QUESTÃO 1

SHABESTARI, Maḥmūd ebn-e ´Abd al-Karīm Sa´d al-Dīn. La roseraie du mystère. Tr. Djamchid Mortazavi e Eva de Vitray-Meyerovitch. Paris: Sindbad, 1991.

Questão 1:
Em primeiro lugar, reflito sobre o meu próprio pensamento:
O que se entende por «pensar»? (c. 12)

Vitray-Meyerovitch

  • A imobilidade hipotética do sol e a invariabilidade de seu brilho tornariam impossível reconhecer a origem dos raios, abolindo toda diferença entre essência e aparência.
    • Se o sol permanecesse fixo e seu esplendor fosse sempre idêntico, ninguém saberia que os raios procedem dele
    • Não haveria diferença alguma entre o núcleo e a casca — entre a Realidade e sua manifestação
  • O mundo inteiro é um raio da luz da Realidade, mas a própria Realidade permanece oculta em seu interior, velada pela manifestação.
    • A Realidade não se revela diretamente — está escondida no seio daquilo que manifesta
  • Por não mudar nem variar, por ser alheia a qualquer mudança ou fugacidade, a luz divina induz o observador à ilusão de que o mundo é permanente e subsiste por natureza própria.
    • A constância da luz é o que produz a aparência de permanência do mundo
    • O mundo parece perdurar em sua própria natureza precisamente porque a fonte que o ilumina não oscila
  • O homem que se apoia na razão de longo alcance mergulha em grande perplexidade diante da Realidade.
    • A perspicácia da razão que se julga todo-poderosa não é garantia de acesso à Realidade
    • A nota 43 remete à expressão “razão que vê longe” como faculdade discursiva de pretensão totalizante
  • Da pretensa onipotência da razão, uns extraem a filosofia e outros a doutrina da Encarnação — dois desvios opostos gerados pela mesma fonte limitada.
    • A filosofia e a doutrina da Encarnação são apresentadas como derivações simétricas de uma razão incapaz de suportar a luz da Realidade
    • A nota 44 remete à filosofia como sistema racional; a nota 45, à doutrina da Encarnação como interpretação teológica equivocada
  • A razão não suporta a luz desse Rosto — é necessário abandoná-la e buscar um outro olhar para contemplar a Realidade.
    • O imperativo “vai! busca outro olhar” marca uma ruptura epistemológica: a contemplação exige faculdade diferente da razão discursiva
  • O filósofo, ao ver com dois olhos, vê duplo e é incapaz de contemplar a unidade da Realidade.
    • A dualidade da visão filosófica — sujeito e objeto, aparência e essência — impede a percepção do Uno
    • Ver duplo é a metáfora da incapacidade de superar a multiplicidade e aceder à unidade
  • Da cegueira nasceu a doutrina da assimilação; da visão com um só olho, a doutrina da transcendência de Deus — ambas expressões de visão deficiente.
    • A doutrina da assimilação — tashbih — equipara Deus às criaturas, e nasce da cegueira total
    • A doutrina da transcendência — tanzih — separa Deus radicalmente do mundo, e nasce de uma visão parcial, com um único olho
    • A nota 46 remete ao tashbih; as notas 47 referem ao tanzih
  • A noção vã e falsa da metempsicose provém da mesma deficiência de visão — ela é mais um fruto do olhar imperfeito sobre a Realidade.
    • A metempsicose — transmigração das almas — é apresentada não como doutrina mística legítima, mas como erro nascido de visão defeituosa
    • A nota 48 esclarece o termo metempsicose no contexto do texto
  • Aquele que segue a via do cisma é semelhante ao cego de nascença — incapaz de perceber a Realidade tal como ela é.
    • O cisma — nota 49 — designa a divisão sectária que fragmenta a visão da unidade
    • A comparação com o cego de nascença radicaliza a incapacidade: não se trata de visão parcial, mas de ausência congênita de percepção
  • Os homens da exterioridade têm oftalmia nos dois olhos, pois dos objetos percebem apenas a superfície exterior.
    • A oftalmia — inflamação que turva a visão — é metáfora da incapacidade de ver além do véu exterior das coisas
    • A nota 50 remete à expressão “homens da exterioridade” como categoria daqueles que se limitam à dimensão exotérica
  • O teólogo, que nada percebe da Unicidade divina, permanece em profunda obscuridade e nos grilhões do conformismo.
    • A nota 51 remete ao teólogo como representante do saber exterior e formal
    • A nota 52 remete à Unicidade divina — tawhid — como o que o teólogo é incapaz de perceber
    • O conformismo designa a adesão cega à autoridade e à tradição sem acesso interior à verdade
  • O que cada um enuncia acerca da Unidade revela o seu grau de conhecimento — a Essência divina está além de todo onde, como e porquê.
    • O discurso sobre a Unidade funciona como índice do nível espiritual e gnóstico de quem fala
    • A Essência divina — nota 53 — transcende as categorias de lugar, modo e causa
    • O texto encerra com a citação: “Que Sua glória seja exaltada acima do que se disse d'Ele” — nota 54 — afirmação da inefabilidade absoluta do divino

