CALASSO, Roberto. IL CACCIATORE CELESTE. MILANO: ADELPHI, 2016.
A SENHORA DOS ANIMAIS
1. A Senhora dos Animais, presente em incontáveis estatuetas por toda a Europa, impunha-se pela imobilidade de seu corpo maciço de nádegas amplas, seios pesados e pernas unidas, que mal escondia ter sido outrora uma árvore, e, como um tronco poderoso que sustenta até os ramos mais distantes, velava imóvel por todos os animais e por todos os seres nascidos, que formavam ao seu redor um círculo fervilhante como sua própria folhagem.
2. A deusa imóvel um dia estendeu os braços, agarrando pelo pescoço ou pelas patas pares de panteras, aves aquáticas, cervos ou leões como um majestoso espantalho, e depois deu o primeiro passo, que logo se tornou corrida, momento misterioso que ninguém ousou descrever, afastando-se da cidade rumo a lugares solitários, pântanos e clareiras intocadas, como deusa do intacto que persegue a fera invisível, temida por todos os animais que sabem que sua flecha os alcançaria e acariciada, em repouso, por um jovem cervo que lhe lambe as mãos.
3. A Senhora dos Animais era suporte de um guarda-roupa móvel, a natureza, cujos animais se agarravam ao seu manto, como na efígie de Éfeso, inteiramente coberta por pesadas vestes e de pele negra de óleo perfumado, e dessa imobilidade e dessas imagens maciças escapou, como quem abandona uma bainha num gesto ágil, Ártemis, a mais ligeira das deusas, que persegue e golpeia com o curto quíton esvoaçando acima do joelho.
4. Livre do invólucro asiático, das protomes animais e dos testículos de touro por muito tempo tomados por seios múltiplos, Ártemis, seminua e cintilante sob a pele tensa, evocou ao correr o seu outro, o avesso da natureza de que se cansara, alguém que, como ela, sabia golpear a natureza sem que esta jamais se colasse a ele e que conhecia sobretudo o desapego, um gêmeo que ela nunca tocaria e com quem manteria uma sobreposição perene e invisível, Apolo.
5. Ártemis corria como um homem enquanto se sabia vista, encarnando o desejo masculino mais agudo, e entrava na água como mulher quando ninguém a via exceto suas companheiras, refrações e multiplicações dela mesma, no lago do locus amoenus, lugar secreto por excelência onde seu perfil imperecível se dissolve parcialmente no fluxo de que nasceu, e a ofensa de Actéon, coberto com pele de cervo, foi não querer violá-la, mas olhá-la com olhos de animal, obrigando-a a recordar o tempo em que ela própria fora a corça miraculosa que escapava, lembrança que as deusas, mais que os deuses, detestam ser forçadas a ter.
6. Eros, segundo Diotima, é ao mesmo tempo caçador temível e filósofo, e desde Platão caça e conhecimento se perseguem e se sobrepõem, implicando tanto o caráter mortal do conhecimento que mata seu objeto ao alcançá-lo quanto a possibilidade de o caçador ser contaminado pela presa até tornar-se presa, como Actéon despedaçado pelos próprios cães, que Giordano Bruno interpretou como o sábio que, na caça divina e universal, é absorvido e unido ao objeto, tornando-se selvagem, solitário e morto para a multidão, livre da prisão carnal para contemplar não mais por frestas, mas por inteiro, sua Diana.
7. Ártemis encarna a descoberta da caça separada de todo fim alimentar e reduzida à pureza de sua ação, passagem da máxima extensão da soberania sobre todas as formas vivas à máxima intensidade da ponta da flecha, atividade violenta e inútil, já que nem deuses nem homens comiam ou sacrificavam suas presas, tautologia que se autoafirma e que guarda em seu passado a negação do animal que se nega a si mesmo, círculo do pensamento do qual Ártemis não quis sair e que, ao aproximar-se de outros círculos, incendiava o desejo erótico ao redor dela, que negava o sexo exaltando-o e buscava abolir a única diferença que a separava do gêmeo Apolo para se tornar idêntica a seu único e inominável amante.
