Roberto Pla
O Tratado da Unidade (Risalatul-Ahadiyah) e seu autor, Muhiyuddin Ibn El-Arabi
O tratado é um testemunho particularmente significativo do pensamento sufi.
O autor, Muhiyuddin Ibn El-Arabi, nasceu em Múrcia no ano de 1164 e morreu em Damasco em 1240, quando grande parte da Espanha era um país árabe há mais de quatrocentos anos.
Entre seus apelidos estão “o Andaluz” e “O vivificador da Religião”, significado de seu nome de batismo, Muhiyuddin.
Ele foi um dos espanhóis mais ilustres e exerceu uma influência metafísico-religiosa mais profunda nos ambientes islâmicos e cristãos.
Entre os árabes se diz que não houve poesia amorosa superior à sua e nenhum outro sufi impressionou tanto os teólogos islâmicos ortodoxos, devido ao significado profundo de sua obra.
A entrada de El-Arabi no sufismo e sua formação
Segundo se diz, a entrada de El-Arabi no sufismo se deveu a seu pai, que estava em contato com Abdul-Quadir Jilani, o chamado Sultão dos Amigos (1077-1166).
O pai de El-Arabi lhe providenciou a melhor educação possível e, sendo adolescente, foi a Lisboa, onde estudou leis e teologia islâmica, e depois se transferiu para Sevilha, onde aprendeu o Alcorão e as tradições com os melhores mestres de sua época.
Em Córdova, assistiu às aulas do grande xeque El-Sharrat e se distinguiu em jurisprudência.
Durante todo este período, deu amostras de uma capacidade intelectual muito superior à de seus companheiros e passava suas horas livres quase exclusivamente com os sufis.
Logo começou a escrever poesia e, durante os trinta anos em que viveu em Sevilha, uma vez terminados seus estudos, cultivou a poesia e a eloquência, chegando a ser considerado a primeira figura daquele elevado centro cultural.
A comparação entre El-Arabi e El-Ghazali
Em certos aspectos, El-Arabi se assemelha a El-Ghazali (1058-1111), pois procedia de uma família sufi e conseguiu influenciar o pensamento ocidental.
Enquanto Ghazali havia dominado primeiro o escolasticismo islâmico para depois se voltar ao sufismo, El-Arabi esteve sempre em contato com a escondida corrente sufi.
Ghazali conciliou o islamismo com o sufismo, fazendo compreender a muitos que este último não era uma heresia, mas um significado recôndito da religião.
A missão de El-Arabi foi criar uma verdadeira literatura sufi e dá-la a conhecer para que os que quisessem pudessem entrar no espírito do sufismo.
A influência de El-Arabi no orbe cristão
Além dos místicos cristãos espanhóis posteriores, receberam esta influência homens como Dante e como Raimundo Lúlio.
Os sufis afirmam que Dante “tomou a obra de El-Arabi e a cristalizou dentro de um marco de excelsa poesia”.
Quanto a Lúlio, ele tomou material de El-Arabi para explicar a importância de certos exercícios e experiências de caráter místico.
As experiências místicas de El-Arabi
Trabalhou sob a direção da sufi espanhola Fátima Walyya e experimentou, segundo diz, estados psíquicos muito importantes, referindo-se a eles em várias ocasiões em seus livros.
Parte de seus trabalhos foi escrita em transe e seu significado não lhe foi revelado com clareza até algum tempo depois.
Quando tinha trinta e sete anos, visitou Ceuta, onde se achava a escola de Ibn Sabain, e ali teve uma estranha visão ou sonho no qual se lhe revelou seu alto destino como difusor da ciência sufi.
Costumava cair em arrebatamento, ou êxtase, durante o qual era capaz de lograr o contato com a realidade suprema, a que descrevia com exemplos baseados nas formas do mundo visível.
Seus ensinamentos derivavam dessas experiências internas.
O tratado “O Tratado da Unidade” (Risalatul-Ahadiyah)
O tratado, que Abdul-Hadi traduziu, não figurava nas listas de obras de El-Arabi conhecidas no Ocidente.
Por suas características puramente metafísicas, não lembra em nada outros trabalhos, motivo provável pelo qual sua autoria lhe foi negada por alguns autores, pois aqui prescinde de toda determinação simbólica para adentrar-se num entramado dialético ajustado às mais puras normas da lógica.
Na realidade, o “Risalatul” é um sério tratado do Ser, no qual El-Arabi se mostra como um decidido e agudo partidário do monismo metafísico.
Neste sentido, seu não-dualismo absoluto só tem parangão, pela grandeza de sua exposição, com o advaitismo vedântico de
Sankara e resulta um documento excepcional por sua singularidade expositiva no âmbito do pensamento não só sufi, mas também islâmico.
O motivo condutor do “Risalatul” e a realização da Unidade
O motivo, ou fio condutor do “Risalatul”, é um “hadith”, ou dito célebre do Profeta: “Quem se conhece a si mesmo, conhece a seu Senhor”, que serve de ponto de partida para afirmar a identidade daquilo nomeado como “o Senhor” e o si-mesmo real.
O processo dialético seguido é de primeira ordem e revela em seu autor uma inteligência construtiva pouco comum.
A tal claridade de expressão e tal segurança na exposição de um esquema místico, sem perder-se em nenhum momento numa afirmação descuidada de dualismo, denota o homem que realizou a Unidade, pois só desde essa altura conquistada e vivida cotidianamente é possível discorrer sem erro em tema onde é tão fácil deslizar-se.
Ante tanta grandiosidade como a que se depreende do Tratado, só cabe reconhecer como certo, a respeito de El-Arabi, o que ele mesmo recorda no Colofão de sua obra: “Alá prepara os que ama e os acolhe com palavra, atos, ciência, inteligência, luz e direção verdadeiros. Amém.”