REALIDADE ABSOLUTA (HUWIYYA)

LALA, Ismail. Knowing god: Ibn ’Arabī and ’Abd al-Razzāq al-Qāshānī’s metaphysics of the divine. Leiden Boston (Mass.): Brill, 2020.

Al-Qāshānī e Huwiyya

1. A Definição de Huwiyya segundo Al-Qāshānī

A huwiyya designa a Realidade absoluta e abrangente de Deus situada no domínio do incognoscível, nunca acessível à percepção sensorial nem passível de ser testemunhada em qualquer plano de existência.

2. Huwiyya, Entidade e o Homem Perfeito

A entidade da Verdade (ayn al-Haqq) identifica-se com o homem que realizou a grande manifestação intermediária, tornando-se conduto da expressão dos Nomes divinos no Cosmos — figura conhecida como o Homem Perfeito (al-insan al-kamil).

3. Huwiyya nas Tawilat

3.1. Existência Absoluta versus Existência Contingente

A huwiyya é definida nas Tawilat como a existência absoluta (al-wujud al-mutlaq) de Deus, em contraposição à existência relacional (al-wujud al-idafi) de Sua criação, constituindo a linha vermelha que O distingue de tudo o mais.

3.2. Huwiyya e Unidade

A unidade (ahadiyya) designa a consideração da essência divina (dhat) sem qualquer relação primária com outra coisa, representando a independência absoluta de Deus em relação ao mundo e a impossibilidade de qualquer conexão entre Ele e a criação nesse plano.

3.3. Unidade de União

A unidade de união (ahadiyyat al-jamʿ) corresponde à primeira diferenciação da essência divina — estágio em que Deus estava só, sem que houvesse “outro” ou “alteridade”, embora já portando em Si a conexão com tudo o que viria a existir.

3.4. A Huwiyya Divina e o Cosmos

A relação entre Deus e o Cosmos pode ser vista sob dois ângulos opostos: a partir da existência absoluta de Deus, Ele é o primeiro arco e a criação o segundo; a partir das formas diferenciadas da huwiyya no Cosmos, a criação é o primeiro arco e Deus o último, fonte para a qual tudo tende e na qual tudo se aniquila.

3.5. As Diferenciações da Huwiyya Divina

A pura huwiyya (al-huwiyya al-mahda) se diferencia pela inclinação da consciência divina em direção à criação, expressa pelo pronunciamento “Seja!” — processo que transcende a temporalidade, pois ocorre na eternidade da essência divina, sem que haja intervalo ou atraso.

3.6. Os Atributos da Huwiyya Divina

A huwiyya divina possui atributos próprios — em especial o “desconhecimento” — que a distinguem dos Nomes diferenciados, embora tanto a huwiyya pré-diferenciada quanto os Nomes coexistam simultaneamente, tornando Deus ao mesmo tempo desconhecido e conhecido.

3.7. A Estação da Huwiyya

A percepção de que a própria realidade do homem é uma diferenciação da huwiyya divina constitui o potencial máximo do ser humano — estação (maqam) acessível apenas pelos gnósticos e conferida exclusivamente pelo Alcorão, que supera a Torá por conter o desvelamento intrínseco (al-kashf al-dhati) e o testemunho verdadeiro (al-shuhud al-haqqi).

3.8. Submersão no Mar/Fonte da Huwiyya

A submersão no mar ou na fonte da huwiyya é um estado evanescente de aniquilação no Deus diferenciado — não na essência absolutamente incognoscível — cujos efeitos, no entanto, permanecem no gnóstico sob a forma de um existir renovado a partir da essência e dos atributos divinos.

3.9. Huwiyya, Inniyya e Ananiyya

A inniyya é o grau intrínseco de todo existente que filtra sua percepção da huwiyya divina, constituindo uma limitação primordial e inata; a ananiyya, por sua vez, é o aspecto criatural e egoísta do homem — uma restrição intencional distinta da inniyya.

3.10. Huwiyya e Preparação

A preparação (istiʿdad) é o grau primordial de cada existente, determinando o limite de seu aniquilamento em Deus e o quanto da huwiyya divina pode conhecer — e é ela, não a orientação divina em si, que define esse limite, embora ambas sejam, em última análise, inseparáveis.

3.11. A Huwiyya Criacional

A huwiyya criacional pode funcionar tanto como impedimento ao aniquilamento — quando o existente a considera independente da huwiyya divina — quanto como expressão da própria huwiyya divina diferenciada nas faculdades, no espírito, no coração, no intelecto, na alma e na ocultação da criação.

3.12. Huwiyya e os Velados

A huwiyya serve igualmente como barômetro de ignorância: os que se velam pela “eu-dade” (anaʾiyya) atribuem as perfeições divinas ilimitadas à sua forma individual e restrita, impondo a “este-dade” (hadhiyya) ao infinito e impedindo o verdadeiro conhecimento.

3.13. Huwiyya e a Orientação Divina

A orientação divina e a preparação são ao mesmo tempo distintas e inseparáveis: a orientação divina dá origem à preparação e é por ela constrangida, de modo que o gnóstico com “preparação completa” é o único capaz de ver Deus em todas as manifestações infinitas dos Nomes.

3.14. Huwiyya e o Último Dia

No Dia do Juízo, todas as diferenciações da huwiyya divina reverterão a ela, expondo a huwiyya pura pela remoção dos véus da existencialidade fenomênica — exceto para os gnósticos que já se aniquilaram em vida, cuja existência subsiste no Ser divino.

3.15. Huwiyya e o Perdão de Deus

O perdão divino é graduado conforme o grau espiritual de cada categoria de crentes: para os mais elevados, ele significa o aniquilamento da essência (dhat) pela submersão na união da unidade e pelo perecimento na fonte da huwiyya.

4. Conclusão da Huwiyya nas obras de Al-Qāshānī

A huwiyya possui dois sentidos básicos que permeiam todas as suas ocorrências nas Tawilat: símbolo da existência absoluta de Deus em contraposição à existência relacional da criação; e símbolo da primeira diferenciação divina — o Deus desconhecido (mas não absolutamente incognoscível) predisposto à criação.

5. A Huwiyya de Ibn Arabi versus a Huwiyya de Al-Qāshānī

Al-Qāshānī afasta-se discretamente de seu mestre ao empregar a huwiyya predominantemente para descrever a relação entre criador e criação, em vez de privilegiar — como Ibn Arabi — a dissociação de Deus em Sua incognoscibilidade absoluta; as diferenças, embora sutis, são significativas.