8. O primeiro gesto da vida de Apolo, ainda nos braços de Leto ao lado de Ártemis, que já reconhecia esses gestos ao vê-los pela primeira vez, foi disparar uma flecha contra a montanha pulsante e manchada que era a serpente, de cuja ferida escorreu o líquido negro da morte, enquanto da fenda deixada por seus anéis imóveis brotou uma água límpida e perene, a futura fonte Castália.
9. Eros e caça são incompatíveis por se assemelharem demais, sendo ambos incesto e exposição de todo o corpo e da mente à natureza e ao risco de ser reabsorvido por ela, de modo que, quando coexistem, a tensão termina em paralisia e ruína, razão pela qual as primeiras e mais carregadas histórias eróticas são as de caçadores e caçadoras, histórias de amor impossível que sempre acabam em desastre.
10. A proibição do incesto, cujas explicações quanto mais persuasivas mais tornam a questão ambígua, remete talvez a algo não nomeado que alimenta o sentimento de respeito às regras de parentesco, a comunhão com os animais, estado de culpa perpétua e de indistinção metamórfica do tempo do Grande Corvo, em que reinava o incesto animal e do qual toda história humana teve de se desprender, sendo por isso que a caça de Ártemis, praticada por puro prazer, reconduz à aura do incesto e mantém no ar a máxima, sem razão aparente, de que caçar é incesto.
11. Os homens mantinham o parentesco com o animal vestindo sua pele, como o herói que vestia o animal que matara ou Atena que nunca se separava da égide com a cabeça da Medusa, dando-lhes uma dupla expressão, a móvel do rosto e a fixa da morte, enquanto para muitos outros a pele de lobo, urso ou lince garantia uma promiscuidade desenfreada, língua franca da metamorfose, condenada por quem inventava uma humanidade de perfil nítido e irreversível, que chamou de scortum, “pele”, a prostituta, ciente de que esses farrapos esfolados testemunhavam uma persistente promiscuidade com o reino dos espíritos.
12. Em Esparta os meninos eram lobos e em Atenas as meninas eram ursas, iniciações que, ao contrário do que afirmam os manuais, não introduziam à ordem da cidade, mas convidavam a recordar o estado anterior a toda história, quando os homens se misturaram ao animal tornando-se lobos e ursos antes de se tornarem os que os matavam.
13. Em Esparta caçar era dever do cidadão, com cães públicos disponíveis e crianças mal alimentadas para que fossem obrigadas a caçar, enquanto em Atenas era escolha individual, mas em ambas a utilidade material da caça era secundária, pois ela só começava após os louvores cantados a Ártemis.
14. Ártemis, a mais bela e envolta em aura erótica, deseja desde a infância a virgindade, sinal de separação e distância intransponível, pois o mundo não pode irromper sobre ela, que já o possui como rainha das feras e dos lugares intactos e quer apenas transpassá-lo, escolhendo de longe um fragmento em fuga e reconduzindo-o a si no sangue, gesto de conhecimento em que a mente se desprende de seu emaranhado natural e se une à parte destacada pelo vínculo mais íntimo, a morte, esforço imenso de torcer a natureza contra si mesma que a história atribuiu a Apolo, mas de que Ártemis foi a parteira, chamando-o apenas caça, enquanto para Apolo a caça se tornou conhecimento e para ela já não se tratava de vestir a natureza, mas de penetrá-la à distância, com o corpo exposto na corrida.
15. Ártemis deixou ao irmão os privilégios do conhecimento que declara o próprio nome, e em seus santuários não havia sacerdotes mestres do silogismo, mas meninas-ursas, torturadores de estrangeiros e adolescentes ensanguentados pelo açoite, o que não significa ausência de pensamento, apenas seu ocultamento atrás de uma cortina opaca, cujos “sofismas” Ifigênia, sua favorita e mais semelhante, denunciou com fúria.
16. A Sibila Herófila, a mais antiga de Delfos, sabia que as relações entre Ártemis e Apolo não eram apenas fraternas, declarando-se num hino, em delírio de possessão mas com exatidão, como Ártemis, esposa, irmã e filha de Apolo, ela que também predisse a ruína de Ásia e Europa por Helena.
