Para os Ahl-e ta’yid (Assistidos pela Inspiração divina), a prova da existência da substância intelectiva da qual depende a egotidade do homem é que existe no composto humano uma coisa que faz o homem falar, que põe em ação a língua e os lábios para ensinar e aprender, coisa que não se encontra em nenhuma outra espécie animal.
Essa coisa é diferente do corpo, pois o corpo resulta de elementos nos quais não há palavra nem conhecimento, enquanto ela provém de outro lugar, conforme o versículo: “O homem não viu que o criamos de uma gota de esperma? E eis que discute abertamente!” (XXXVI/77), ou seja, a linguagem e os diferentes atos não estão na semente.
Ver, ouvir e falar são provas da presença no corpo de uma coisa da qual dependem, por intermédio dos órgãos-instrumentos, os atos. Visto que todo ato deliberado e toda palavra sensata provêm apenas do homem, deduz-se que há no ser humano um espírito próprio que rege o “eu” de cada um, o qual não existe nos outros animais.
É essa coisa que conduz o corpo em direção ao objetivo da busca; ela é diferente do corpo, comanda o corpo, e o corpo só se move por sua ordem. Quando essa coisa deixa o corpo, mesmo que o corpo permaneça com seus órgãos, nenhum ato emana mais.
Essa coisa é chamada de “alma”. É ela que detém o conhecimento do bem e do mal, e dela procedem os atos, conforme o versículo: “Por uma alma! Como ele a modelou bem, inspirando-lhe a libertinagem e a piedade!” (XCI/7-8).
A língua fala por ordem da alma, que a põe em movimento para emitir as palavras, e a língua é anexada à alma, como Deus diz ao Seu Enviado: “Não movas tua língua ao ler o Alcorão, como se quisesses apressar a revelação.” (LXXV/16).
Deus diz: “Eis o castigo pelo que vossas mãos realizaram.” (XXII/10), e “Nesse Dia, poremos um selo sobre suas bocas, mas suas mãos nos falarão e seus pés testemunharão o que realizaram.” (XXXVI/65), atestando que o homem é diferente de seus órgãos, que os órgãos são servos e instrumentos, e que o agente do ato é a alma.
Ainda que as pessoas da massa acreditem que o homem é o corpo material pesado e visível, sua inteligência instintiva sabe que o homem é alma: prova disso é a dor e a nostalgia de quem perde um ser querido, vendo o corpo intacto presente mas sabendo que o ser amado não é aquele corpo que jaz ali, pois esse ser partiu.
Conclui-se que o “eu” pertence à alma, e o corpo é para a alma um servo e um auxiliar. O corpo está para a alma como o cavalo está para o cavaleiro: o cavalo é o bem do cavaleiro, para e anda por sua ordem, e toda ação realizada pelo cavalo se origina no cavaleiro.
O corpo foi dado à alma para permitir ao homem adquirir o conhecimento, praticar a devoção e atingir o repouso eterno.