LEWISOHN, Leonard (org.). The legacy of medieval Persian Sufism (1150-1500). Oxford, England: Oneworld Publications, 1999
Um dos fenômenos mais perturbadores para os iranólogos, tanto não muçulmanos quanto muçulmanos, no estudo do Sufismo persa é como interpretar os frequentes ditos extáticos de místicos que, em seus arroubos, como Rumi, afirmavam ser “nem muçulmano, nem cristão, nem judeu, nem zoroastra”. O presente ensaio propõe, portanto, examinar, com foco nos escritos de Shabistari, os fundamentos teológicos e teosóficos da postura unitarista dos sufis sobre a diversidade religiosa. A defesa sufi da ‘unidade das religiões’ constituía um ecumenismo único que tinha suas origens numa consciência visionária (kashf-i huduri) e não num diálogo inter-religioso intelectual (bahth-i ‘aqli) como compreendido pelo teólogo moderno.
Mahmud Shabistari nasceu em Tabriz em 687-8/1288-9, onde recebeu sua educação elementar e avançada. Subsequentemente, tornou-se profundamente versado na terminologia simbólica e na teosofia mística de Muhyi al-Din Ibn ‘Arabi. Sua erudição e aprendizado relativos aos volumosos escritos deste último levaram-no, por fim, a descrever sua busca de compreensão da “ciência da religião” como uma demanda para compreender Ibn Arabi:
Passou longa parte de minha vida estudando a ciência da Unidade divina, viajando pelo Egito, pela Turquia e pela Arábia, dia após dia, noite após noite. Ano após ano, por meses a fio, como o próprio tempo, trilhei cidades e campos, por vezes queimando o óleo da meia-noite, por vezes fazendo da lua minha lâmpada de cabeceira.
Quão vastos foram os climas que percorri e quantos os estudiosos da Arte Súfica conheci – cujos ditos maravilhosos amei colecionar para fazer deles o tema de minhas próprias composições esotéricas. Em particular, empreguei esforços no estudo da Futuhat al-Makkiyya e do Fusus al-hikam, não negligenciando nenhum detalhe mínimo em qualquer dos livros. Apesar dessas exertas na erudição, meu coração ainda sentia-se inquieto. Eu ponderava sobre essa desinquietação e ansiedade, quando uma voz oculta pareceu clamar dentro de mim, dizendo: Estas palavras estão escritas na linguagem do coração; busca seu significado em teu coração. Não sigas a toda demanda e chamado; não bates a toda porta.
Embora os escritos de Ibn Arabi tenham revigorado tanto o estado quanto a religião, não puderam prover a meu coração qualquer conforto. De fato, quanto mais ponderava sobre suas boas palavras, havia algo profundamente discordante e perturbador acerca delas. Quando pedi a meu Mestre que explicasse esta misteriosa condição que sobre mim veio, ele comentou:
“Toda a intenção e esforço de Ibn Arabi foram expor em palavras a visão mística que ele contemplava. Contudo, porque sua pena (qalam) ficou aquém de seu passo (qadam) nesta exposição, certos deslizes de pena (que te desconcertaram) ocorreram. Não era que o tumulto e a perturbação viessem do próprio Ibn Arabi; era apenas um rosto feio refletido no espelho.”
Meu Shaykh e Mestre, Amin al-Din, poderia realmente dar-vos boas respostas. Abençoada seja sua alma pura. Nunca vi outro mestre de seu calibre.
Autor de vários volumes de poesia mística, a fama de Shabistari repousa principalmente no Gulshan-i raz (Jardim do Mistério), que ele compôs no início do século XIV em dísticos rimados (o metro mathnawi de bahr-i hazaj) totalizando cerca de mil dísticos. Este poema foi escrito em resposta a vinte e seis interrogações concernentes a várias intrincações da metafísica sufi, postas a ele por outro grande sufi de seus dias: Rukn al-Din Amir Husayni Harawi (m. 718/1318).
