Babilônia, Memphis, Persépolis

BURKERT, Walter. Babylon, Memphis, Persepolis: eastern contexts of Greek culture. Cambridge, Mass: Harvard University Press, 2004.

Introdução

1. A civilização desenvolve-se pelo contato com estrangeiros e parceiros distantes, sobretudo mediante viagens e comércio, pois a interação permite conhecer diferentes cidades e modos de pensar, como exemplifica a experiência de Odisseu, enquanto o isolamento dos Ciclopes, privados de navegação e de intercâmbio, os mantém numa existência sem agricultura, viticultura, organização cívica ou leis, evidenciando que toda cultura, inclusive a grega, depende de relações interculturais.

2. A tradição europeia, especialmente a acadêmica, apresentou os gregos como uma civilização singular, isolada e clássica, apoiando-se em padrões normativos cuja autoridade se enfraquece no mundo multicultural, embora a designação de Grécia clássica conserve pertinência por identificar uma cultura transformada em modelo no Mediterrâneo, no Oriente e no Ocidente latino, recuperada em sucessivos renascimentos e decisiva tanto para a Europa quanto para o islã.

3. O caráter clássico da cultura grega não implica isolamento, mas a necessidade de diferenciação histórica levou o Renascimento a definir-se pela admiração da Antiguidade e pela superação de um declínio associado ao mundo gótico, enquanto o Iluminismo situou nessa Antiguidade o início do progresso intelectual, favorecendo a representação da Grécia como uma origem espontânea, decorrente de talentos exclusivos.

4. A pesquisa histórica do século XIX reforçou o isolamento atribuído à Grécia clássica sob o impacto do nacionalismo posterior às guerras napoleônicas e da identificação entre cultura e nação, enquanto a linguística indo-europeia aproximou gregos, romanos e povos germânicos e os separou dos semitas, convertendo Homero em expressão das origens helênicas e sustentando, no ensino alemão, uma aliança entre germanismo, helenismo e protestantismo.

5. A especialização dos estudos helênicos dificultou o reconhecimento das consequências da redescoberta do antigo Oriente Próximo, embora a decifração dos hieróglifos e da escrita cuneiforme tivesse acrescentado cerca de dois milênios à documentação histórica e permitido conhecer as primeiras grandes civilizações em suas línguas originais, pois as escavações e os novos materiais estimularam a constituição de campos separados de competência, tornando excepcionais as perspectivas abrangentes.

6. A descoberta das civilizações hitita e ugarítica, o acesso aos seus arquivos e a identificação de paralelos orientais para os mitos gregos enfraqueceram a separação entre gregos e semitas e o pressuposto de culturas isoladas, sobretudo quando a publicação do mito hitita do Reino no Céu revelou sua proximidade com a Teogonia de Hesíodo e a decifração da Linear B comprovou a presença do grego na Idade do Bronze, embora permanecesse necessário distinguir as continuidades desse período dos desenvolvimentos e contatos posteriores.

7. A crescente valorização das perspectivas interculturais acompanha o enfraquecimento da imagem tradicional das origens gregas e a revisão do lugar da Europa na sociedade mundial, encontrando expressão nas controvérsias suscitadas por Atena negra, de Martin Bernal, cuja denúncia do obscurecimento das contribuições africanas e asiáticas exige, apesar das afirmações discutíveis, a busca de novas evidências, perspectivas mais amplas e avaliações mais equilibradas.

8. As designações Oriente e oriental pressupõem uma perspectiva ocidental e agrupam artificialmente regiões e culturas profundamente diversas, mas conservam utilidade geral para reconhecer que, na Ásia Menor, na Mesopotâmia, no Irã, na Síria, na Palestina e no Egito, desenvolveram-se as primeiras grandes civilizações, cujas realizações se difundiram para regiões vizinhas e constituíram o ambiente histórico indispensável à compreensão da formação cultural grega.

9. A compreensão do desenvolvimento cultural exige descrições multidimensionais das interações e das respostas às influências externas, pois explicações causais de fenômenos complexos permanecem provisórias e parciais, tornando necessário investigar adaptações, transformações e até progressos decorrentes de mal-entendidos, bem como os efeitos da transferência de técnicas e ideias ou das invasões, da opressão e da exploração sobre o crescimento, a contenção ou a destruição dos sistemas sociais e econômicos.

