1 Grande corvo

CALASSO, Roberto. IL CACCIATORE CELESTE. MILANO: ADELPHI, 2016.

NA ÉPOCA DO GRANDE CORVO

1. No tempo do Grande Corvo o invisível era visível e se transformava sem cessar, num reino da metamorfose em que animais podiam ser homens, deuses, senhores de espécie, demônios ou ancestrais e homens podiam ser formas passageiras de outra coisa, sem truques para reconhecê-los senão o conhecimento prévio que se tem de um amigo ou de um adversário, tudo, das aranhas aos mortos, correndo num único fluxo de formas.

2. A mudança contínua, que mais tarde só sobreviveria na cavidade da mente, tornava todas as distinções entre coisas, animais e homens provisórias e incertas, e quando grande parte do existente se retirou para o invisível não deixou de acontecer, apenas ficou mais fácil pensar que não acontecia.

3. O caminho para tornar o invisível novamente visível era animar o tambor, cuja pele esticada de animal morto se tornava montaria, viagem e redemoinho dourado rumo ao lugar onde as ervas rugem, os juncos gemem e nem uma agulha atravessa a espessura cinzenta.

4. A caça começou não como perseguição de um animal por um homem, mas de um ser por outro ser de identidade incerta, pois a presa podia ser homem transformado, deus, espírito ou morto, até que um dia os homens inventaram a domesticação, cercando-se de animais que se adaptavam a eles depois de tanto tempo em que eles imitaram os animais, e tornaram-se sedentários e já um tanto acomodados.

5. A hesitação diante da caça ao urso nascia da possibilidade de ele ser também um homem e de ouvir tudo o que se dizia mesmo de longe ou dormindo, pois a terra é seu ouvido, razão pela qual nunca era nomeado, mas chamado Velho, Avô, Primo ou Tio, a caça era preparada em silêncio concentrado, o encontro inesperado exigia saudação reverente e, morto o urso, cujo corpo inteiro era remédio, os caçadores fugiam e voltavam como por acaso para descobrir com surpresa que um desconhecido o matara.

6. O urso foi o primeiro ser divino cujo nome era proibido pronunciar, de modo que o monoteísmo não foi inovação mas renascimento e endurecimento dessa interdição, sendo sua única novidade a proibição das imagens.

7. Sabendo que o urso compreendia tudo, os caçadores conversavam com ele antes ou depois de matá-lo, negando a autoria, agradecendo-lhe por deixar-se matar, desculpando-se, alegando a pobreza ou cantando para que, ao morrer, ele apreciasse a canção.

8. Após a morte, o crânio do urso era pendurado numa árvore, às vezes com tabaco entre os dentes e listras vermelhas, os ossos embrulhados e suspensos em outra árvore e o focinho escondido num lugar secreto do bosque, pois a perda de um único osso tornaria o caçador responsável perante o espírito do urso.

9. O filhote de urso capturado era criado numa jaula e muitas vezes amamentado pela mulher do caçador até o dia em que, como “pequena coisa divina”, era convidado à festa de seu sacrifício, entre danças e o pranto da mulher que o nutrira, e recebia uma prece em que os homens declaravam amá-lo, pediam que falasse bem deles aos pais divinos e voltasse para ser sacrificado de novo, antes de matá-lo.

10. O pensamento mais antigo, o primeiro a dispensar a forma de narrativa, assumiu a forma de aforismos sobre a caça, transmitidos como murmúrio entre tendas e fogueiras, à maneira de cantigas infantis.

11. Os animais selvagens se assemelham aos seres humanos, mas são mais sagrados do que eles.

12. A caça é um ato puro, e os animais selvagens amam as pessoas puras.

13. Não é possível caçar sem antes ter feito um desenho da presa.

14. O maior perigo da vida está em que o alimento dos homens é inteiramente feito de almas.

15. A alma do urso é um urso em miniatura que se encontra em sua cabeça.

16. O urso sabe falar, mas prefere permanecer em silêncio.

17. Quem fala ao urso chamando-o pelo nome o torna manso e inofensivo.

18. Um homem inábil que sacrifica obtém mais caça do que um caçador hábil que não sacrifica.

19. Os animais caçados se comportam como mulheres que flertam.

20. As fêmeas dos animais seduzem os caçadores.

21. Toda caça é uma caça de almas.

22. No início a finalidade da caça era obscura, pois os homens tentavam tornar-se predadores como um ator que entra num papel, matar não diferia muito de ser morto e, se o homem se tornava urso, golpeava a si mesmo, sendo ainda mais misteriosa a relação entre matar e comer, que faz algo desaparecer no invisível, povoado de presenças, de modo que matar se tornou uma despedida que exigia gestos e palavras e assim nasceram os sacrifícios.

