METAFÍSICA

Até agora, temos mencionado a metafísica com frequência. Agora é hora de definir o que entendemos por essa forma de conhecimento de suma importância, cujo desaparecimento é diretamente responsável pelo nosso impasse moderno. A metafísica, que na verdade é uma só e deve ser denominada metafísica no singular, é a ciência do Real, da origem e do fim das coisas, do Absoluto e, à luz dele, do relativo. É uma ciência tão rigorosa e exata quanto a matemática, e com a mesma clareza e certeza, mas que só pode ser alcançada por meio da intuição intelectual e não simplesmente pelo raciocínio. Assim, ela difere da filosofia tal como esta é habitualmente entendida. Trata-se, antes, de uma teoria da realidade cuja concretização significa santidade e perfeição espiritual e, por isso, só poderá ser alcançada no âmbito de uma tradição revelada. A intuição metafísica pode ocorrer em qualquer lugar —pois o “espírito sopra onde quer”—, mas a compreensão efetiva da verdade metafísica e sua aplicação à vida humana só poderão ser alcançadas dentro de uma tradição revelada que dê eficácia a certos símbolos e ritos nos quais a metafísica deve confiar para sua compreensão.

Essa ciência suprema do Real, que sob certa luz é o mesmo que gnose, é a única ciência capaz de distinguir entre o Absoluto e o relativo, entre aparência e realidade. É somente sob sua luz que o homem pode distinguir entre níveis de realidade e estados do ser, e ser capaz de ver cada coisa em seu lugar no esquema total das coisas. Além disso, essa ciência existe, como a dimensão esotérica, dentro de toda tradição ortodoxa e integral e está unida a um método espiritual derivado totalmente das fontes da tradição em questão.

Nas tradições do Oriente, a metafísica permaneceu continuamente viva até hoje e, apesar das diferenças fundamentais, existe uma unidade de doutrina que justifica o uso do termo “Metafísica Oriental”, embora a metafísica não conheça Oriente e Ocidente. No Ocidente, entre os gregos, existiu também uma metafísica verdadeira, da ordem mais elevada, nos escritos pitagóricos-platônicos e, especialmente, em Plotino. Em todos esses casos, a metafísica é a exposição doutrinária que foi fruto de um modo de vida espiritual. Da mesma forma, no cristianismo, encontra-se metafísica nos escritos de alguns dos primeiros fundadores da teologia cristã, como Clemente e Orígenes, Irineu, Gregório de Nissa e Gregório de Nacianzo, Erígena, Dante e Eckhardt, e, igualmente, Jacob Boehme. Entre os escritores ortodoxos, há uma exposição metafísica ainda mais aberta e completa do que a encontrada entre os autores latinos. Mas até mesmo a teologia oficial da Igreja latina, especialmente a escola agostiniana, contém metafísica que, no entanto, é muito mais oculta e indireta.

Na filosofia ocidental, porém, desde Aristóteles, a infeliz prática de considerar a metafísica como um ramo da filosofia foi tal que, com o surgimento da dúvida filosófica, a metafísica também caiu em descrédito. Nesse domínio, o racionalismo da filosofia grega posterior fortaleceu a tendência existente na teologia cristã oficial de enfatizar mais a vontade e o amor do que a inteligência e o conhecimento sapiencial. Esses dois fatores se combinaram para tornar a metafísica e a gnose um aspecto periférico da vida intelectual do homem ocidental, especialmente no final da Idade Média e no Renascimento. O que habitualmente se chama de metafísica na filosofia pós-medieval, para a maioria, não passa de uma extensão da filosofia racionalista e, na melhor das hipóteses, um pálido reflexo da verdadeira metafísica. A chamada metafísica, que filósofos como Heidegger criticaram e consideraram que havia chegado ao fim, não é a doutrina metafísica que temos em mente. A metafísica, ligada a uma filosofia que é, ao mesmo tempo, perene e universal, não conhece princípio nem fim. É o coração da philosophia perennis a que Leibniz se referia.