CALASSO, Roberto. LA TAVOLETTA DEI DESTINI. Milano: ADELPHI, 2020.
1. Ishtar manifesta-se no céu como Vênus, astro mais brilhante da aurora e do crepúsculo, e entre as estrelas fixas como a deusa do arco na constelação do Cão Maior, perto de seu amante Dumuzi, o verdadeiro pastor do céu em Órion, e de Ninurta, o herói da tempestade que é Sírio, a flecha, e reconhece-se também nos dois feixes paralelos de bambu, nas rosetas, nas estrelas de oito pontas e nas figuras ora vestidas, ora nuas e aladas sobre um leão, sendo ela a deusa com quem o rei escolhido, em lugar do deus, se unia num quarto com mesa de ouro e leito de linho para lhe dar prazer, como esposo amado.
2. Na partilha dos mes, os poderes, idealizada por Ea entre os Anunnaki embriagados de poder, Ishtar sentiu-se excluída por não receber função própria, pois, ao contrário dos deuses de regiões particulares, era imperial, presente em toda parte, moça que ri de coração alegre e fomentadora de lutas e massacres, imprevisível e perturbadora de todo equilíbrio, soberana sem domínio específico, a quem só pertencia o prazer sexual, indispensável e inútil, semelhante não a um deus particular, mas ao próprio divino que tudo abarca e não se deixa fixar.
3. Ea, que evitava os conflitos sabendo que nada se resolve discutindo, recorreu diante da fúria de Ishtar a um antigo ardil, criando a partir das águas secretas do Apsu um Duplo guerreiro dela, Saltu, a Disputa, com quem a deusa teria de combater antes de levar a guerra aos deuses, prova de toda a sabedoria de Ea.
4. Ignora-se quem venceu o embate entre Ishtar e seu Duplo, semelhante a um duelo com um espelho que provocou tremores e fendas por toda parte, mas, quando o silêncio voltou, Ishtar, ainda insatisfeita, tramava um plano.
5. Envolta num manto que só os deuses possuem, Ishtar desceu na Barca do Céu ao Apsu para visitar Ea, vista por muitos no trecho entre Kulaba, sua morada em Uruk, e Eridu, onde se desce ao Apsu.
6. Ishtar pediu para falar a sós com Ea, que a recebeu como sua filha prateada, e os poucos que entreviram sua passagem falaram de uma visão deslumbrante, com imensas asas luminosas abrindo-lhe caminho sobre as águas do Apsu, enquanto os servos que traziam comida e bebida relataram que Ea parecia embriagado, repetindo “minha filha” e erguendo taças de bronze com ela, sem ousar descrever seu esplendor.
7. Ninguém conhece a embriaguez melhor que Ea, que a trouxe aos deuses e a revelou a Utnapishtim como dom secreto, sem o qual este jamais suportaria ficar sozinho entre as palmeiras de Dilmun.
8. Do que pai e filha falaram durante dias e noites nada se sabe, senão que Ishtar partiu carregada de cento e cinco poderes, que viu serem colocados um a um na Barca do Céu, pois os poderes ainda não eram invisíveis como hoje, mas muitas vezes coisas tangíveis, talismãs.
9. Entre os cento e cinco poderes estavam descer ao Mundo Subterrâneo e voltar, o uso dos órgãos sexuais e a sabedoria no manejo do falo, aceitos por Ishtar, e muitos outros, a arte da madeira, a arte do escriba, a atenção, o fogo, a procriação, o juízo, a traição, o engano, as roupas negras e coloridas, o estandarte, a aljava, o beijo, a hipocrisia, a taverna, o canto, a pilhagem, o lamento, a prosperidade, a arquitetura, a oblação, a deferência, a mentira, a vitória e a maquiagem.
10. Ao despertar da letargia, Ea irritou-se por ter dado demais e enviou agentes para recuperar parte dos poderes, mas Ishtar recusou-se a negociar, deixando a palavra à fiel Ninshubur, e os agentes voltaram de mãos vazias, pois os mes eram ao mesmo tempo poderes, leis, regras e destino, objetos que podiam ser vestidos, como os sete com que Inanna desceu ao Mundo Subterrâneo, e realizados quando uma cerimônia se cumpria sem erros, sentido então evidente e hoje impossível de explicar.
11. A Barca do Céu chegou enfim a Uruk pela porta Nigulla, acolhida por uma multidão incrédula diante de tantos poderes que invadiam de uma só vez a cidade, dando à vida terrena um brilho novo.
12. Os mes obtidos por Ishtar não se limitavam a emblemas régios ou sacerdotais, incluindo também artes como prender e soltar o coque, saquear cidades, provocar discussões ou disfarçar-se, o que levanta a questão do que os mantém unidos.
13. A lista dos mes abrangia tudo aquilo de que o mundo da luz, ao qual Ishtar voltava, não podia prescindir, o tecido imperecível da aparência, incluindo desde o início a capacidade de tocar a morte sem sucumbir, precedida imediatamente pela verdade.
