MORA, Fernando. Ibn ’Arabi: vida y enseñanzas del gran místico andalusí. 1. ed ed. Barcelona: Ed. Kairós, 2011.
Os Planos de Ser e Consciência na Doutrina Akbari
Os discípulos espirituais de Ibn Arabi — como Sadr al-Din al-Qunawi, Abd al-Razzaq al-Qashani e outros — elaboraram análises complexas que deram origem à estrutura conhecida como “cinco (ou seis) presenças”, expressão usada no sufismo para designar os diferentes planos de ser e consciência nos quais o cosmos visível e invisível se ordena.
Al-Qunawi lista os seguintes planos de existência: divino, espiritual, anímico ou imaginal, mundo sensorial externo e presença do ser humano perfeito, que abarca as realidades anteriores
Al-
Qashani lista: essência, nomes e atributos, atos, presença da imaginação absoluta e presença do sensível
Ibn Arabi não emprega tais classificações detalhadas nem desenvolve a perspectiva das presenças do ser como doutrina independente — refere-se a cada uma individualmente em diferentes contextos, sem apresentá-las como totalidade coerente
O Alcorão fundamenta essa visão: “Deus é o Conhecedor do visível e do invisível” (13:9); e “A Deus pertence o oculto dos céus e da terra” (16:77)
Ibn Arabi chama as esferas invisível e visível de “mundo da ausência” e “mundo do testemunho” — também chamados mundos da altura e da largura, e mundos da ordem e da criação —, aos quais acrescenta a realidade intermediária do barzakh
Os três grandes planos de existência recebem nomenclatura mais arcaica: mundo da soberania (malakut ou plano espiritual), mundo da dominação (jabarut ou mundus imaginalis) e o reino (mulk ou mundo visível)
Cada plano é também modalidade de consciência e modo de conhecimento: no plano divino, os seres são meras possibilidades; no espiritual, são seres luminosos simples; no imaginal, tornam-se imagens puras compostas de partes; no sensível, são formas sensoriais compostas e opacas
O Sopro do Clementíssimo
Ibn Arabi concebe a criação do cosmos como um movimento de amor personificado pela passagem do Sopro do Clementíssimo pelos diversos pontos de articulação da existência, interação que origina a pluralidade dos mundos e seus habitantes.
Os diferentes estratos do cosmos estão ligados às vinte e oito letras do alfabeto árabe, ordenadas não pela sequência gramatical habitual, mas pela maior ou menor profundidade de pronúncia no aparelho vocal humano — da hamza (hiato, fronteira entre silêncio e palavra) até o waw (o ponto mais superficial de emissão)
Hamza e waw compõem, em árabe, o pronome “Ele” (huwa), que designa o ausente e, portanto, a esquiva essência divina
William C.
Chittick explica que a disposição do cosmos segundo as vinte e oito letras é apenas uma das quatro formas pelas quais
Ibn Arabi ordena os graus de existência, sendo as outras três: temporal (antes e depois), espacial (superior ou inferior) e qualitativa (maior ou menor excelência)
A série completa dos graus cósmicos e suas letras correspondentes vai da hamza (Cálamo: Primeiro Intelecto) ao waw (Estações espirituais), passando por Natureza, Matéria universal, Trono, Pedestal, esferas celestes, planetas, profetas, dias da semana, elementos e reinos naturais até os seres humanos
Os Anjos Querúbicos e o Primeiro Intelecto
Os anjos querúbicos — tão arrebatados em sua ardente adoração que desconhecem sua própria existência e a do restante da criação — são a primeira e única coisa criada, sem qualquer intermediário, na Nuvem gerada pelo sopro divino.
Uma tradição profética descreve: “Deus possui uma terra branca onde o sol leva trinta dias para atravessar o céu, e cada um desses dias é trinta vezes mais longo que os precedentes. Essa terra é habitada por criaturas que não sabem que Deus foi desobedecido ou que Ele criou Adão e Iblis”
Um desses seres querúbicos — chamado também de Suprema Pena, Primeiro Intelecto, Pérola Branca e Águia — recebe o conhecimento completo da criação; tradições proféticas identificam essa realidade: “A primeira coisa que Allah criou foi o intelecto”; “A primeira coisa que Allah criou foi a luz”; “A primeira coisa que Allah criou foi meu espírito”
Essa luminosidade espiritual é frequentemente identificada com a “realidade muhammadiana” (haqiqa muhammadiyya) — a luz original que provê a base para toda criação, revelação e ensinamento: “Não havia nada naquela poeira que estivesse mais próximo da luz, ou mais pronto para recebê-la, do que a realidade de Muhammad, que também é chamada Intelecto. Ele é, assim, a cabeça do cosmos e o primeiro ser a entrar na existência”
A Pena (Primeiro Intelecto) e a Tábua (Alma Universal, também chamada Esmeralda e Pomba) fornecem os protótipos inseparáveis de atividade e receptividade, masculinidade e feminilidade; sua união engendra a natureza e a matéria universal — chamadas “gêmeas” —, cuja confluência favorece o surgimento do corpo universal
O Princípio dos Corpos e das Formas
A matéria universal recebe as qualidades do espírito, da alma e da natureza e transforma-se no corpo universal — substância única da qual são compostos os corpos imaginais e materiais —, enquanto a forma permite distinguir as entidades umas das outras, sendo a esfera a primeira figura a emergir por ser, na opinião de Ibn Arabi, a mais perfeita das configurações.