Hossein Nasr

SHABISTARĪ, Maḥmūd. Gulshan-I Rāz: The Rose Garden of Divine Mysteries. 1st ed ed. Albany: State University of New York Press, 2025.

Questão [1]

  • O poema abre com um estado de perplexidade do eu lírico diante da própria atividade de pensar, indagando o que é o tafakkur.
    • Tafakkur designa tanto pensamento quanto meditação, não se reduzindo ao raciocínio cotidiano ordinário.
    • A pergunta encerra um enigma: o ponto de partida é o espanto diante da própria consciência.
    • A indagação implícita é “Quem sou eu?”, tal como a formulava Sri Ramana Maharshi, o grande santo indiano do século XX.
    • O questionador não começa perguntando sobre Deus ou o Profeta.
  • O tafakkur comporta simultaneamente os sentidos de pensar e meditar em todos os níveis de significação, tornando sua tradução problemática.
    • Em inglês há mais distinção entre os dois termos; em árabe e persa há mais unidade entre eles.
    • A expressão tafakkur filosófico pode ser traduzida tanto como meditação filosófica quanto como pensamento filosófico.
    • Perguntar o que é o tafakkur equivale a perguntar qual é o processo do próprio conhecer — quem é o agente que conhece e o que é conhecido.
    • O ponto de partida é o sujeito do conhecimento, não o objeto.
  • Shaykh Mahmud Shabistari dominava a lógica e a filosofia islâmica além do sufismo, como revela a seção seguinte.