23. A caça começa como ato inevitável e termina como ato gratuito, envolvendo o momento indizível e incontrolável da morte, comparável ao coito, com práticas rituais anteriores de devoção e posteriores de descarga da culpa, em que o caçador acolhe o animal morto como hóspede nobre e lhe dirige a prece vertiginosamente doce de permitir que o mate também no futuro.

24. O conhecimento do caçador procede por recortes sucessivos, isolando a presa num ponto como alvo, de modo que o gesto de recortar a figura já é o de atacá-la, e os mitos são sobreposições desses contornos recortados que, acumulados ao extremo, voltam a formar o fundo do qual foram arrancados.

25. Com o pastoreio e a agricultura o animal tornou-se apenas animal, separado para sempre do homem, ao passo que para os caçadores era um ser nem animal nem humano caçado por seres igualmente ambíguos, e, quando se deu a separação entre o que se chamaria animal e o que se chamaria homem, a sabedoria só podia ser buscada em quem participasse das duas formas de vida, como o centauro Quíron, mestre de justiça, astronomia, medicina e caça no monte Pélion.

26. Para os heróis educados por Quíron a caça era o primeiro elemento da paideía, exercício sangrento, solitário e inútil praticado fora da sociedade, cujos grandes caçadores divinos, Apolo, que foi lobo e rato, e Ártemis, que foi ursa, eram eles mesmos fruto de metamorfose, e cuja descoberta fundadora foi a lógica da negação, a ser reconfirmada sem cessar numa vida paralela nas montanhas em que Apolo, Ártemis e Dioniso continuavam a caçar, energia oculta sem a qual nada da vida da cidade poderia existir e que, como a prece do monge, sustentava e cercava suas muralhas como redemoinho perpétuo.

27. Os homens tornaram-se animais metafísicos durante a caça, enquanto a agricultura deu ao pensamento apenas o ritmo de florescimento e declínio e aumentou o peso da sociedade sobre o homem, sendo as grandes cidades herdeiras dos primeiros armazéns de reservas, algo de que os caçadores, sem inventários nem registros, não tinham ideia.

28. Diante de uma figura rupestre em Rocky Hill que lhe parecia um xamã com tambor, o paleoantropólogo Jean Clottes ouviu de Hector, guardião índio yokut do sítio, que se tratava de um urso e que urso e homem eram a mesma coisa.

29. Um sinal do desprendimento em relação ao animal foi o disfarce de um grupo de homens como matilha de lobos, iguais e intercambiáveis como raios de uma roda, numa dupla embriaguez simultânea, a do caçado que se torna predador, de poder e metamorfose ainda dentro do círculo animal, e a do ser que encontra seu igual e equivalente, embriaguez de conhecimento que abre um abismo intransponível, pois os primeiros iguais, os lobos e os mortos, deram o passo decisivo rumo à abstração e marcaram o mundo com o selo da identidade.

30. O primeiro estratagema para separar-se da continuidade animal foi a máscara, o disfarce, a matilha de lobos formada pelos primeiros homens que se sentiram tão humanos a ponto de se disfarçar de lobos, último véu que sobrevive na máscara de seda chamada em francês loup, porque certos lobos trazem no focinho o desenho de uma máscara, como convite a imitá-los.

31. Sem tambor não há xamã e só o xamã sabe animá-lo, objeto que, de pele nua presa a um aro de bétula ou lariço, se carrega com o tempo de figurinhas metálicas, de preferência antigas e herdadas de outros xamãs, cujo primeiro som é zumbido de inseto e trovão distante, que animado se torna cavalo e águia, sangra quando seu xamã é vencido e é pendurado numa árvore quando ele morre.