O Trono supremo (al-arsh al-azim) é esférico e é mencionado no Alcorão como o assento do Clementíssimo (20:5); é o primeiro corpo a assumir uma configuração concreta, ainda sem consistência ou densidade, e situa-se entre as mais elevadas realidades do plano imaginal
Abaixo do Trono está o Pedestal, que “abarca os céus e a terra” (2:256), mas é, em comparação ao Trono, “como um pequeno anel num deserto”; ali Deus repousa o pé da misericórdia e o pé da misericórdia misturada com Sua ira
Dentro do Pedestal localiza-se a esfera sem estrelas (atlas) — também chamada esfera das altas torres —, subdividida nas doze mansões zodiacais; em si mesma, essa esfera corre em pura duração, além do espaço e do tempo
Os oito níveis do paraíso localizam-se no domínio de pura duração entre a esfera sem estrelas e a das estrelas fixas, enquanto os correspondentes infernos se estendem abaixo das estrelas fixas até o mais ínfimo dos graus
O Mundo da Geração e da Corrupção
O mundo da geração e da corrupção — nome aristotélico para as esferas cósmicas situadas abaixo do céu das estrelas fixas — está imerso no tempo e, consequentemente, sujeito ao decaimento e à desintegração de tudo o que é composto.
No céu das estrelas fixas localizam-se as vinte e oito mansões lunares, explicitamente atribuídas pelo Alcorão à vontade divina: “Determinamos para a lua fases” (36:39), correspondendo simbolicamente às vinte e oito letras emitidas pelos sopros divino e humano
Os sete planetas — Saturno, Júpiter, Marte, Sol, Vênus, Mercúrio e Lua — correspondem a profetas e dias da semana; a esfera da Lua recolhe as influências dos planetas superiores e as transmite aos mundos sublunares
As esferas sublunares compõem-se dos quatro elementos naturais — fogo, ar, água e terra, chamados os quatro pilares —, representados como círculos concêntricos de tamanho decrescente inscritos no círculo da Lua; a Terra é o ponto absoluto de densidade e gravidade e marca o fim do mundo imaginal e o início do mundo corporal
A combinação dos nove esferas celestes (da Lua à esfera sem estrelas, “pais superiores”) com os quatro elementos (“mães inferiores”) dá origem aos diferentes reinos naturais — mineral, vegetal e animal
Uma tradição profética registra: “Deus fez sete céus que repousam como cúpulas sobre a terra. Acima de cada terra, estendido como um tapete, um hemisfério celeste repousa em seus limites”
Os Habitantes do Cosmos: Anjos, Djins e Seres Humanos
Anjos, djins e seres humanos são igualmente dotados de autoconsciência; os primeiros são criados da luz, os segundos do fogo, e os terceiros do barro — correspondendo ao sopro divino em sua dimensão espiritual.