Resposta

  • O tafakkur é definido como o movimento do falso em direção ao verdadeiro, e como a capacidade de ver o Universal Absoluto no particular.
    • Esse verso foi amplamente citado, inclusive no Departamento de Filosofia da Universidade de Teerã ao ensinar o significado metafísico do tafakkur em distinção ao significado racional.
    • Os pares kull e juz (universal e particular) pertencem à lógica, à filosofia e a outras disciplinas islâmicas.
    • Há distinção em filosofia islâmica entre kull e kulli, e entre juz e juz'i.
  • Os filósofos definiram o tafakkur relacionando-o a estágios anteriores da atividade mental que a ele conduzem.
    • O primeiro estágio é o tadhakkur — a rememoração ou evocação que ocorre quando a conceitualização surge no coração.
    • Tadhakkur não se confunde com dhikr (invocação, rememoração) do sufismo, embora compartilhe a mesma raiz.
    • O segundo estágio, chamado ibrat, consiste em extrair lição durante o processo de pensar.
  • Quando a conceitualização é empregada para aprender e controlar o pensamento, ela recebe entre os homens de intelecto o nome de tafakkur.
    • Tadabbur significa aprender, ganhar experiência ou controlar o pensamento.
    • Ahl-i aql — os homens de intelecto — designa filósofos ou pensadores.
  • Pela ordenação de conceitos conhecidos, a afirmação do incompreensível torna-se compreensível.
    • Em lógica distinguem-se tasawwur (conceito) e tasdiq (afirmação e julgamento).
    • O processo cognitivo vai do conceito ao julgamento: concebem-se ideias e depois se emitem juízos sobre elas.
    • Parte-se do que já se conhece em direção ao que ainda não se conhece, mediante o julgamento dos conceitos.
  • A primeira premissa é como o pai, a segunda como a mãe, e a conclusão é como o filho.
    • Shabistari alude ao silogismo aristotélico clássico: premissa maior, premissa menor e conclusão.
    • Exemplo: “Todas as árvores são verdes” (premissa maior); “Isto é uma árvore” (premissa menor); “Logo, esta árvore é verde” (conclusão).
    • O silogismo em árabe islâmico é chamado qiyas.
  • A ordenação silogística necessita do uso da lei lógica para ser corretamente aplicada.
    • Qanun (lei) é a arabização do grego canon, diferindo de shar, que designa a Lei Divina.
    • Usar a lei significa seguir as regras da lógica.
  • Quando falta a afirmação intelectual no raciocínio, o resultado é mera imitação.
    • Mesmo no pensamento racional ou silogístico, o elemento intelectual — distinto do racional — é necessário.
    • Sem esse elemento, o resultado é pura repetição sem visão.
  • O caminho silogístico é longo demais; é preciso abandoná-lo como Moisés lançou seu cajado.
    • A referência é ao episódio corânico em que Moisés abandona o cajado por ordem divina.
    • Após dedicar vários versos ao método silogístico, o autor aconselha subitamente o leitor a deixar essa forma de pensar.
  • É preciso adentrar o Vale da Direita e escutar sem ambiguidade a voz divina que diz: “Em verdade, Eu sou Deus” (Alcorão 28:30).
    • O Vale da Direita — wadi-yi ayman — é o vale sagrado de Tuwa, onde Moisés ouviu a Voz de Deus.
  • O verificador avançado no caminho da visão contempla primeiramente a luz do Ser, e não os objetos que a ela conduzem.
    • Muhaqqiq — verificador — designa quem alcançou grau elevado no conhecimento sufi, derivado de tahqiq (verificação).
