CALASSO, Roberto. Ka. São Paulo: Companhia das Letras, 1996/2021.
De repente, uma águia escureceu o céu, com suas penas formando uma cortina entre nuvens e terra e carregando, nas garras, um elefante e uma tartaruga.
Pendurado nas garras da águia, igualmente imenso e rígido de terror, um elefante e uma tartaruga roçavam os topos das montanhas, enquanto a ave mantinha no bico um enorme galho.
Garuḍa voava e se lembrava, tendo eclodido do ovo há poucos dias, e voar era a melhor maneira de pensar e repensar as coisas.
O primeiro olho que Garuḍa sustentou foi o de sua mãe, Vinatā, e ele soube imediatamente que aquele olho era seu.
Dos gravetos do galho pendiam dezenas de brâmanes, os Vālakhilyas, cada um não mais alto que a falange de um polegar, perfeitamente formados e quase transparentes.
Um sussurro zombeteiro respondeu: “É o que todos vocês dizem… O indestrutível é minúsculo e tênue como uma sílaba. Você deveria saber disso, sendo feito de sílabas você mesmo.”
Garuḍa voou de maneira estranha, tomando o maior cuidado para não sacudir o galho, até que seu pai, Kaśyapa, intercedeu junto aos Vālakhilyas, dizendo: “Garuḍa está prestes a realizar um grande feito. Peço-vos que se despeçam dele agora.”
Garuḍa viu os Vālakhilyas se soltando do galho como pequenas folhas secas e desaparecendo entre as folhas de grama em direção ao Himālaya.
Kaśyapa contou a história de como Indra, voltando da floresta carregado de toras, viu os Vālakhilyas tentando atravessar uma poça e, rindo, os empurrou de volta com o calcanhar.
Os Vālakhilyas ofereceram a Kaśyapa metade de seu tapas para que ele gerasse um ser que seria o flagelo de Indra, o arrogante, e Kaśyapa concordou.
O tapas dos Vālakhilyas fluiu para dentro de Kaśyapa, e Vinatá, sua mãe, sentiu prazer invadindo seus poros enquanto uma glow brilhava sob um colchão de folhas no topo de uma árvore enorme.
Kaśyapa instruiu Garuḍa a voar para o norte, para uma montanha coberta de gelo e crivada de cavernas, o único lugar onde não havia risco de matar um brâmane, para deixar o galho e finalmente comer o elefante e a tartaruga.
Enquanto Garuḍa invadia o céu, Indra lançou seu raio, que ricocheteou em suas penas, e Bṛhaspati disse: “Garuḍa não é feito de penas, mas de metros. Você não pode ferir um metro. Garuḍa é gāyatrī e triṣṭubh e jagatī. Garuḍa é o hino.”
No cume dos céus, Garuḍa encontrou uma roda de metal com raios afiados girando sem cessar e, atrás dela, duas taças de ouro que abriam e fechavam, entre as quais sibilavam duas serpentes.
Garuḍa conseguiu deslizar entre as lâminas da roda e colocar o bico entre as bordas das duas taças, arrancando o brilho que vislumbrou dentro, em um piscar de olhos.
Indra tentou impedir Garuḍa e propôs um acordo: que as Serpentes fossem comida de Garuḍa para sempre e que Garuḍa pudesse estudar os Vedas, em troca de ele não deixar que as Serpentes possuíssem o soma.
As Serpentes formaram um círculo para aguardar o retorno de Garuḍa, que depositou o soma sobre a grama darbha, mas antes que bebessem, ele as aconselhou a tomar um banho purificador.
Enquanto as Serpentes se dirigiam ao rio, a mão rapina de Indra desceu dos céus e levou o soma, e as Serpentes, ao retornarem, encontraram apenas um local onde a grama estava ligeiramente curvada.
Rapidamente, elas lamberam a grama darbha onde Garuḍa havia colocado o soma, e a partir desse momento as Serpentes passaram a ter línguas bifurcadas.
Garuḍa disse a sua mãe: “Mãe, paguei seu resgate. Você está livre agora”, e depois de vagarem juntos, ele se despediu para se esconder entre os galhos da árvore Rauhiṇa e estudar os Vedas.
Enterrado fundo entre os galhos da árvore Rauhiṇa, Garuḍa leu os Vedas por anos e reconheceu com reverência os nomes dos seres que havia aterrorizado nos céus: os Ādityas, os Vasus, os Rudras, e outros, trinta e três no total.
Os nomes giravam em silêncio, e Garuḍa experimentou uma sensação de vertigem e intoxicação, com os hinos flamejando dentro dele.
Ao chegar ao décimo livro do Ṛg Veda, Garuḍa sentiu uma mudança no vento, onde o que era afirmativo tendia ao interrogativo, e a voz que falava era mais remota e não mais celebrava.
Garuḍa leu o hino cento e vinte e um, no metro triṣṭubh, com nove estrofes, cada uma terminando com a mesma pergunta: “Quem (Ka) é o deus a quem devemos oferecer nosso sacrifício?”, seguido por uma décima estrofe, separada por um espaço ligeiramente maior, com um nome: Prajāpati.