PREDESTINAÇÃO

CECQ

VII. A PREDESTINAÇÃO

O problema da predestinação é uma das principais aporias com que se defronta toda exegese do Alcorão — em razão da presença simultânea da afirmação da responsabilidade humana e do castigo do pecado, de um lado, e da onipotência de Deus sobre todas as coisas, do outro; na perspectiva doutrinária sufi, o problema está virtualmente resolvido — se em definitivo nada existe fora de Deus, a fortiori não existe nenhum ser dotado de qualquer autonomia em relação a Ele.

Qashani funda a legitimidade aparente da afirmação do “livre-arbítrio” sobre dois argumentos principais — o primeiro repousa sobre uma simples questão de consideração ou ponto de vista.

O segundo argumento se apoia na sucessão das etapas do Decreto divino — a Ciência de Deus, idêntica à Sua Vontade, abarca tudo o que é e será em modo universal, pelo viés dos dados contidos sinteticamente nas essências imutáveis; ela deixa essas predisposições desdobrarem suas possibilidades inumeráveis ao nível do mundo sensível em modo particular e sucessivo.

O “livre-arbítrio” assim concedido aos homens é, porém, puramente formal — Qashani o reconhece ele mesmo ao comentar o versículo LIII, 39: “O homem não terá (no Além) senão o que se tiver esforçado por merecer.”