    • Ibn Arabi usa amplamente esse termo; para ele, os muhaqqiqun constituem a mais elevada classe de sufis.
  • O coração purificado pelo conhecimento espiritual vê Deus em primeiro lugar em tudo que contempla.
    • O crente comum é levado a Deus pelo reflexo de Seus Nomes e Qualidades nas criaturas.
    • O coração purificado vê Deus primeiro e, em seguida, Seus Nomes, Qualidades e reflexos nas criaturas.
  • A condição do bom pensamento é a catarse — a liberação da potencialidade e da imperfeição —, seguida de uma centelha da Afirmação Divina.
    • Fikr significa meditação ou pensamento.
    • Tajrid — catarse — significa desapego da potencialidade, da materialidade e da imperfeição.
    • Ta'yid é termo corânico que designa o auxílio e a afirmação de Deus; sem ele, o acesso à Verdade é impossível.
  • A quem Deus não guia, nenhuma porta se abre pelo uso da lógica.
    • Razão e lógica são insuficientes para alcançar a Verdade; a Afirmação Divina é necessária.
    • Esse verso implica a rejeição total da filosofia secular e racionalista.
  • O filósofo peripatético, limitado à razão, não vê nas coisas senão a contingência, sendo incapaz de perceber a Presença Divina na ordem criada.
    • O conceito de imkan (contingência), em par com wujub (necessidade), é aviceniano.
    • Shabistari não nega que as coisas sejam contingentes quando consideradas apenas em sua quididade.
    • A referência é principalmente aos peripatéticos, não aos ishraqis (filósofos iluminacionistas).
  • O filósofo peripatético tenta provar o Necessário pelo contingente, razão pela qual fica perplexo diante da Essência do Necessário.
    • Shabistari aceita o termo filosófico wajib (o Necessário) como nome de Deus, amplamente usado no discurso islâmico.
  • O filósofo racionalista cai ora no círculo vicioso, ora na regressão ao infinito.
    • Dawr como termo técnico filosófico significa circulus vitiosus em latim: B é provado por A e A é provado por B.
    • Tasalsul significa regressão infinita: A é provado por B, B por C, C por D, e assim indefinidamente.
    • Ambos, dawr e tasalsul, são rejeitados como meios de prova na filosofia islâmica e também nos textos latinos e na filosofia ocidental tradicional — São Tomás de Aquino os refuta longamente.
  • Quando a razão se emaranha na questão do ser, seus passos ficam presos na regressão ao infinito.
    • A dependência exclusiva da razão na busca do conhecimento do Ser conduz ao impasse da regressão infinita.
  • A manifestação de todas as coisas se dá por meio de seus opostos, mas a Verdade Divina não possui semelhante nem oposto.
    • Tudo neste mundo é conhecido por contraste: alto pelo baixo, grande pelo pequeno, claro pelo escuro.
    • A distinção de qualidades e elementos no mundo provém dos opostos.
    • A Verdade Divina, porém, está além de qualquer par de opostos.
  • Diante da Essência da Verdade, que não tem oposto nem semelhante, coloca-se o dilema metafísico de como conhecê-la.
  • O ser contingente não contém em si nenhum traço do Ser Necessário; seguindo apenas o caminho da contingência, o conhecimento do Necessário permanece inacessível.
  • Há quem, como um tolo, busca a luz do Sol radiante no deserto com uma lamparina na mão.
    • Esse verso é uma descrição do estado intelectual de um mundo secularizado.
    • Os modernistas buscam o Sol com a lamparina na mão em pleno deserto, enquanto os raios do Sol já incidem sobre eles.

