“Se rendre immortel suivi du “Traité de la résurrection” par Mollâ Sadrâ Shîrâzî”, Fata Morgana, 2000
A ordenação hierárquica dos existentes e a problemática da possibilidade
A realidade fundamenta—se em uma gradação sistemática dos existentes segundo a qual os momkinat, ou existentes—possíveis, são estruturados hierarquicamente.
Os existentes distintos de Deus expressam o Um sem serem o Um e carecem da necessidade absoluta de seu princípio, dependendo da imposição divina para ser.
Deve—se retificar a interpretação inexata do legado aviceniano que concebe a existência como um atributo sobreposto ou outorgado a essências independentes.
O existente—possível não envolve a existência em sua definição essencial, permanecendo uma entidade que não possui o ser por si mesma.
A anterioridade do ato de ser sobre a quiddidade em Mollã Sadrã
A contingência absoluta é inexistente nos mundos, visto que a ciência divina concebe tudo o que a vontade decreta, tornando necessária a existenciação do possível concebido.
Mollã Sadrã diverge de Avicena ao estabelecer que o ato de ser é anterior à quiddidade, mesmo que esta seja meramente pensada no intelecto divino.
O existente—possível é redefinido não como aquele que carece de existência em sua essência, mas como aquele que, existindo, não possui a necessidade por si.
A existência jamais constitui um atributo, mas o sujeito verdadeiro da realidade efetiva de todo ente que exemplifica um ato de ser.
A distinção por intensidade entre os existentes e o Princípio
Cada existente atua como uma mônada de existência e manifesta uma necessidade sob certo modo ao desenvolver as potencialidades de seu próprio ato de exister.
A diferença entre as criaturas e Deus reside na intensidade do fluxo de ser, que se desdobra do infinito máximo até o nível de definição mais baixo.
Deus identifica—se como o próprio ato de ser sem quiddidade, enquanto os possíveis dependem da vinculação de sua existentialidade ao ato de ser do Princípio.
O contraste entre as perspectivas de Avicena e Mollã Sadrã sobre Zayd
Na perspectiva aviceniana, Zayd possui uma essência definida que recebe o ato de existir através da simultaneidade entre a ciência e o decreto divino.
Zayd é considerado possível por Avicena porque sua essência não exige a existência por definição, embora sua realidade concreta seja necessária uma vez concebida.
Mollã Sadrã substitui a distinção entre tipos de existência por uma gradação infinita de potência e fraqueza vinculada ao movimento intrasubstancial.
O retorno dos existentes derivados à unidade do Real
O rassemblement do múltiplo no Um é sustentado pela escala de modos de potência do ato de ser que são inferiores ao infinito.
A linha divisória entre o Ser Necessário e o possível situa—se na transição entre a existência absoluta e a existência determinada por quiddidades.
Os existentes derivados mantêm uma comunidade de essência com o Deus sem essência, pois é impossível que um ato de ser esteja separado do ato de ser.
O retorno ao Senhor é viabilizado porque, do ponto de vista do Real, os entes jamais abandonaram a unidade divina original.
A temporalidade imaginária e a resolução do círculo do tempo
A distinção entre Ser Necessário e possíveis descreve apenas graus de intensidade dentro de uma eternidade de expressões divinas.
O evento do retorno ocorre em uma temporalidade fundadora que se epifaniza na duração mediana entre o tempo físico e a eternidade.
As descrições corânicas da ressurreição referem—se ao círculo do tempo imaginal que se completa no tempo eterno do Um.
O mundo da alma atua como o lugar metafísico de transição onde se revela o movimento do múltiplo para o Um e do Deus manifestado para o Deus oculto.