17. O primeiro desejo de um deus é ter muitos nomes, como declarou a jovem Ártemis no colo de Zeus, associando a virgindade eterna à polionímia em rivalidade com Apolo, pois cada nome é uma porção do domínio divino e o politeísta devoto deve identificar não só o deus, mas o nome certo para invocá-lo em cada ocasião e lugar, preocupação desconhecida das religiões do Livro.
18. Nenhuma divindade grega acumulou tantas hipóstases e epítetos quanto Ártemis, cujos nomes são como os animais presos ao simulacro de Éfeso, e a perplexidade dos estudiosos diante da passagem da mãe asiática imóvel à virgem corredora repousa sobre o equívoco mais antigo que a cerca, pois ela nunca foi mãe nem multimammia, como diziam os cristãos, podendo antes ser confundida com um jovem rapaz perseguidor ou perseguido por Apolo.
19. A caça de Ártemis era modelo de ação gratuita irredutível a qualquer finalidade, cuja presa não era sacrificada nem comida pela deusa ou por suas seguidoras, nunca retratadas em banquetes, e cuja única outra atividade comum era o banho, necessário porque a caça produzia impureza ao misturar suor, poeira e sangue.
20. A pureza surge com a caça e com Ártemis, a deusa hagnḗ por excelência, entendida como distinção e separação, pois o caçador se lava antes de partir para separar-se do que o mistura ao mundo, a mulher menstruada é impura pelo contato forçado com o exterior e puro é o que se destaca de um fundo e tem perfil, podendo tornar-se alvo, pureza imposta desde que o homem afiou a ponta da flecha e sempre acompanhada de um rastro de sangue, razão pela qual Ártemis é inseparável do banho que apaga todo vestígio.
21. Hagnós é categoria grega sem equivalente moderno, distinta de katharós e mal traduzida por “puro” ou “casto”, que, segundo Rudhardt, qualifica santuários, bosques, ritos, oferendas, a luz, o éter, o fogo, homens e deuses e indica um estado perdido pelo derramamento de sangue, embora Ártemis mate e permaneça hagnḗ, talvez porque é preciso sê-lo para carregar certa concentração de poder, implicando desapego e reverência diante do desconhecido, qualidade, a hagneía, sem a qual nenhum ato de culto é eficaz.
22. Ártemis e Dioniso, virgem e promíscuo, com séquitos ruidoso e feminino, raramente se cruzam e só em lugares desolados, mas partilham o extremo, intensificação súbita e ferina de emoções e ações, e a comunhão com os animais, a ponto de seus simples simulacros enlouquecerem quem os via, como a estatueta de Ártemis encontrada por Astrábaco e Alopeco e a imagem de Dioniso na arca deixada por Cassandra em Troia.
23. Ártemis encontrava Dioniso no touro e na água, como mostram as moedas de Anfípolis e a estátua da Ártemis Taurópolos montada sobre um touro, o Dioniso-touro saído das águas invocado pelas mulheres de Argos e o banho de Ártemis como retorno à deusa do que flui e foge, afinidade confirmada pela veste púrpura e dourada que em Delos vestiu primeiro uma estátua de Ártemis e depois uma de Dioniso.
24. Em torno e atrás de Apolo, Ártemis e Dioniso, os três guias do rebanho de predadores, surge a ninfa, a brisa que enfuna as vestes, cujo nome designa as que estão “intumescendo”, meninas raptadas por Ártemis quando a seiva da vida começava a moldar seus corpos, em número de oitenta segundo Calímaco ou de cem para as florestas e cem para as fontes segundo Virgílio.
25. As ninfas, que viviam 9720 anos sempre jovens, sem seguir o destino de mortais nem de imortais, dividiam seu amor entre homens e deuses, traziam o dom da vida e a loucura a quem as visse nuas no banho, habitavam árvores, fontes e grutas e acompanhavam como milícia os três predadores divinos, constituindo a mais alta abstração erótica e estética, tribo onipresente e multiforme de amas, caçadoras, profetisas, musicistas e sacerdotisas, nuvem demoníaca que media entre os extremos, líquido mental que mantém unido tudo o que acontece, de cor semelhante às ondas, matéria de que são feitas as histórias.