Ilustração (tamthil)

  • O tamthil — ilustração de um princípio — é um dos pontos culminantes do Gulshan-i Raz tanto do ponto de vista poético quanto da profundidade metafísica.
    • As coisas são percebidas como objetos distintos por meio de diferenças de forma, cor, posição e contraste.
    • A história do peixinho que pergunta à mãe o que é água ilustra esse princípio: a mãe responde pedindo que lhe mostrem o que não é água.
    • É a descontinuidade na manifestação do ser que permite conhecer algo separadamente em si mesmo.
    • Shabistari expande a ilustração com base nessa verdade.
  • Se o Sol estivesse sempre no mesmo estado e seus raios fossem sempre iguais, ninguém saberia que aquela luz provém dele.
    • Conhecemos o Sol como realidade distinta porque ele se põe.
    • Se a luz solar fosse sempre a mesma, não se detectaria nenhuma mudança e nem se perceberia o Sol como realidade distinta.
    • A diferença entre o interior e o exterior — entre o núcleo e a casca — desapareceria.
  • O mundo inteiro deve ser considerado como o reflexo da Luz da Verdade, e a Verdade está oculta precisamente porque se manifesta totalmente nele.
    • Ibn Arabi enunciou: “Glória a Ele que Se oculta de nós com aquilo que não é senão Ele mesmo.”
    • Deus é ao mesmo tempo al-Zahir (o Manifestamente Aparente) e al-Batin (o Interiormente Oculto), conforme o Alcorão (57:3).
    • Se Deus retirasse Sua Luz por um momento e a devolvesse, todos se tornariam conscientes de Sua Presença.
    • O ateísmo resulta da negligência da continuidade da graça, da barakah e dos atos de existenciação que os seres recebem de Deus continuamente.
    • A situação existencial de esquecimento de Deus é ela mesma uma provação divina.
    • Muitos se voltam a Deus no momento da angústia porque o conforto da ordinariedade e o esquecimento de Deus são sacudidos pela provação.
  • Porque a luz da Verdade não possui transporte nem mudança de estado, nenhuma mudança ou transformação existe em Sua Essência.
  • O mundo parece existir continuamente e subsistir por sua própria essência, o que é um equívoco que Shabistari contesta.
  • Quem possui uma razão que busca o que está longe demais enfrenta grande extravío diante de si.
    • Durandish (lit. pensamento-longo) é normalmente qualidade positiva em persa, indicando previdência; aqui, porém, designa a razão ilimitada que vai de passo em passo sem finalidade baseada na certeza.
    • Sargashtagui significa estar perdido — como quem se perde num bazar sem saber para onde ir.
    • Alguns manuscritos trazem darmandagi (estar preso, emperrado) em lugar de sargashtagui.
    • O racionalista — dotado de aql-i dur-andish — acredita que tudo pode ser resolvido pela razão humana, mas experimenta grande extravío.
  • Shabistari passa então a caracterizar as diferentes deformidades da mente e da alma humana, examinando os excessos e desvios de escolas como o kalam (teologia islâmica) e a falsafa (filosofia).
    • Quando diz falsafa, refere-se especificamente à filosofia mashsha'i (peripatética), à qual se opõe.
    • No tempo de Avicena, sufis e filósofos islâmicos não eram tão opostos entre si.
    • A partir do período seljúcida, al-Ghazali e outros atacam a filosofia peripatética islâmica, e muitos sufis seguem essa tendência — Mawlana Jalal al-Din Rumi, Sanai e Attar antes dele.
    • A filosofia desaparece como escola distinta na maior parte do mundo árabe após esse período, com exceção de Ibn Rushd e Ibn Khaldun.
    • Na Pérsia, na Índia e no mundo otomano, a filosofia sobrevive, e a partir do sétimo ou oitavo século islâmico a filosofia islâmica e o sufismo convergem, sobretudo com base na escola ishraqui (iluminacionista) de Suhrawardi.
    • Dawud al-Qaysari (turco) e Sa'in al-Din ibn Turkah (persa) foram grandes filósofos e sufis ao mesmo tempo.
    • Essa tendência de síntese culmina em Mulla Sadra e sua teosofia transcendente (al-hikmah al-muta'aliyah), síntese de tasawwuf, ishraq, kalam e filosofia racional.
    • Shabistari situa-se no final desse período de oposição — o oitavo século islâmico —, quando ainda era comum que sufis atacassem os filósofos.
    • Suhrawardi representa uma síntese de sufismo e filosofia no meio desse período.
  • Como resultado da razão excessivamente intromissiva, um se torna filósofo racionalista e outro, encarnacionista.
    • Aql-i fuduli designa a razão que se intromete em tudo, que transgride os limites do que lhe compete — o termo fuduli tem conotação de impertinência e intromissão, distinto de fadl (virtude, graça).
    • Falsafi designa o adepto da filosofia racional.