32. O xamã atuava num mundo evitado pelos outros, onde combatia com multidões de espíritos familiares e cujo olhar ardente ocultava sob um chapéu franjado, e seu tambor, como o arco do caçador, era o meio de transformação, lago em que mergulhava rumo ao invisível, animado pelo relato da árvore de que fora feito o aro e pela voz da pele que contava sua vida até ser abatida, de modo que o tambor, árvore e animal mortos, guiava o xamã, que se agarrava a ele como à crina de um cavalo.

33. Dos três mundos, os homens habitam normalmente o do meio, enquanto os xamãs estão em todos, às vezes com a cabeça num e os pés noutro, mundos igualmente cheios de vida, ervas, animais e folhas, onde os espíritos podem ser menores que mosquitos ou parecer montanhas vistos de longe.

34. Para caçar era preciso antes imitar, dançando o passo da perdiz, do urso ou do grou, de modo que a imitação levava à morte e a morte ocultava a imitação, atraindo a presa ao chamá-la em sua própria língua, linguagem dos animais partilhada por caçador e xamã, seres afins cujas atividades sagradas se iluminam mutuamente, um chamando os animais para matá-los, o outro para ser protegido por eles, embora o xamã, segundo Éveline Lot-Falck, não participe da caça nem obtenha vantagem, cabendo-lhe apenas o conhecimento.

35. A palavra xamã, surgida pela primeira vez em russo na Vida do arcipreste Avvakum, é de origem tungúsica e etimologia disputada, mas as pesquisas de Pelliot e Lot-Falck sobre os termos para xamanizar nas línguas tungúsicas, túrquicas, altaicas e mongólicas concluem que ela enfatiza a ideia de movimento e agitação corporal, atividade gestual que dá nome ao xamanismo.

36. Nascida num povo minúsculo e remoto, a palavra xamã tornou-se em poucas décadas, a partir do livro de Mircea Eliade de 1951, chave universal de um esperanto religioso, sinal de que o mundo carecia de termos para uma viagem física e psíquica em que se anulam os limites entre visível e invisível, expansão tão irresistível e indiscriminada que chegou às “finanças xamânicas” californianas, tornando difícil dizer o que não é xamânico, enquanto os xamãs desapareceram ou conseguem não ser reconhecidos.

37. Os xamãs siberianos foram vistos ora como pobres loucos acometidos de “histeria ártica”, ora como os únicos capazes de curar por terem visto o outro mundo e saberem tratar com espíritos e mortos, dúvida que, com as devidas transposições, se aplica também a Empédocles, a São Paulo ou a Nietzsche.

38. Os xamãs siberianos distinguem-se dos outros sábios do mundo por viverem num mundo visível reduzido ao mínimo, sem cidades, reinos, riquezas ou comércio, apenas taiga, animais e frio intenso, e por precisarem, para chegar ao invisível, vestir os poucos objetos tangíveis dotados de poder, trajes que podiam pesar quase trinta quilos sem lhes tolher a leveza dos passos.

39. O Ṛgveda menciona os muni de cabelos longos, envoltos em trapos vermelhos e sujos, que cavalgavam o vento, deixavam os deuses entrar neles, contemplavam do alto os dois oceanos, compreendiam a mente de ninfas, gênios e animais e bebiam o viṣá, droga ou veneno vindo de Rudra, primeira aparição dos ascetas, yogin e sādhu que nunca deixaram de surgir na Índia.

40. Êxtase e possessão, palavras de conotação variável segundo o tempo e o lugar, designam um conhecimento metamórfico que transforma quem conhece no ato de conhecer e pressupõem uma mente permeável a elementos estranhos capazes de se instalar como hóspedes permanentes, ao passo que um Eu de compartimentos estanques e senhor de suas fronteiras os exclui e restringe enormemente o campo do cognoscível, motivo de orgulho sem razão aparente, exceto a vida mais tranquila de quem usa antolhos e os julga parte da ordem natural.

41. Apolo voando aos Hiperbóreos levado por cisnes brancos e Abáris chegando deles à Grécia montado numa flecha de ouro realizam viagens xamânicas, sendo Apolo o deus da luz, do metro, dos lobos e dos ratos.

