IBN ARABI

RSKPT

A doutrina akbariana sobre o Absoluto cristaliza-se como efeito da realização mística, não como preparação para ela, manifestando-se como expressão extrínseca e provisória das realidades apreendidas nos mais altos estados de contemplação.

Ibn Arabi descreve essa abertura como visão da Face de Deus, da qual toda a sua doutrina posterior é apenas a diferenciação de uma realidade totalizante captada num único olhar sobre a Realidade Una.

O encontro de Ibn Arabi com Ibn Rushd ilustra a possibilidade excepcional de se atingir a realização sem estudo prévio, confirmando simultaneamente a validade geral do estudo doutrinário como regra.

A doutrina da Realidade divina guarda incomensurabilidade essencial com a própria Realidade tal como ela é em si mesma, pois nenhum livro poderia conter a totalidade do que foi dado ao cognoscente.

O estudo aprofundado da doutrina revela significados e ramificações espirituais implícitos, de modo análogo ao estudo das Escrituras reveladas e seus níveis de sentido mais profundos.

Há duas razões sólidas para tomar as doutrinas de Ibn Arabi como pontos de partida conceituais sérios: sua origem em iluminação transcendente ao esforço individual, e o caráter inspirado do próprio processo de diferenciação do olhar único.

A distinção crucial dentro da ordem divina opõe o Nível ou Divindade à Essência, sendo esta última a sede exclusiva da Realidade absoluta, acessível apenas por via apofática.

A Realidade, em sua totalidade, só pode ser una, de modo que o ser relativo não pode ser separado, em sua essência, do que não admite delimitação — e a própria infinitude do Real implica necessariamente uma dimensão de finitude.

Os dois aspectos do Divino — incomparabilidade e similitude — devem ser simultânea e intuitivamente afirmados, de modo que a relatividade seja vista como dimensão intrínseca do Absoluto e não como algo exterior a ele.

A perfeição do ser exige necessariamente um aspecto aparente de imperfeição, pois sem imperfeição a própria perfeição da existência seria imperfeita.

A Divindade ou Nível pode ser identificada ao Ser, princípio primordial que determina e compreende em si tudo o que pode possuir um grau de ser, sendo o ato criador do Deus pessoal nesse nível o que existencia todos os existentes relativos.

É apenas quando a Essência é dotada de um grau de forma — a Divindade — que se torna possível qualquer relação entre o Real e o mundo, conferindo ao mundo um grau aparente de realidade e ao Real um grau aparente de relatividade.

As essências imutáveis — os arquétipos ou entidades — não manifestadas em si mesmas e existentes apenas como possibilidades puramente inteligíveis, determinam todos os estados das coisas às quais o Ser empresta existência.

Tudo o que recebe um grau de ser é simultaneamente real e ilusório — real em sua participação interior no Ser, mas ilusório por ser efêmero e por ser exteriormente uma forma entre uma multiplicidade.