O Alcorão afirma: “E Ele criou os djins do fogo puro” (55:15);
Ibn Arabi, no capítulo 9 das Iluminações da Meca, explica que os djins são feitos de uma mistura de fogo e ar e habitavam o planeta muito antes dos humanos, mantendo com eles uma relação sempre conflituosa; o predomínio do elemento ígneo os torna extremamente voláteis, capazes de assumir qualquer forma corporal
O ser humano — cujo corpo é feito de argila e cujo espírito é o próprio sopro divino — situa-se no início e no fim da série da criação, sendo ao mesmo tempo a semente e o fruto da árvore do universo: “O homem é uma cópia verdadeira e exata do universo”
Ibn Arabi ilustra a posição do ser humano no desenho cósmico com a imagem de alguém que deseja erguer uma construção: a noção de humanidade é a primeira a surgir no pensamento de Deus, mas para realizá-la é necessária a presença de todo o cosmos como fundação; “Na ausência do ser humano, o cosmos carece de sentido, pois lhe falta o ser principal para cujo propósito foi trazido à existência”
O grau correspondente à vigésima oitava letra (waw) — as estações espirituais — não designa uma categoria independente, mas a diferenciação dos seres humanos em um número ilimitado de tipos e capacidades; a letra waw reúne as virtudes de todas as sílabas precedentes, assim como o ser humano perfeito reúne em sua constituição as realidades presentes no universo
Uma nota marginal atribuída a Sad al-Din al-Hamawi (m. 1252—3) descreve o cosmos como o olho de Deus que nunca dorme: as pálpebras superior e inferior correspondem aos estratos superiores e inferiores da existência; os cílios superiores simbolizam os anjos; os inferiores, os seres humanos; a íris representa a Alma Universal; o branco, o Espírito Universal ou Primeiro Intelecto; e a luz pela qual o olho vê simboliza o próprio Deus
Involução e Evolução
O Sopro do Clementíssimo estabelece uma gradação que, partindo do absolutamente indiferenciado, desce e se limita até alcançar o último dos seres criados — o que se conhece em outros contextos como a Grande Cadeia do Ser.
O arco externo — afastamento da Fonte — é chamado “arco descendente” (al-qaws al-nuzuli): as primeiras vinte e uma letras, do Primeiro Intelecto à geração do elemento terra, correspondem às etapas involutivas ou descendentes
O arco interno — retorno à Fonte — é chamado “arco ascendente” (al-qaws al-suudi): as sete letras restantes — mineral, vegetal, animal, djin, anjo, humano e humano perfeito — designam as etapas evolutivas
Ibn Arabi admite tanto a evolução espiritual quanto a biológica: “Deus fez o último de cada reino o primeiro do seguinte. O último dos minerais e o primeiro das plantas é a trufa. O último das plantas e o primeiro dos animais é a palmeira. E o último dos animais e o primeiro da humanidade é o macaco”
A noção de evolução biológica não é nova na filosofia islâmica, aparecendo pela primeira vez com intelectuais como Ibrahim al-Nazzam (m. ca. 840) e, sobretudo, seu discípulo al-Jahiz (m. 868)
O processo de exteriorização da existência é idêntico — porém em sentido inverso — ao da Viagem Noturna e da Ascensão, arquétipo dos itinerários místicos empreendidos pelos viajantes espirituais que aspiram a retornar à fonte do ser
Tudo Vive
O cosmos e seus habitantes — animados ou aparentemente inanimados — são todos dotados, sem exceção, de vida e linguagem próprias; a seiva secreta da vida flui em todos os lugares, tornando impossível dividir o universo em seres vivos e não vivos.
Causalidade
Aplicar o termo “causa” a Deus constitui, para Ibn Arabi, um ato de descortesia espiritual, pois denota uma falta de lógica na ordem da manifestação; causa e efeito atuam no domínio relativo da criação, mas a realidade divina não é comparável a nenhum dos dois.
Ibn Arabi escreve: “Ele não é causado por nada e não é a causa de nada. Ao contrário, Ele é o criador dos efeitos e das causas, o Soberano, o Santíssimo que sempre é”
A relação entre Deus e o cosmos não implica prioridade temporal, mas simultaneidade: “Seria absurdo falar de um intervalo temporal entre necessidade e possibilidade, entre unidade e multiplicidade, entre essência e existência”
Anterioridade e posterioridade são designações verbais para um processo de criação sempre renovado em seu constante aniquilamento e recriação
O Problema do Mal
O mal é definido, na perspectiva da filosofia antiga e medieval, como privação de existência — mera ausência do bem, assim como a ignorância é privação do conhecimento —, não constituindo uma qualidade ontológica positiva.
Ibn Arabi escreve: “O mal é o oposto do bem, e do bem só emerge o bem; o mal é apenas a não-existência do bem. Daí que todo bem é existência, enquanto o mal é não-existência, pois é a manifestação daquilo que, na realidade, não tem entidade”
A face interior ou não-manifesta de Deus transcende causa e efeito e não pode ser qualificada como positiva ou negativa, nem considerada origem do mal; Deus não é o criador do mal, pois cria as coisas apenas conforme Seu conhecimento delas
Julgar uma experiência como boa ou má é inteiramente subjetivo: os critérios de julgamento derivam de certas tradições religiosas, de princípios morais culturalmente sancionados ou da incapacidade de satisfazer desejos naturais, morais ou intelectuais de determinados indivíduos
A conclusão de
Ibn Arabi: “Além desses critérios, não há nada senão a pura essência das coisas, que não pode ser descrita como boa ou má”