42. O céu era o lugar do passado, tela escura salpicada de luzes em que, entre multidões de acontecimentos, se conservou apenas o que devia manter um sentido e se reacendia a cada noite, sobretudo o Caçador, prova da memória, sendo o céu a primeira ordem mnemotécnica e museu intacto do passado, assim como a superfície da caverna era outro céu e o céu a face interna da vasta caverna cósmica, porque para caçar é preciso desenhar.

43. Ao longo de um dia que durou vinte e cinco mil anos, os homens do Paleolítico Superior começaram a desenhar, e o único objeto possível eram os animais, potência em movimento que atacava ou devia ser atacada, num gesto que não era magia, mas transformação em animal para escapar do animal dentro de um mesmo contínuo de formas, impondo a mais severa disciplina estética, pois só a linha justa, como teria aprovado Ingres, evocava o poder, às vezes no fundo da rocha, na primeira câmara escura, diante da forma maravilhosa que surgia das mãos mal visíveis.

44. Por muito tempo se desenharam os animais mais majestosos e temíveis, raramente caçados, como primeiro passo para imitar e reduzir sua potência, enquanto as figuras humanas permaneceram marginais e casuais ou representadas como animais compostos entre outros animais, e só muito depois a estatuária grega chegaria a representar a figura humana sozinha e sobretudo nua.

45. Junto aos animais surgiu a geometria, inúmeras figuras rupestres que guardaram seu segredo, mas que partilhavam a característica de negar o mundo tal como se manifestava, como a primeira parede perfeitamente perpendicular ao solo, outro mundo inferível apenas unindo pequenos pontos luminosos no céu.

46. Dos homens magdalenianos que desenharam nas rochas da Dordonha sabe-se apenas que desenhavam com uma segurança assombrosa, raramente igualada por milênios e surgida de repente em vários lugares, do Egito a Creswell, sinal de uma inteligência altíssima, talvez semelhante à dos baleeiros que só partiam depois de ver a baleia em sonho, sem o que jamais a encontrariam na realidade.

47. Por milhares de anos o homem magdaleniano usou dois signos básicos, o vertical da azagaia, arma que golpeia o mundo sem contato físico, traço mais simples, e o curvo da ferida, círculo e anel coberto de sangue.

48. Se a constelação fosse um lugar arbitrário ao qual se prendem histórias, como os significados aos sons, seria difícil explicar por que povos da Grécia, Pérsia, Mesopotâmia, Índia, China, Austrália e até do Suriname viram durante milênios, na mesma porção do céu, as façanhas de um Caçador Celeste que nunca se cansaram de contemplar.

49. O invisível, lugar dos deuses, dos mortos, dos ancestrais e de todo o passado, não exige necessariamente culto, mas infiltra-se em cada fresta da mente como corda metálica que pode permanecer inerte ou vibrar convulsivamente, e não deve ser procurado longe, pois talvez esteja próximo demais, na cabeça de cada um, protegido por uma caixa de osso e misturado a tudo num amálgama que pode sufocá-lo.

50. Antes da escrita, nenhuma narrativa podia fixar o que acontecia, mas sendo o passado a necessidade mais vital da alma, o sacrifício, como as Bufônias atenienses ou os ritos do soma, passou a recordar e reacender por milênios o que se dera entre o homem e os animais e continuava a dar-se entre o homem e o invisível, compondo numa forma as duas características inevitáveis de assassino e adorador, de modo que, como a Missa recorda um dia passado, todo sacrifício recorda um dia longo como eras remotas, em que matar não bastava sem adorar e adorar não bastava sem lembrar que se matara.

51. O inuit Aua contou a Knud Rasmussen que, depois de buscar em vão tornar-se xamã com a ajuda de outros, procurou a solidão, atravessou uma tristeza inexplicável e de repente foi tomado por uma alegria incontrolável que o fez cantar e, nesse êxtase, tornou-se xamã sem saber como, passando a sentir dentro do corpo e da cabeça uma irradiação de fogo que lhe permitia ver de olhos fechados no escuro as coisas ocultas, o futuro e os segredos alheios.

