ESOTERISMO XIITA E ALQUIMIA

Ésotérisme shi'ite et alchimie. L’ÉSOTÉRISME SHI’ITE. BIBLIOTHÈQUE DE L’ÉCOLE DES HAUTES ÉTUDES SCIENCES RELIGIEUSES.

O pensamento alquímico não se vincula a nenhuma religião particular, pois surgiu em meios pagãos do Egito helenístico por volta do primeiro século antes de nossa era, sendo depois adotado por cristãos de tendência gnóstica, e se apresenta como uma filosofia, uma sabedoria e uma mística autônomas.

A ciência alquímica foi recebida e praticada precocemente em meios xiitas, como o atesta a tradição que faz do Imã Jafar al-Sadiq o mestre em alquimia de Jabir ibn Hayyan.

A visada alquímica possui dimensões escatológicas próprias que se articulam com as visões do xiismo esotérico, pois se trata de transformar o adepto por meio de um acesso a um conhecimento iluminativo universal, transmitido pelos Imãs.

O papel dos profetas e dos Imãs na iniciação alquímica é essencial: segundo Jabir, todas as ciências secretas chegaram à humanidade por intermédio dos profetas, dos Imãs, dos Portais, das Provas e dos sábios, por um ensinamento divino.

Jabir cita com frequência nomes de alquimistas da época pré-islâmica, como Pitágoras, Homero, Sócrates, Platão, Aristóteles, Apolônio de Tiana, Zósimo e Estéfanos, considerando-os homens perfeitos em ciência e em religião.

A ambiguidade quanto ao vínculo entre os grandes alquimistas gregos e os profetas encontra uma explicação possível na concepção jabiriana das “pessoas espirituais” (ashkhas 'aliya): uma hierarquia espiritual de 55 graus, no cume da qual se encontram o profeta e o Imã.

A ciência alquímica teria passado por uma progressão constante ao longo da história: ensinada de forma sintética e enigmática pelos antigos, ela conheceu uma ampliação e uma explicitação crescentes, sem progresso no conteúdo do próprio Obra, mas em sua simplificação e acessibilidade a um público mais amplo.

O Corpus Jabiriano reconhece dois tipos de transmissão iniciática da ciência alquímica: uma estritamente profética, transmitida por Deus aos profetas e aos Imãs por via sobrenatural; outra fundada na experiência e na indução, permitindo avanços na aplicação do saber.

O Livro do Elemento do Fundamento, colocado como discurso introdutório à mais antiga coleção dos tratados jabirianos, os Cento e Doze Livros, desenvolve em três partes complementares a visada alquímica segundo os filósofos, segundo os iniciados em religião e segundo os procedimentos práticos.

Segundo Jabir, no Livro do Estudo (Kitab al-bahth), profecia e filosofia/alquimia estavam ligadas até a emergência social e política dos monoteísmos recentes — cristianismo e islã —, sendo que a maioria dos antigos alquimistas eram profetas, como Noé, Idris, Pitágoras e Tales.

Segundo a doutrina do Livro do Glorioso, o iniciado em alquimia (o Sin) ocupa um grau superior ao do enunciador da profecia (o Mim), e imediatamente inferior ao do Imã (o Ayn), sendo a alquimia apresentada como a via régia de acesso ao saber e até à própria essência dos Imãs.