CALASSO, Roberto. As Núpcias de Cadmo e Harmonia. São Paulo: Companhia das Letras, 1988/1991.
SBROJAVACCA, Elena. Letteratura assoluta. Le opere e il pensiero di Roberto Calasso. Milano: Feltrinelli, 2021.
1. O sacrifício, central à reflexão de Calasso sobre a modernidade, estabelece a ligação entre A ruína de Kasch e As núpcias de Cadmo e Harmonia, cuja recriação de narrativas da mitologia grega restitui vida às antigas divindades e configura uma atividade propriamente mitográfica.
2. A autoridade do narrador aproxima-se daquela do aedo arcaico, cujo acesso privilegiado às Musas exigia a confiança dos ouvintes, pois a identificação das fontes apenas em apêndice e somente para citações literais, deixando implícitas alusões, paráfrases e retomadas narrativas, subordina o leitor à condução de um aedo moderno e confere à obra o caráter de criação mitográfica.
3. O engano constitui um tema fundamental da obra desde a narrativa inicial do rapto de Europa, na qual Zeus assume a forma de um touro para seduzi-la e levá-la consigo, retomando uma história das Dionisíacas de Nonno de Panópolis.
4. A apropriação da forma de um touro por Zeus para seduzir Europa encontra um paralelo na apropriação da narrativa de Nonno por Calasso, que seduz os leitores e os conduz através de sua composição mitográfica.
5. A manifestação das divindades gregas antecipa a reflexão de A literatura e os deuses ao vincular sua presença à necessidade de reconhecimento e à aparição de formas.
6. O reconhecimento dos deuses ocorre pela visão de uma forma cuja força estética reúne potências em uma figura, um corpo ou uma voz, embora a compreensão dessa unidade tenha se fragmentado com o tempo.
7. A soberania da mente possibilita a aparição dos deuses como visões mentais, enquanto o mito constitui simultaneamente um conhecimento anterior e superior aos demais e uma dimensão arquetípica de ações eternamente presentes, nas quais se modelam as ações humanas e se encontram as possibilidades de tudo aquilo que se pode ser.
8. A entrada no mito coincide com a exposição ao risco, quando seu encantamento passa a atuar interiormente como um vínculo mágico que envolve a existência de maneira mais profunda que uma crença.
9. A aproximação com Károly Kerényi decorre da recriação de narrativas míticas e do reconhecimento do poder supraindividual de suas imagens, mas a forma mitográfica e a resistência à interpretação pela psicologia coletiva distinguem Calasso, cuja compreensão do mito se vincula a uma concepção do Si-mesmo retomada da tradição védica.
10. Os heróis, de Aquiles a Teseu, aproximam-se dos escritores da literatura absoluta pela consciência de serem sustentados e atravessados por uma potência remota que posteriormente os abandona, fazendo da possessão por uma força superior um processo de consumação da existência e de sacrifício de si.
11. A condição do artista à margem da sociedade aproxima-se daquela dos órficos, cujo pertencimento a uma comunidade iniciática assegurava acesso exclusivo a um saber secreto e implicava um afastamento deliberado do corpo social.
12. O afastamento do mundo e a participação em uma dimensão da alma que lhe é exterior possibilitam utilizá-lo e transformá-lo com singular eficácia e liberdade, enquanto a época que já não é pagã nem cristã conserva inconscientemente esse movimento de desprendimento e fuga ao ampliar sua intervenção sobre a Terra e a Lua.