52. A vocação do homem de conhecimento era um chamado vindo de seres poderosos invisíveis aos outros, sedução e desafio a um combate do qual saía sábio ou vencido, pobre doente, ou vitorioso, capaz por sua vez de convocar os espíritos, mas para isso seu corpo devia ser desmontado órgão por órgão, cortado, cozido e recomposto com cristais de quartzo pelos xamãs mortos, que contavam seus ossos como agiotas e o descartavam se faltasse algum, enquanto ele devia assistir consciente ao próprio despedaçamento, sofrido ao menos três vezes, num período perigoso para os parentes, cuja morte podia servir de resgate de órgãos perdidos nos caminhos do mal.

53. Ser xamã era outra vida que implicava oferecer e dividir o próprio corpo como os animais sacrificados, dos quais os xamãs eram apenas os últimos, cada um tendo uma mãe animal que reaparecia pouco antes de sua morte e obrigando os espíritos que mastigavam sua carne a responder-lhe, por se ter tornado carne de sua carne, experiência que somente Antonin Artaud, entre os modernos, descreveu e representou.

54. Todo pensamento se mede com os mortos, como mostra O altar dos mortos de Henry James, nascido da imagem de um homem cuja religião é o culto dos mortos e que se impressiona com a frieza e o esquecimento que os torna ainda mais mortos do que o destino os fez.

55. Em Sungir, perto de Moscou, um sítio de vinte e sete mil anos revelou o túmulo de dois adolescentes cobertos por milhares de contas, com cinto de dentes de raposa ártica e objetos de marfim, entre eles uma lança pesada demais para ser usada.

56. Segundo Adolf Loos, a arquitetura nasceu desses sepultamentos, e também o ornamento que ele deplorava aparece pela primeira vez junto aos mortos, não por ostentação, mas para acompanhá-los no clima gélido e selvagem que de outro modo cercaria sua memória, algo que o povo de Sungir sabia dezenas de milênios antes de Henry James.

57. Entre a taiga e a tundra chamavam-se šajtan os simulacros, amuletos, ídolos e fetiches de todo tipo, palavra que significava demônio para os muçulmanos e satanás para os cristãos, transportados em trenós vedados às mulheres e puxados por renas sagradas, isentas de trabalho, venda e morte, enquanto o sangue de outras renas era espalhado sobre cada šajtan.

58. Quando as autoridades soviéticas exigiram a entrega dos tambores, os povos se sentiram indefesos diante dos espíritos e temeram ser estrangulados, tentando substituí-los por galhos, arcos, chicotes, chapéus, tampas de panela e conchas, ou desenhando tambores em tecidos que batiam em silêncio ou deixavam ondular ao vento.

59. Segundo Éveline Lot-Falck, a mais afim historiadora dos caçadores siberianos, o caçador rompe com a vida cotidiana e secular ao entrar na floresta, sem objetos domésticos, adaptando-se aos lugares por ficções de linguagem, protegido pelo anonimato como escudo e escapando à jurisdição das religiões oficiais, pois diante da floresta, domínio das antigas potências ancestrais, todas as outras crenças são recentes e artificiais e suas liturgias ficam suspensas à sua margem e de seu silêncio.

60. Voltar da caça era difícil, porque a floresta deixava no caçador um rastro perfumado como o corpo da mulher no homem, exigindo práticas de purificação e reclusão para desatar lentamente os laços com aquele outro mundo do qual se saía com medo de ser perseguido, medo de represália que não pertence apenas aos caçadores siberianos, mas a todo aquele que cruza a fronteira do visível, sobretudo quando o invisível não é reconhecido, e vive à espera de um ataque cuja origem às vezes só ele conhece.

61. O caçador preparava-se para a expedição como para uma dança, com o corpo puro e perfumado com um aroma diferente para cada animal e abstendo-se de sexo, porque a caça era sexo e os animais, ciumentos, perceberiam de imediato, de modo que desde os primeiros passos ele iniciava um longo cortejo.