A obra poética de Shabistari mostra um gênio de penetração metafísica combinado com habilidade aforística em sintetizar dilemas intrincados do pensamento teológico e teosófico islâmico, inigualada por qualquer outro poeta sufi persa medieval em brevidade de produção e profundidade de conteúdo. Para os místicos iranianos nos séculos seguintes à morte de Shabistari (740/1339), pode-se dizer geralmente que o Gulshan-i raz representou o ápice, em persa, dos ensinamentos de Ibn ‘Arabi. Nas palavras de Henry Corbin, era, “une sorte de vade-mecum des soufis iraniens”. Como o Tarjuman al-ashwaq de Ibn ‘Arabi ou os Lama‘at de ‘Iraqi, o Gulshan-i raz foi composto numa série de lampejos aforísticos semiabstratos de inspiração, cuja harmonia quase sempre é apenas intuitivamente apreendida.
Ainda assim, o poema de Shabistari rapidamente tornou-se popular e, em meados do século XVI, quase trinta comentários haviam sido escritos sobre ele por vários místicos persas, tanto renomados quanto obscuros. O maior comentarista do Gulshan-i raz de Shabistari foi, sem dúvida, Muhammad Lahiji (m. 912/1507). A famosa glosa de Lahiji, a Mafatih al- ‘ijaz fi sharh-i Gulshan-i raz, evocou este quarteto de seu contemporâneo Jami (817/1414-898/1492) que, na última década do século XV, respondeu a uma cópia autógrafa dela enviada a ele pelo autor:
Senhores da Oração em sua abatida necessidade vossa Pobreza em espírito ilumina,
Como o verde primaveril vossos pensamentos alegram o Jardim do Mistério.
De qualquer modo que possas, lança um olhar ao cobre vil de meu coração.
Para que da ilusão talvez eu encontre o caminho para a realidade.
Duas vertentes básicas de teosofia percorrem o Sharh-i Gulshan-i raz de Lahiji: i) o Sufismo lírico de Rumi, e ii) a teosofia de Ibn ‘Arabi e seus seguidores, tais como os poetas gnósticos ‘Iraqi e Maghribi. Lahiji é um teósofo visionário do mesmo calibre de Shabistari e sua exegese de Shabistari está impregnada da poesia e da teosofia do Sufismo persa medieval, estando repleta de citações de outras obras de Shabistari e amplas referências aos Divans de Rumi, Maghribi e ‘Iraqi, assim como intercalada com relatos pessoais do autor sobre sonhos, visões e experiências místicas. Está definitivamente extraída da mesma fonte de inspiração (mashrab) da qual brotou o próprio verso de Shabistari, e assim merece a mais plena atenção de todos os estudantes do Sufismo persa. Seu comentário é, como observa Annemarie Schimmel, particularmente significativo para a compreensão da tradição gnóstica ibne-arabiana no pensamento persa.
O elemento único no Jardim do Mistério de Shabistari é sua indubitável qualidade de inspiração extática, impessoal – ainda que extremamente erudita –, uma inspiração que deriva de sua sublimidade, mais do que do gênio ou musa pessoal de Shabistari. É um poema que parece ser “dado mais do que feito, a expressão mais da raça do que de um poeta individual”, característico daquela loucura amorosa celeste (furor amatoris) descrita por Platão no Fedro, a qual, por inspiração sozinha, qualifica a obra de um poeta para a imortalidade.
A veracidade desta inspiração parece demonstrada pelo fato de que ele ataca a adoração de ídolos (but parasti) com particular veemência, senão intolerância, em seu outro grande, mais longo porém menos conhecido, poema metafísico épico, o Sa‘adatnama, num espírito bastante contrário ao do Jardim do Mistério. (De fato, toda a primeira metade do Sa‘adatnama é dedicada à refutação de várias seitas, religiões e filósofos desviantes, assim chamados “heréticos”, injuriados por Shabistari em linguagem muito forte).
En Islam Iranien III
Mahmud Shabestari é uma figura de primeira grandeza na história da espiritualidade iraniana, tendo nascido em 687/1288 em Shabestar e vivido principalmente em Tabriz sob os soberanos mongóis.
A obra principal de Shabestari é o poema “A Rosaleda do Mistério” (Golshan-e Raz), no qual responde a dezessete perguntas de Mir Hosayni Sadat Harawi sobre a teosofia mística e a via espiritual.
O comentário de Shamsoddin Mohammad Gilani Lahiji, intitulado “As Chaves da Cura Milagrosa”, é uma verdadeira suma da metafísica do sufismo.
Shams Lahiji usava sempre vestes negras, e sua resposta a Shah Isma’il sobre a razão disso denota um sentido do simbolismo das cores na linha da metafísica dos fotismos da escola de Najmoddin Kobra.