10. A Grécia não pode ser definida apenas por seus limites geográficos, porque a expansão grega desde a Idade do Bronze alcançou ilhas, costas e regiões distantes, produzindo contatos em várias direções, enquanto o Ocidente oferecia principalmente matérias-primas e terras agrícolas e as civilizações orientais, organizadas em torno da escrita, da realeza e dos templos, assumiam a iniciativa das interações mediante estruturas constituídas desde o terceiro milênio e ainda dominantes no início da Idade do Ferro.

11. A expansão do sistema da Idade do Bronze para a Europa deu origem à civilização minoica de Creta, organizada em centros palacianos de administração e atividade econômica e dotada da escrita Linear A, ainda não decifrada, cuja influência alcançou a Grécia continental por volta de 1600 a.C., onde os palácios micênicos empregaram a Linear B, identificada como uma forma antiga da língua grega.

12. O colapso de numerosas civilizações em torno do Egeu por volta de 1200 a.C. atingiu a Grécia, Creta, a Anatólia hitita, a Síria e a Palestina, provocando o desaparecimento prolongado de palácios, construções monumentais, atividades metalúrgicas e sistemas de escrita, enquanto Egito, Mesopotâmia e Chipre apresentaram graus distintos de continuidade, permanecendo incertas as causas da catástrofe justamente porque a ruptura da documentação escrita limita a investigação a hipóteses de invasões, crises econômicas, conflitos sociais, epidemias ou secas.

13. A reorganização do Mediterrâneo oriental após o colapso da Idade do Bronze produziu novas formações políticas e foi impulsionada pelo comércio marítimo de metais, pelo expansionismo militar assírio e pela difusão do alfabeto, que ampliou o acesso à escrita para além das burocracias palacianas e religiosas, deslocando o centro da civilização do Oriente Próximo para o Mediterrâneo e oferecendo aos gregos oportunidades decisivas de desenvolvimento.

14. A Assíria transformou antigas pretensões mesopotâmicas de soberania universal em conquistas sistemáticas sustentadas por saques e tributos, expandindo-se até a Síria, Chipre e o Egito, enquanto a queda de Urartu e da Frígia sob as invasões cimérias favoreceu a ascensão da Lídia de Giges, cuja riqueza aurífera, submissão de cidades gregas e aproximação com Assurbanípal consolidaram uma ligação terrestre entre a Ásia Menor e Nínive, posteriormente conhecida como Estrada Real.

15. As invasões e conquistas produziram efeitos devastadores sobre o desenvolvimento cultural de luvitas, arameus, fenícios e israelitas durante várias gerações, mas os gregos, situados na margem ocidental dessa expansão, foram atingidos sem sofrer destruição equivalente e puderam beneficiar-se predominantemente das consequências favoráveis dos contatos estabelecidos.

16. O comércio fenício de longa distância difundiu produtos, metais e técnicas orientais entre os gregos, acompanhado pela migração de artesãos, possivelmente refugiados das devastações assírias, enquanto a posterior expansão comercial grega articulou rotas, colônias e centros concorrentes ou cooperativos desde a Síria até a Etrúria, utilizando a Lídia como ligação com a Mesopotâmia e ampliando os contatos com o Egito, a Trácia e o mar Negro, ao mesmo tempo que a pressão assíria deslocava o centro fenício de Tiro para Cartago.

17. O apogeu assírio, consolidado pela conquista do Egito e pelo período de estabilidade e prosperidade associado ao reinado de Assurbanípal, favoreceu tanto a formação da biblioteca de Nínive quanto a difusão de costumes aristocráticos, entre eles o uso de leitos para reclinar-se durante os banquetes, transmitido pela Lídia aos gregos e documentado por uma iconografia assíria que encontrou imitação direta na arte grega.

18. A potência assíria foi destruída pouco depois da morte de Assurbanípal pelo ataque conjunto de babilônios e medos, culminando na devastação de Nínive em 612 a.C. e numa ruptura da memória histórica tão profunda que, cerca de dois séculos depois, Xenofonte encontrou junto às ruínas apenas narrativas fantasiosas, sem informações confiáveis sequer sobre o nome da antiga cidade.

19. Os gregos acompanharam as transformações assírias a partir de uma posição periférica, mas participaram delas como comerciantes, prováveis mercenários, saqueadores e adversários navais, conforme indicam documentos orientais, objetos aramaicos consagrados em santuários gregos e a submissão tributária de reis de Chipre, sem que seus assentamentos tenham sofrido, ao que permitem concluir as evidências, as devastações impostas a numerosos povos e regiões do Oriente.

