LUZ

MORA, Fernando. Ibn ’Arabi: vida y enseñanzas del gran místico andalusí. 1. ed ed. Barcelona: Ed. Kairós, 2011.

Visão de Deus: Teofanias Formais e Além da Forma

Para elucidar em que domínio existencial ocorre a visão imediata de Deus, é necessário conciliar duas tradições aparentemente contraditórias: a tradição profética em que Muhammad descreve ter visto seu Senhor sob a forma de um belo jovem imberbe, e o aviso divino a Moisés no Monte Sinai — “Não me verás” (7:143) — ecoado no Antigo Testamento: “Não podes ver minha face, pois nenhum homem que me vê pode viver” (Êxodo 33:18-23).

Êxtase e Aniquilação do Eu

A condição essencial para alcançar a visão de Deus é a aniquilação do próprio eu — experiência que Ibn Arabi descreve a partir de uma leitura sutil da tradição do ihsan (perfeição da adoração): “fa in lam takum tarahu” pode ser lido como 'se não és, vês-O verdadeiramente', o que equivale a dizer: 'Sua visão só ocorre por meio de tua própria extinção'“.

Aniquilação e Tradição Mística Universal

A morte mística do eu não é exclusiva do sufismo, mas é um tema frequente nos caminhos de transformação espiritual — de tradições cristãs à yoga hindu e budista, do taoísmo à beguinagem medieval.

Aniquilação e Subsistência: Além do Monismo

A aniquilação do eu é inseparável da subsistência ou sobre-existência (baqaʾ); o binômio fanaʾ-baqaʾ supõe, em sua genuína interpretação akbari, a extinção da ignorância sobre a verdadeira natureza do sujeito e o reconhecimento imediato do que realmente se é.

A Impossibilidade da União como Fusão de Dois

Ibn Arabi distingue rigorosamente o conceito de aniquilação-subsistência do de união (ittihad), termo que pressupõe a presença de duas entidades independentes — distinção fundamental, pois se tudo está primordialmente unido a Deus, não há maior ignorante do que aquele que tenta alcançar a união com Ele.