14. Os mes eram normas e leis, mas antes de tudo manifestações pertencentes ao caminho da vida, de modo que a falta de um único, por frívolo ou feroz que fosse, tornaria insuficiente a ordem do mundo, que de fato sempre o era, mantendo-se ordem até que algo se rompesse e tudo desmoronasse, exigindo expedientes sábios para recolocar tudo no lugar, arte dos deuses que Ea dominava melhor que todos.
15. Os cento e cinco mes tomados por Ishtar não eram os únicos, pois havia um número incontável deles, e possuí-los significava dominar toda a configuração da vida até a mínima ninharia, sendo Inanna proclamada rainha ilimitada dos mes.
16. Ninguém proclamou isso com eloquência tão singular quanto Enheduanna, filha do rei Sargão e sacerdotisa do deus lunar Nanna em Ur, que, diante da rebelião de Lugalanne, apoiado por Nanna, invocou Ishtar, a quem venerava mais que ao deus da lua, contando apenas com palavras que deviam ser precisas e explosivas para obter a resposta da deusa.
17. A invocação de Enheduanna, gravada na argila e na memória de Utnapishtim, celebra Ishtar como luz radiante dos inúmeros mes apertados aos seios, dragão que espalha veneno, rainha montada em feras e envolta em esplendor terrível, abridora da porta das lágrimas, cujos dentes quebram granito, diante de quem os Anunnaki fogem como morcegos, cujo olhar letal os rebeldes não suportam, mais alta que o céu, indomável e beleza transbordante.
18. Ishtar deve ter apreciado essas palavras talvez inéditas, mas Enheduanna foi expulsa do templo e fugiu como uma andorinha, enquanto a guerra se alastrava e Lugalanne, apesar da proteção do deus lunar, foi derrotado, pois nada basta contra Ishtar.
19. Ishtar não apenas possuía os mes, mas os usava, convertendo facilmente a palavra em ação, o que a tornava atraente e aterradora, capaz de desencadear todos os extremos e de fazer vibrar tudo ao seu redor, diante de um inimigo ou no simples contato de dois corpos, de modo que sem ela nenhum instante alcançaria a solidez e o brilho do metal.
20. Sindbad tinha uma pergunta a fazer.
21. Sindbad recordou que, ao narrar suas sete viagens, sempre alguém lhe dizia que não se pode escapar ao destino, frase que primeiro não entendera e depois julgara entender, e, chegado sem querer ao lugar de onde Ea partira num navio para fixar os destinos de muitos lugares, perguntou-se o que de fato compreendera e se aqueles lugares não tinham destino antes da passagem de Ea.
22. Utnapishtim confirmou que Ea, senhor dos destinos, partira no navio chamado Cabra do Apsu, pois todo poder, inclusive o dos destinos, nasce das águas do Apsu, recordando o momento glorioso em que o comandante Ninagirsig ergueu sua vara de ouro e os remos agitaram em perfeita cadência as águas da laguna sagrada.
23. As histórias de Utnapishtim mesclam acontecimentos posteriores à sua chegada a Dilmun, relatos ouvidos antes do Dilúvio e episódios de que participou como figurante, distinções que com o tempo se apagam, pois as histórias se encadeiam como se soubessem seu lugar desde o início, formando um único cinturão cintilante, e, afinal, de uma história não se pedem documentos.
24. Depois de milênios em Dilmun, Utnapishtim considera que as primeiras histórias a conhecer são as de Ea e Ishtar, antigamente Enki e Inanna, as mais intrincadas e antigas, cujo sentido profundo nunca tem certeza de ter compreendido, embora Ea seja seu protetor e chame Ishtar de filha, enquanto os Anunnaki se perderam numa névoa e, depois de terem feito Utnapishtim semelhante a eles, tornaram-se semelhantes a ele, sem visitantes desde Gilgamesh até a chegada de Sindbad.
25. Ávido por explorar Dilmun, Sindbad partia em longas expedições sem fazer perguntas, até que um dia voltou perturbado quase ao fim da noite e, sentado diante de Utnapishtim, que estava acordado, permaneceu algum tempo em silêncio antes de falar.
26. Sindbad, conhecido como o Marinheiro e testemunha de inúmeras maravilhas e monstruosidades, relatou ter visto algo sem nome, ao chegar, para além de uma paisagem banal, à beira de uma extensão sob luz translúcida coberta por milhares de montículos cônicos de areia e terra, todos iguais em tamanho, cor e distância, estendendo-se além do horizonte, nem deserto nem lugar frequentado por homens, uma ordem misteriosa como uma sequência de números tornada visível, na qual teve a impressão de ver o tempo, oscilando entre terror e euforia leve e louca.
27. Paralisado até a noite, Sindbad deu alguns passos e logo perdeu o rumo, até encontrar na escuridão uma barreira ainda mais escura, um denso muro de tamareiras, que lhe permitiu respirar e, com dificuldade, reencontrar o caminho da tenda.
28. Utnapishtim ouviu o relato como se soubesse de antemão tudo o que Sindbad diria e, ao fim, falou.
29. Utnapishtim declarou a Sindbad que agora ele sabia o que é Dilmun.