62. O encontro entre dois xamãs era sempre imprevisível, pois, enquanto conversavam ou fitavam o vazio tranquilamente sentados num banco, cada um estava ligado por uma correia invisível a uma rena distante que podia travar com a do outro um duelo feroz sem testemunhas, e quando uma rena caía o xamã correspondente sentia o puxão, levantava-se em silêncio e logo morria, havendo ainda um rio de miséria cujas margens eram reforçadas com os corpos dos parentes do xamã, cuja vida eles resgatam.

63. O xamã Narzalé curou um doente assumindo e ferindo em si a doença e, pouco depois, foi despedaçado por um urso fora da toca em pleno inverno, morte explicada como consequência de ter dado a alma em troca da do doente, sem grande surpresa nem gratidão dos envolvidos, por economia de palavras e porque ele apenas cumprira, afinal, sua obrigação e sua missão.

64. O xamã Küstäch, chamado após cinco anos de busca para curar um homem com doença nervosa mantido trancado, indiferente aos insultos de um bêbado e atento apenas a seus espíritos, mandou abrir a porta quando o mais poderoso deles desceu sobre ele, recebeu o ataque do doente, soprou-lhe no rosto até fazê-lo desmaiar, tocou-lhe a testa com as baquetas e o convidou a tomar chá à mesa, o que fizeram.

65. Os xamãs vivem num grande lariço de muitos níveis, os mais poderosos nos ramos mais altos, onde são criados pelo corvo que passa de galho em galho e onde se refugiam quando vencidos, podendo um adversário tentar destruir o ninho do outro, pois os xamãs nunca morrem de morte natural, sendo sempre vencidos e engolidos por outro xamã.

66. Do trono colocado no ponto mais alto de uma colina diante de um imenso território de caça, o cã Ögödei viu animais de todas as espécies saírem de suas tocas e se reunirem a seus pés, erguendo o olhar para ele num lamento que subia da terra como vozes de quem implora justiça.

67. Dizia-se que o universo é feito essencialmente de cristais hexagonais de rocha, sobretudo nas regiões mais escuras além da Via Láctea, os mesmos que formam os alvéolos do cérebro onde surgem as imagens, e que a comissura central do encéfalo, duas serpentes entrelaçadas, se encontra na Via Láctea.

68. Para outros, a Via Láctea é o lugar das visões e passagem entre céu e terra, mas também lugar terrível onde convergem todas as doenças, imenso monte de detritos onde se escondem abutres em busca de alimento, e quem se aventura nele deve conhecer seu grande perigo.

69. Bonifacio Bautista Aragón, guardião das ruínas de Mitla, repetia aos visitantes, diante de uma parede rosada coberta de ornamentos “no coração do muro”, que todos os ornamentos são escrituras, ao contrário do que creem os modernos, que os tomam por decorações de carnaval, sendo sua tarefa não decifrá-las, mas repetir essa frase.

70. O Senhor dos Animais é astuto e lascivo, espreita mulheres e segue moças junto ao rio em forma de lagarto, e as que ele possui no sono despertam atordoadas e logo morrem de consumpção, deixando ao redor uma estranha confusão.

71. Curioso e ciumento de tudo o que se refere ao sexo, o Senhor dos Animais espia pelas frestas das paredes e negocia com os caçadores o número de animais que permitirá abater, exigindo em troca as almas dos mortos para guardá-las em vastos armazéns nas montanhas.

72. Seguidos passo a passo pelo Senhor dos Animais e sabendo-se observados, os caçadores entalham na casca das árvores imagens como um caracol ou uma flauta para distraí-lo, cativado por esses signos, e seguir adiante livres por algum tempo.

73. Havia vários Senhores dos Animais, regentes de diferentes partes da floresta e imagens compostas de animal e homem, presa e predador, semelhantes a um Papageno sinistro, que manifestavam sua ira com luzes amareladas e trovões quando se matavam animais demais ou não se respeitavam as regras, exigiam que as cabeças dos animais abatidos fossem penduradas nas árvores e, de outro modo, passavam a caçar os homens, assumindo a forma de marido ou esposa para possuí-los e matá-los num esquecimento que só os espíritos familiares dos xamãs podem desvendar e curar, como contou Patakuru.