26. No santuário de Ártemis Órtia a deusa e suas duas adoradoras eram idênticas em rosto e corpo, como refletidas em dois espelhos, distinguindo-se apenas pelas caudas de leão que Ártemis segurava e pelas asas em seus ombros, enquanto as adoradoras seguravam uma coroa.
27. Ártemis não conhece moral, sendo implacável nos castigos e exigências sem invocar lei alguma, pois quem a ofende, o que é difícil evitar, já sabe por quê, e, ao contrário de Apolo, não julga nem se envolve no conselho dos deuses, embora presente em momentos cruciais, e não participa da vida da cidade, que ainda assim sempre lhe ergueu templos.
28. A pura Ártemis é também a mais impiedosa e a que conserva mais traços de selvageria entre as divindades gregas, e até sua castidade é duvidosa, pois Cirene, possuída por Apolo em forma de lobo, era uma forma antiga dela, como se os gêmeos tivessem tido uma vida sexual anterior violenta e feliz, e por meio de hipóstases ela enviava emissárias a unir-se a Apolo, como Herófila, Crisótemis e talvez Calisto.
29. O santuário de Ártemis Láfria, no ponto mais alto de Patras, abrigava uma estátua de ouro e marfim vinda de Cálidon que a representava como amazona e caçadora de seio direito nu, e sua festa anual de primavera era precedida por uma procissão magnífica concluída pela sacerdotisa virgem num carro puxado por cervos, com a participação de toda a população.
30. No rito de Láfria lançavam-se vivos sobre a pira do altar aves, javalis, cervos, gazelas, filhotes de lobo e de urso e animais adultos, além de frutos das árvores cultivadas, e quando o fogo era aceso Pausânias viu animais que tentavam fugir das chamas serem arrastados de volta à pira, sem que ninguém se lembrasse de alguém ter sido ferido por eles.
31. Ninguém, antigo ou moderno, conseguiu explicar por que Ártemis Láfria exigia esse holocausto nem esclarecer seu nome, atribuído ora a um certo Láfrio, ora a uma suposta brandura da deusa em sua ira contra Eneu, explicação difícil de conciliar com um holocausto rigoroso e total.
32. Com Ártemis entra-se na metafísica mais espinhosa do mito, pois o sacrifício de Patras exterminava, sem finalidade funcional nem alimento partilhado, os animais selvagens que a deusa protegia e caçava, justamente os excluídos do sacrifício na Índia védica, rito que, visto à distância na paisagem mítica grega, parece uma perpétua despedida de uma época longuíssima, diante da qual os esplendores da agricultura soam como intrusão recente, a era da caça reduzida a cinzas.
33. Os gregos confiaram a Ártemis a herança do urso, e as meninas atenienses de cinco a dez anos, vestidas de açafrão, eram levadas a seu santuário de Bráuron, na costa norte da Ática, onde eram chamadas ursas.
34. Como as singularidades matemáticas que divergem e tendem ao infinito além de certo ponto, os olímpicos, como Hermes e Ártemis, podiam parecer jovens e caçadores comuns entre os transeuntes, mas quem os seguisse logo se perderia diante de um ponto infinitamente agudo numa superfície lisa ou assistiria ao delicado instante em que o deus se tornava inumano.
35. Instituída a pólis, submetida ao retorno cíclico dos frutos da terra e ao poder do comércio, permaneceu a nostalgia de outra vida, mais pobre, repetitiva e obsessiva, mas irredutível, a caça, que, já não necessária à sobrevivência porque a carne vinha dos animais domésticos, passou a responder a outro chamado imperioso.
36. O jovem Hipólito, que desprezava a cidade e seus poderes, não comia carne e se dedicava obsessivamente à caça, é o avesso do civilizado que já não caça mas come carne de animais domésticos, para quem a caça era exercício e todo exercício uma caça de presas visíveis e invisíveis, sob a soberania de Ártemis, protetora de toda tensão, alvo e distância, de cuja supressão pelo contato nascem as histórias de seus amantes rejeitados e às vezes mortos.
