espanhol Ibn Rushd.”
“Os argumentos sexuais de Freud são notados pelo Shaikh sufi Ghazali em sua Alquimia da Felicidade, escrita há mais de novecentos anos, como sendo clássicos para os teólogos muçulmanos.”
Há uma constância no erro que dificilmente se pode crer não seja sistemática.
A metafísica — objeto próprio do sufismo e de todo esoterismo — está completamente ausente do volumoso livro, o que é tanto mais inverossímil quanto vários capítulos são consagrados a grandes escritores do tasawwuf, incluindo Muhyi ed-Din Ibn Arabi; o autor confunde metafísica sucessivamente com filosofia, misticismo, “poderes ocultos” e com o próprio sufismo.
Ver no conjunto da obra de
Ibn Arabi apenas uma “doutrina de amor” procede de um ponto de vista “unilateral” demasiado evidente.
O resenhista considera, porém, que Idries Shah não é um charlatão puro e simples: as indicações esparsas no livro apontam coerentemente para organizações ligadas ao simbolismo do Amor — a Ordem Naqshbandi, a doutrina das lata'if, a literatura esotérica persa —, e o autor é visivelmente mais à vontade com Farid ud-Din
Attar do que com
Ibn Arabi.
O objetivo que Idries Shah atribui ao sufismo é uma exteriorização e vulgarização “humanista” e “evolucionista” do simbolismo do amor, a mais decepcionante possível: o sufi “volta ao mundo a fim de dar uma ideia das etapas da Via”, pois “o amor é o denominador comum para a humanidade.”
“Os Sufis creem que a humanidade evolui em direção a um certo destino. Todos participamos dessa evolução. Órgãos vêm a existir em consequência da necessidade de órgãos específicos (
Rumi). O organismo do ser humano está produzindo um novo complexo de órgãos em resposta a tal necessidade.”
“O amor é o fator que deve conduzir um homem e toda a humanidade à realização.”
O próprio autor havia alertado para a existência de “Sufis de imitação que tentam se beneficiar do prestígio ligado ao nome” e que “escreveram livros que só acrescentam à perplexidade geral dos profanos” — descrição que o resenhista considera perfeitamente aplicável ao próprio Les Soufis et l'Ésotérisme.
O livro encontra-se no site das Études traditionnelles, onde foi publicado como resenha crítica assinada por Charles-André
Gilis.