74. Matar implicava risco contínuo de represália, pois o Senhor dos Animais caçava os homens atacando lugares vulneráveis de sua mente, seguido por porcos selvagens e casuares como os homens por seus cães, equilíbrio e lei que explicam por que a caça não bastava e era necessário o sacrifício.

75. O caçador podia fazer amizade com seres como Mai-kaffo, antigo chefe dos búfalos, parte búfalo, homem, ave e antílope, morador de um tamarindeiro, que, presenteado com mel, lhe concedeu um búfalo, garantindo-lhe honra na aldeia, e que, convocado de tempos em tempos com o sacrifício de um animal de pele negra, vinha conversar longamente sobre medicina enquanto seu filho Mekirabo se deitava com a mulher do caçador.

76. Uma corça surgiu diante dos caçadores Hunor e Magor e, fugindo sem pressa e voltando a cabeça como a chamá-los, conduziu-os através do imenso pântano Meótida, que na infância lhes parecera um oceano sem limites, até se separarem dos companheiros e chegarem, sem perceber, a terras macias e desconhecidas, onde ao cair da noite a corça desapareceu e eles, como num sonho, encontraram fogueiras e homens e mulheres de outra raça dançando em torno de dois anciãos, conduzidos por duas moças altas e pálidas que os cativaram como antes a corça.

77. Irrompendo no círculo como demônios, Hunor e Magor raptaram as duas moças e, de volta ao seu povo, anunciaram ter encontrado a terra sempre buscada e sussurrada desde a infância, boa para os animais e para o alimento, e assim os hunos avançaram rumo à Europa.

78. O animal é ao mesmo tempo presa e guia, como a corça dos hunos, e o caçador que o segue com os olhos fixos num único ponto aventura-se sem perceber no desconhecido, pois a descoberta nasce de seguir o chamado de um ser que foge sempre visível e inalcançável, enquanto o descoberto já está ao redor e atrás, quase invisível.

79. Há duas espécies de presa, a que é morta, cujo lugar de morte se torna lugar de fundação, e a que desaparece e leva à morte dos caçadores, e a cidade nasce quando o animal-guia aceita tornar-se presa e é abatido, como em Éfeso, fundada onde caiu, atingido por um dardo, o javali indicado pelo oráculo e onde hoje se ergue o templo de Atena.

80. Quem escreve segue o animal-guia e, ao atacá-lo e matá-lo, faz surgir a obra no lugar da morte, ou descobre que ele desapareceu e o vê transformar-se em emblema de estandarte, como em Balzac, onde o animal é morto, e em Baudelaire, onde avança como emblema, pois um livro se escreve quando algo preciso deve ser descoberto sem que o escritor saiba o que é nem onde está, e então começam a caça e a escrita.

81. Os estandartes surgiram no Egito, lugar das coisas remotas, quando os comandantes, derrotados pela desordem das tropas, passaram a levar na ponta das lanças imagens dos animais hoje venerados para que cada um soubesse seu lugar, animais que serviam à boa ordem na batalha, mas também representavam a ordem que os homens haviam rompido e à qual desejariam voltar ou que invocavam como proteção nos momentos de angústia.

82. Por gratidão, os egípcios passaram a não matar os animais cuja imagem levavam nos estandartes e a venerá-los como objetos de culto, razão pela qual esses animais eram frequentemente selvagens, não sacrificáveis nem comestíveis.

83. Os picenos receberam o nome do pica-pau que guiou seus antepassados e o levavam em seus estandartes de guerra, assim como as tropas romanas republicanas exibiam águias, lobos, touros, cavalos e javalis.

84. A reforma de Mário, que impôs a águia como único animal à frente das legiões, prefigurou o Império como domínio de um só animal, cuja desagregação foi anunciada e acompanhada pelo retorno de muitos animais nos estandartes bárbaros, javalis, corvos, serpentes, dragões, leões e touros, pois o estandarte é aquilo que vai à frente, ainda que um passo, e seus seguidores, outrora caçadores que perseguiam sem alcançar o animal-guia e cuja vida tomava forma nessa perseguição, tornaram-se soldados ligados a ele pela mais íntima das relações, prostrado na derrota e tremulando ao vento na vitória, quando o corvo volta a abrir as asas e a levantar voo.