37. Diferentemente dos iacutos, para quem a caça era vital, os gregos, de economia agrícola, já a praticavam como diversão e esporte, o que torna enigmática a abundância de mitos de caça e de caçadores, sobretudo os de Ártemis, cuja ocupação quase exclusiva era caçar ou repousar entre caçadas, porque nela os gregos identificaram em estado puro as ações de predar e matar, que, desligadas de todo contexto exceto a floresta, fundaram inúmeras ideias e histórias e, em sua cruel nitidez, só podiam ser confiadas a uma deusa hagnḗ.
38. Os deuses, que não comem carne, caçam porque golpear é a ação que os distingue e matar é apenas sua variante, de modo que golpear dá ao matar uma justificação estética e o coloca no centro da existência, e a caça divina, jogo perpetuamente repetido por impulso e capricho, libertou a morte das obrigações rituais, precedeu o sacrifício e sua fixidez e foi reivindicada pelas divindades do desapego, Ártemis, Apolo e Atena, embora esta preferisse a guerra e a tecelagem, enquanto os gêmeos de Leto se lançavam entre os ramos fixos num único ponto, o alvo.
39. Ártemis nunca se interessou pela caça civilizadora que extermina feras e monstros para reequilibrar a natureza, à qual se opunha, pois para ela a caça era um jogo monótono e invencível sempre recomeçado, lugar geométrico do que não é desenvolvimento, que parte do nada e retorna ao nada, com poucos e invariáveis elementos: aurora, trilhas intocadas, perseguição, repouso do meio-dia, flecha disparada, banho na fonte e sangue.
40. Não na pólis, na aldeia ou no palácio, mas na floresta, lugar indomado e intacto que um dia se chamaria natureza, se jogava a partida com o que precedeu toda comunidade, numa vida paralela de indivíduos que perseguiam presas, lutavam e se desejavam, e as inúmeras histórias gregas de caça articulavam e regulavam as relações com o mundo animal e com a entidade obscura da qual a vida comunitária se desprendera, nelas aparecendo os animais não como alimento, mas como aquilo que é morto, sendo a matança pura, de animais e caçadores entre si, o eixo dessas narrativas.
41. Se tudo o que acontece no mito se repete na história, o indivíduo nasceu na floresta com o aparecimento do caçador, primeiro ser autossuficiente que só se comunica por sua arte e primeiro perfil solitário desprendido de qualquer tribo, tendo ao fundo apenas animais e plantas.
42. Os caçadores não conquistam, constroem, governam nem celebram, apenas caçam, e quando pretendem exterminar todas as feras, como Órion, já ultrapassam a simples caça e abrem o caminho que, por Héracles, leva ao herói fundador de cidades, Teseu, sendo a única interferência possível a erótica, como a de Dafne que foge de Apolo por querer apenas caçar.
43. Durante muito tempo a caça foi o centro de tudo, algo violento e íntimo que envolvia homens e animais, breve como uma convulsão, preparado por longas sequências de gestos e gerador de um desequilíbrio a reparar por outros gestos, até que se tornou ornamento relegado à moldura, divertimento de reis e rainhas em seus parques, enquanto para Ártemis permaneceu o eixo em torno do qual tudo girava, atividade por excelência sem finalidade que obscurecia todas as outras.
44. A caça é um estado em que o caçador está como numa nuvem e do qual só se sai pela morte, e às vezes nem por ela, pois continua no simulacro fixado na abóbada celeste e no mundo subterrâneo, onde Órion, o Caçador Celeste, ainda vaga com sua clava perseguindo presas, assim como no céu persegue as Plêiades.
45. No tempo de Ártemis o caçador era o indivíduo autossuficiente que, como observou Aristóteles, só pode ser animal ou deus, e por isso seu estado oscila naturalmente entre os extremos, podendo Actéon voltar a ser cervo e Órion ser raptado por Eos para uma vida divina.
46. A caça artemisiana era incestuosa, pressupondo uma comunhão e intimidade extremas entre caçador e animal caçado, e a morte era o sinal último de uma afinidade primordial que não admitia existência separada de animal e homem, mas apenas a perpétua oscilação entre as formas.
