Homo Necans

BURKERT, Walter. Homo Necans: Interpretationen altgriechischer Opferriten und Mythen. Berlin; New York: Walter de Gruyter, 1972.

I. Sacrifício, caça e ritos funerários

II. Lobisomens em torno do caldeirão trípode

III. Dissolução e festa de Ano-Novo

IV. Antestérias

V. Elêusis


Observação preliminar

1. A dificuldade de explicar o comportamento religioso humano decorre menos dos limites da ciência do que da abundância de dados e interpretações, já superior à capacidade de assimilação de uma vida individual, mas a necessidade de orientar-se no mundo com autonomia intelectual legitima a construção de modelos capazes de reduzir essa multiplicidade a uma configuração compreensível, mesmo diante da perspectiva de uma organização coletiva das informações.

2. A explicação dos fenômenos religiosos a partir de textos gregos antigos, mediante conhecimentos biológicos, psicológicos e sociológicos, enfrenta resistências disciplinares e inevitáveis lacunas de especialização, sem que essas limitações possam ser convertidas em fronteiras da própria realidade, pois a compreensão filológica pressupõe um ambiente e uma tradição determinados por tais dimensões, enquanto a sociedade humana somente se torna compreensível pela consideração de seu desenvolvimento em longos períodos históricos.

3. A compreensão encontra seus limites na projeção de estruturas pessoais de experiência sobre realidades distintas e na impossibilidade de compreender pessoalmente aquilo que não possui caráter humano ou espiritual, mas pode ampliar-se pela explicitação consciente da tradição e pela adaptação de suas estruturas às novas realidades, exigindo modelos provisórios que ofereçam a perspectiva mais abrangente e clara possível, contemplem múltiplos campos da experiência e mantenham numerosos pontos de contato com fatos verificáveis.

4. O caráter absoluto próprio de cada religião faz com que ela se considere suficiente para fundamentar e explicar a realidade, dispensando explicações externas, de modo que o discurso sobre a religião tende a converter-se em discurso religioso, no qual ela atua como agente e meio de comunicação capaz de despertar ressonâncias interiores, conservando reconhecimento social mesmo quando a seriedade da prática é substituída por uma identificação empática sem compromisso.

5. A reunião e a classificação de informações religiosas constituem uma atividade amplamente aceita e pouco arriscada, mas permanecem insuficientes para compreender seus fenômenos, assim como um léxico não permite entender uma língua sem sua gramática e sua pragmática, razão pela qual nem a acumulação de materiais nem a ressonância descontrolada da empatia esclarecem religiões que parecem escapar à experiência do mundo moderno.

6. A compreensão de religiões estranhas, passadas ou desaparecidas exige uma tradução cuja linguagem de chegada esteja claramente definida, pois a oscilação entre tradução e imitação produz equívocos, enquanto a passagem de uma religião à linguagem de outra enfrenta a ausência de equivalências entre condições de vida e práticas distintas, e tanto a adoção de termos como totem, tabu e mana quanto a criação de conceitos como espírito do cereal ou demônio anual podem introduzir imprecisões e transformar a descrição em uma nova mitologia.

7. A linguagem da ciência secularizada, orientada pela lógica e pelas ciências da natureza em sentido amplo, oferece o meio mais comprovado de compreensão entre povos, podendo submeter os fenômenos religiosos à investigação mesmo quando a religião rejeita essa possibilidade, pois a ciência também pode examinar a renúncia ao conhecimento e ao pensamento autônomo e não pode dispensar a análise de um fenômeno mundial, embora essa explicação exija um discurso que não seja religioso.

8. A religião constitui um fenômeno histórico e social de transmissão e comunicação, cuja persistência depende mais de formas herdadas do que de experiências espontâneas ou inovações, apesar da centralidade atribuída pelo cristianismo ao encontro pessoal com Deus e à renovação do indivíduo, pois até a experiência do sagrado costuma ser organizada segundo métodos tradicionais e critérios de reconhecimento, enquanto as religiões pré-cristãs fundamentavam expressamente sua legitimidade na conservação dos costumes ancestrais.

9. A religião grega antiga ocupa uma posição singular entre as formas religiosas mais antigas, embora não supere as tradições egípcias e sumérias em antiguidade nem as religiões vivas em acessibilidade, porque permaneceu relativamente compreensível e amplamente documentada, continuou a atuar em superstições, literatura, liturgia e teologia cristãs e preservou tradições remotíssimas no interior de uma cultura intelectual e artística altamente refinada, cuja capacidade de questionar a própria religião tornou seus fenômenos mais nítidos pela alternância de perspectivas.

10. A tradição grega permite esclarecer etapas essenciais do desenvolvimento humano mediante uma perspectiva histórica que remonta às origens da humanidade, sem depender da acumulação de materiais comparativos considerados primitivos e separados de seus contextos, de modo que sua relevância antropológica prevalece sobre a valorização humanística de suas particularidades, enquanto sua originalidade e clareza tornam visíveis antigas ordenações fundamentais da vida.

11. A combinação das perspectivas histórica e funcional revela a religião como um importante fator de estabilização social e uma tradição continuamente modificada, mas nunca substituída por algo inteiramente novo, cuja persistência se desenvolve entre forças sociais e tradições concorrentes sem refletir diretamente as rápidas mudanças econômicas, pois se vincula a camadas mais duradouras da convivência e da constituição psíquica humana, podendo oferecer condições para novos desenvolvimentos sociais e econômicos.

12. Os rituais e as tradições míticas a eles relacionadas apresentam estruturas recorrentes cuja compreensão exige reconhecer a articulação de elementos complexos e imediatamente acessíveis à experiência, como matar, comer, virgem, mãe e pai, sem reduzi-los a esquemas binários ou formalizações matemáticas, pois sua organização consiste em uma realização temporal que, no sacrifício, conduz da preparação ao centro indizível e à instauração de uma ordem, admitindo repetição, mas não inversão.

13. A fundamentação geral e as análises particulares sustentam-se reciprocamente na interpretação histórica e funcional do conjunto formado pela caça, pelo sacrifício e pelos ritos funerários, permitindo compreender as divisões e a cooperação entre grupos no sacrifício do carneiro, a dissolução e a reconstituição da ordem vital nas festas cívicas e nas orgias dionisíacas, a estrutura de culpa e restituição no consumo ritual do vinho e o ritmo sacrificial dos mistérios de Deméter, sem que essa sequência constitua uma estratigrafia histórica ou permita separar rigorosamente tradições mediterrâneas, orientais, eurasiáticas, gregas e pré-gregas.

14. A apresentação compreensível dos fenômenos exige concisão e seleção diante da vastidão dos materiais, tornando inviável discutir exaustivamente todas as questões particulares ou reunir integralmente a bibliografia especializada, de modo que a exposição privilegia contribuições fundamentais e recentes e as fontes mais importantes, remetendo às obras de referência para uma documentação mais completa.

15. A investigação evidencia aspectos pouco edificantes da religião e da condição humana e traços da cultura grega que não correspondem às suas imagens mais ideais ou atraentes, encontrando, contudo, respaldo na exigência délfica de um conhecimento de si mesmo marcado pela clareza e pela ausência de ilusões.