20. O breve apogeu babilônico sob Nabucodonosor afetou marginalmente os gregos, embora incluísse o serviço de mercenários como Antimênidas, enquanto a recuperação da independência egípcia por Psamético, auxiliado por combatentes gregos, estabeleceu relações militares e comerciais mais importantes, favorecendo assentamentos em Náucratis, intercâmbios culturais e a importação do papiro, que substituiu os dispendiosos rolos de couro e se tornou um componente essencial da escrita e da vida intelectual gregas.

21. A preservação de parte do mundo grego diante da expansão aquemênida repetiu de maneira imprevisível as vantagens de sua posição periférica, pois, embora os gregos da Anatólia fossem submetidos e perdessem relevância cultural por séculos, os demais conservaram sua liberdade nas Guerras Médicas e desenvolveram uma consciência de oposição ao Oriente, expressa em contrastes entre gregos e bárbaros, Europa e Ásia, liberdade e servidão, favorecendo a centralidade cultural de Atenas, o predomínio literário do dialeto ático e a consolidação da civilização clássica.

22. A relação entre modelos e imitações permite identificar a direção das influências culturais sem depender de juízos absolutos de superioridade, pois a apropriação pode produzir configurações novas e próprias, como ocorreu com os gregos, que, apesar de terem recebido contribuições externas por longo tempo, desenvolveram uma arte e uma arquitetura reconhecidas como clássicas e uma literatura de alcance mundial.

23. Por volta de 500 a.C., a cultura grega já fornecia modelos mitológicos, religiosos e artísticos a etruscos, romanos e persas, enquanto a cerâmica ática circulava até a Europa central e escultores gregos trabalhavam em Persépolis, evidenciando uma influência que alcançava o Mediterrâneo e o Oriente e adquiria dimensão internacional sem depender do apoio de um domínio militar ou político equivalente.

24. Cerca de dois séculos antes, as influências predominantes seguiam do Oriente para a Grécia, reintroduzindo técnicas metalúrgicas e arquitetônicas desaparecidas após o colapso micênico e enriquecendo a produção geométrica com modelos fenícios, sírios, urartianos, assírios e egípcios, num processo em que a proximidade entre objetos importados e locais precedeu a superação dos mestres orientais pelos artesãos gregos, enquanto Urartu desaparecia sob as invasões cimérias.

25. A influência egípcia sobre a escultura monumental grega no final do século VII a.C. forneceu a postura canônica do jovem masculino em pé, transformada no kouros nu em consonância com as práticas esportivas gregas, enquanto a figura feminina despida, anteriormente recebida da Síria e ocasionalmente ampliada em esculturas cretenses, desapareceu por séculos, revelando uma seleção cultural específica que fez da nudez masculina uma contribuição duradoura da arte grega.

26. A formação do templo grego resultou de uma genealogia complexa que reuniu a concepção oriental da morada divina, experiências arquitetônicas locais, possíveis antecedentes em madeira e ornamentos egípcios e sírios, adquirindo formas estáveis com a colunata envolvente e a adoção de telhas cerâmicas que determinaram a inclinação do frontão, antes de tornar-se modelo para etruscos e romanos, enquanto os equipamentos e práticas dos santuários continuavam a integrar uma cultura comum do Oriente Próximo e do Mediterrâneo.

27. A influência oriental sobre a literatura e a vida espiritual gregas permanece mais difícil de determinar pela perda de testemunhos, mas a singularidade de suas realizações relaciona-se às liberdades de iniciativa, expressão, imaginação e religião, à multiplicidade de centros políticos, à competição e à ausência de um poder central sufocante, condições que favoreceram comerciantes e artesãos independentes, a redução da autoridade régia, a participação cívica e a tendência à igualdade jurídica dos cidadãos masculinos, preparando o desenvolvimento da democracia.

28. A tradição de homens sábios que aconselhavam grupos políticos e comunidades cívicas foi transformada pela competição individual, que intensificou os conflitos de opinião, a discussão, a energia retórica e a argumentação, fazendo com que o confronto entre proposições se tornasse uma prática capaz de prevalecer sobre a simples perpetuação da autoridade.

29. As cidades fenícias também conheceram oportunidades econômicas, liberdade relativa e organização política favorecidas pela posição periférica diante dos grandes impérios, mas Cartago adotou modelos artísticos gregos e, no período helenístico, enviou filósofos a Atenas para desenvolver suas carreiras, confirmando a predominância grega na configuração cultural da civilização de alcance mundial.