47. Caça e sexo são opostos que se sobrepõem, de modo que tudo o que se diz de um descreve o outro, mas incompatíveis, pois misturá-los traz desastre, desenvolvendo na caça um desejo triangular entre caçador, rival e presa, como Apolo e Ártemis ou Eos e Ártemis com Órion, ora rival, ora presa.
48. Para enfrentar os olímpicos foi preciso uma deusa como Calipso, que os chamou de cruéis e mais ciumentos que todos por não tolerarem que deusas partilhassem o leito com homens, palavra já usada por Apolo diante da indiferença de Hera e Atena ao corpo mutilado de Heitor, e que escolheu como primeiro exemplo de amor entre deusa e mortal o de Eos e Órion, como se fosse o modelo de todos os outros.
49. Órion foi um caçador desmedido, cuja caça podia ser obra de saneamento, como quando prometeu livrar Quios das serpentes agindo como herói civilizador, ou de extermínio frenético dos animais, violando uma regra anterior que o incluía e não podia ser rompida, oscilando sempre entre benevolência e malevolência.
50. Coríntia chamou Órion o mais devoto dos homens, ao passo que os modernos o julgaram tolo, impudente e estúpido, mas suas aventuras devem ser medidas em escala astral e talvez remontem, segundo Lévi-Strauss, ao Paleolítico Médio, trazidas para a América pelos primeiros índios.
51. Órion não era gigante, mas pelṓrios, termo que designa o imenso e assombroso, aplicado às potências primordiais, a Aquiles, às ondas e às armaduras, e era sobretudo belíssimo, o mais belo dos seres segundo Ulisses, que o viu no prado de asfódelos caçando as feras que matara nos montes, pois na terra, no Hades ou no céu Órion só podia fazer uma coisa, caçar.
52. O nascimento de Órion tem duas versões distantes e incompatíveis, como todos os episódios de sua vida, de que restam ínfimos fragmentos, embora sua história devesse ser antiquíssima e universalmente conhecida para que Calipso lhe desse o primeiro lugar entre os amores desastrosos de deusas e mortais.
53. No século V os helenos conheciam a constelação pelo nome de Órion, mas o herói já se apagara, eclipsado por Héracles, Teseu e Perseu, e os trágicos o ignoraram, salvo num drama satírico de Sófocles de que quase nada resta.
54. As duas versões do nascimento de Órion só têm em comum o pai, Poseidon, que numa delas o gerou com Euríale, filha de Minos de quem nada se sabe senão que era irmã de Fedra e Ariadne, as ousadas e infelizes princesas que seriam suas tias.
55. A segunda versão do nascimento de Órion foi sempre um escândalo, considerada repugnante pelos modernos e deixada em suspenso até por Ovídio, que se envergonhou de prosseguir ao narrar o passeio de Zeus, Poseidon e Hermes, este em lugar de Hades, que evita ser visto na terra, pela planície de Tânagra ao entardecer.
56. Um velho camponês ofereceu hospitalidade aos três viajantes disfarçados em sua casa pobre, de paredes enfumaçadas e fogo quase apagado, servindo-lhes feijão, couve e vinho, e empalideceu ao ouvir Poseidon pronunciar o nome de Zeus.
57. Refeito do susto, o velho sacrificou seu único boi de lavoura e serviu um vinho guardado havia anos, e quando Zeus lhe ofereceu realizar um desejo pediu um filho, por ter jurado fidelidade à esposa amada já morta, e os três deuses derramaram seu sêmen sobre a pele ensanguentada do boi esfolado por Hermes, enterraram-na e dez meses depois nasceu Órion.
58. A versão dos Fastos de Ovídio, em que os deuses urinam sobre a pele do boi, é segundo Otto Gruppe uma paródia, pois os antigos sabiam que nenhum ser nasce da urina, ao passo que aceitavam que Erictônio, guardião supremo de Atenas, nascesse do pano com que Atena, enojada, limpou da coxa o sêmen de Hefesto, criado depois por ela como um filho.
