FUSUS

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Fusus al-Hikam: “A Sabedoria dos Profetas”?

A resenha feita por M.H. da tradução dos Fusus al-Hikam por M. Burckhardt surpreendeu leitores familiarizados com os estudos islâmicos e o sufismo, tanto por suas afirmações particulares quanto por suas considerações gerais, o que justifica um exame crítico rigoroso desse artigo, que coloca em jogo a própria significação da obra do Cheikh al-Akbar Ibn 'Arabi.

A questão central da definição das Futûhât al-Makkiyyah como “simples catálogo” ou “abrégé dos assuntos” desenvolvidos em tratados separados, sustentada por M.H. com base em supostas descobertas recentes, é refutada com base em dados textuais e documentais anteriores a qualquer “descoberta”.

A exigência de M.H. de que Burckhardt situasse o Cheikh al-Akbar entre seus discípulos e “falasse em seu nome” após longa escuta é considerada particular e arbitrária, dado que os mestres ibéricos mencionados são anteriores ao Cheikh al-Akbar e que a questão do círculo iniciático formado em torno dele seria mais do domínio de um biógrafo do que de um tradutor.

As críticas à tradução propriamente dita reconhecem a existência de deformações do pensamento do autor por interpretação falha, mas apontam que a origem dessas falhas está na ausência de domínio da doutrina do Cheikh al-Akbar, sobretudo nas Futûhât, e do Corão e dos Hadîth.

A questão do título Fusus al-Hikam e sua tradução por “La Sagesse des Prophètes” é considerada um erro que muda completamente a perspectiva da obra, a partir de uma compreensão equivocada do termo árabe fass.

O Cheikh al-Akbar, ao receber de Muhammad — o Selo da Profecia legisladora — a missão de redigir os Fusus, é ele mesmo o Selo Muhammadiano da Santidade, noção que ilumina decisivamente a perspectiva em que se situa toda a obra.

A definição do termo Hikmah proposta por M.H. como “conhecimento esotérico (al-'ilm al-bâtin)” é considerada vaga e distante da acepção técnica que lhe atribui o Cheikh al-Akbar, conforme atestado pelas Futûhât.

Esgotadas as críticas a M.H., resta um balanço final sobre o trabalho de Burckhardt, reconhecendo seu mérito como primeira contribuição, mas apontando o que não foi suficientemente desenvolvido.