    • Hululi refere-se à doutrina teológica cristã da encarnação e também a pensadores islâmicos acusados de posições similares — hulul significa literalmente entrar em, manifestar-se em.
  • A razão não suporta a luz do Rosto divino; para contemplar esse Rosto, é preciso buscar outro olho.
    • Khirad aqui deve ser entendido como razão, não como intelecto superior.
    • O outro olho é o olho interior, o olho do coração — chashm-i dil ou ayn al-qalb.
  • Os dois olhos do filósofo racionalista são vesgotos, e por isso ele é impedido de ver a Unidade da Verdade.
    • Olhos vesgotos — aḥwal — veem tudo em dobro; quem é vesgo não consegue ver a unidade de nenhuma realidade.
    • Filósofo aqui se refere especificamente aos racionalistas, não à classe geral dos sábios (hukama).
  • A opinião da semelhança — tashbih — provém da cegueira; a compreensão da transcendência absoluta — tanzih — provém da visão com um só olho.
    • Tashbih designa similitude, analogia, imanência; tanzih designa transcendência, o ser-além de algo.
    • Ambos os conceitos, tomados isoladamente e com exclusão do outro, conduzem a um beco sem saída teológico.
    • O Imame Ja'far al-Sadiq respondeu que a verdade está entre os dois: “Nem tashbih nem tanzih, mas a verdade do assunto está entre eles.”
    • Ver com um só olho reduz a realidade tridimensional a duas dimensões: perde-se a terceira dimensão que permite compreender que a bondade de Deus é ao mesmo tempo transcendente e manifesta no mundo.
  • A reencarnação é considerada infidelidade e falsidade porque resulta de uma visão estreita e limitada.
    • Tang-chashmi significa ver as coisas de modo estreito e limitado — tang significa estreito ou apertado; chashm significa olho.
    • René Guénon, Frithjof Schuon e Ananda Coomaraswamy trataram dessa questão; Coomaraswamy, em seu ensaio “Sobre o Único Transmigrador”, argumenta que a doutrina hindu correta é a de que é o Princípio Supremo associado ao Atman que transmigra — há apenas um transmigrador, que é em última instância o Eu Supremo.
    • O islamismo rejeita a reencarnação com base no princípio de que não há repetição na teofania — la takar fi'l-tajalli.
    • A redução dos planos superiores da realidade ao estado terrestre implica a repetição da teofania de Deus, o que contradiz esse princípio metafísico.
    • O interesse de muitos ocidentais pela reencarnação decorre do contato com o hinduísmo e o budismo populares, bem como com novos cultos como os Wiccans e os novos druidas na Inglaterra.
  • O cego de nascença — akmah —, privado de toda perfeição exterior, é comparado a quem segue a posição mutazilita.
    • O cego de nascença nunca viu nenhuma realidade exterior e, portanto, não vê as formas e cores nem as realidades e qualidades das formas.
    • A posição mutazilita rejeita a Presença Divina na ordem criada.
  • Os olhos das pessoas do exterior estão afetados pela oftalmia — ramad —, de modo que no exterior não veem senão as manifestações do próprio exterior.
    • Ramad é doença dos olhos em que a visão se torna turva e lacrimosa.
    • Quem sofre dessa limitação não vê a dimensão interior das coisas, o arquétipo do qual o exterior é manifestação externa.
    • Isso é uma crítica à fenomenologia tal como popularmente compreendida: Husserl tentou distinguir o numenal do fenomenal, mas a tradição que se seguiu prendeu-se a compreender o exterior pelo exterior, esquecendo o numenal ou interior.
  • O teólogo do kalam, por não ter nenhum sabor da unidade — tawḥid —, perde-se nas trevas da imitação pura.
    • Kalami designa o adepto do kalam islâmico, a teologia especulativa.
    • O kalam é considerado, do ponto de vista metafísico, uma via limitada de compreensão.
    • O teólogo apenas repete formulações sem ver nem experienciar a Verdade.
  • Tudo o que foi dito sobre Deus — mais ou menos — não é senão o sinal da visão própria de cada um.
    • O que se diz sobre a verdade não é a própria verdade, mas o que a visão de cada um alcança dela.
    • Isso vale também para os sufis, que falaram da Verdade a partir de suas estações espirituais particulares.
  • A Essência divina é transcendente em relação à quantidade, à qualidade e ao estado, e Sua estação está além de tudo o que dizem d'Ela.
    • A frase árabe ta'ala sha'nuhu declara a transcendência da Estação de Deus.
    • A frase amma yaqulun — “do que dizem” — provém do Alcorão 17:43.
    • Munazzah significa ser puro, estar além, ser transcendente — qualificado pelo tanzih.
    • Chand-u chi-u chun — quantidade, qualidade e estado — são traduções persas de três das categorias de Aristóteles, presumindo-se incluídas as demais.
    • Deus está além de todas as categorias empregadas no pensamento ordinário.