59. Sob outro céu, além do Mediterrâneo e do desfiladeiro Khyber, Mitra e Varuṇa, o domínio terrestre e o celeste, deuses de aparência desconhecida e o segundo o mais misterioso de todos, geraram Vasiṣṭha, um dos Sete Videntes que habitam a Ursa Maior.
60. Mitra e Varuṇa, atraídos pelo fantasma irresistível de Urvaśī, a mais bela das Apsaras, deixaram cair seu sêmen num jarro, que o Ṛgveda chama de mente de Urvaśī e do qual nasceu Vasiṣṭha, “aquele que teve um jarro por útero”, história muito mais articulada e sutil que a crueza jurídica de estilo quirite da versão ovidiana de Órion, pois os deuses védicos não dispensaram a presença feminina, mas quiseram derramar o sêmen à vista e na proximidade da ninfa.
61. Caça e sexo constituíram toda a vida de Órion, sem outra atividade ou paixão senão momentos de arrogância, como a ameaça de exterminar todas as feras, a pretensão de atirar melhor que Ártemis, o gesto de erguer a barra de seu quíton e o ataque a sua seguidora hiperbórea Úpis, ofensas que para a deusa nunca eram vãs, embora ela continuasse a caçar com ele.
62. O verso de Ovídio que mostrava Órion pálido vagando pelas florestas em busca de Side, a esposa-romã engolida pelo Hades por rivalizar em beleza com Hera, revelava um amante triste que a imagem do exterminador brutal de feras devia apagar, e por isso foi corrompido pelos copistas, que puseram linces no lugar de Side, até que Nicolaas Heinsius, na edição de 1658, restabeleceu o nome, resolvendo a incoerência da palidez própria dos amantes e demonstrando que a salvação vem dos filólogos.
63. A flecha elimina o contato físico, assim como a virgindade de Ártemis é recusa do contato, tornando supremo o lugar onde as coisas não se tocam, a mente, e por suas flechas morreram Tício, Corônis, as filhas de Níobe, Actéon e Calisto, enquanto Oto e Efialtes se mataram um ao outro tentando acertar a corça em que ela se transformara.
64. Entre as injustiças atribuídas aos deuses, os antigos nunca mencionam a prática recorrente de recorrerem uns aos outros como assassinos, sobretudo contra mulheres, como Dioniso pedindo a Ártemis que matasse Ariadne, Apolo que matasse Corônis e Hera que matasse Calisto, sendo Ártemis a assassina preferida, cujo arco nunca erra o alvo.
65. Algo obscuro e desprezível transparece nesse recurso, como se os deuses perdessem a coragem no momento de matar e precisassem de um cúmplice, à semelhança dos homens no instante crucial do sacrifício, sobretudo no fim de uma história de amor, quando certos acontecimentos funestos são insuportáveis até para eles, embora não os impeçam de fazer sinal ao cúmplice para agir.
66. Somente uma vez Ártemis matou sem querer, com Órion, a quem amava e talvez quisesse desposar apesar dos conflitos, quando Apolo, contrariado, desafiou a irmã a atingir o pequeno ponto negro que era a cabeça do caçador ao longe no mar cintilante e ela, para quem o arco era o próprio pensamento, a transpassou com a primeira flecha, devolvendo as ondas à praia o grande corpo sem vida.
67. Ártemis transportou Órion ao céu com seu cão, que se tornou Sírio, astro brilhante e funesto portador de febres, numa catasterização que marca o fim da era da metamorfose, pois quem já não pode ser transformado mas deve ser salvo é lançado entre as estrelas, de modo que a vida terrestre se constelou de histórias suspensas na abóbada celeste, enquanto para os védicos o espaço entre Sírio, Órion, Aldebarã e as Plêiades era a cena anterior a todas as cenas, onde entre Rudra, Prajāpati, Uṣas e os Deva atônitos se dava tudo o que era essencial saber.
68. Para os gregos clássicos Órion estava ligado a uma história fragmentada em pedaços díspares separados por vastos vazios, evitada pelos escritores, que nem sequer lhe concederam o privilégio de se tornar personagem, como se fosse remota demais, mas, sob todas as inversões, transposições e disfarces, ela permaneceu a mesma, a história do Caçador Celeste.