CALASSO, Roberto. Il libro di tutti i libri (2019)
SBROJAVACCA, Elena. Letteratura assoluta. Le opere e il pensiero di Roberto Calasso. Milano: Feltrinelli, 2021.
1. As referências a Abraão, as citações dos livros da Sabedoria, do Êxodo e do Gênesis e as alusões à travessia do Mar Vermelho e à interpelação de Jó a Iahweh presentes em A ruína de Kasch delineiam, desde o início da Obra, um percurso pelas Escrituras que somente em O livro de todos os livros se transforma em uma imersão efetiva no universo das narrativas bíblicas.
2. A reescrita das narrativas do Antigo Testamento percorre e comenta amplamente o Tanakh sem assumir a forma de exegese ou ensaio, mediante uma composição estruturalmente próxima ao entrelaçamento dos mitos gregos em As núpcias de Cadmo e Harmonia e das mitologias indianas em Ka.
3. O entrelaçamento de passagens do Pentateuco e dos profetas com referências evangélicas, textos exteriores ao cânone judaico e comentários de estudiosos obedece a um princípio narrativo conduzido pelas histórias dos personagens, cuja diversidade de vozes e estilos inspira uma composição que incorpora releituras psicológicas, antropológicas e literárias ao fluxo das narrativas sagradas, aproximando o trabalho de Calasso daquele do misterioso Redator final da Bíblia e estabelecendo um percurso até o núcleo de sua Obra.
4. A elaboração de O livro de todos os livros durante a escrita de K. prolonga uma relação entre Kafka e a Bíblia já presente em A ruína de Kasch, na qual duas variantes kafkianas da história de Abraão e Isaac deslocam o cumprimento da ordem divina para a impossibilidade de concluir as tarefas domésticas ou para a suspeita de uma convocação equivocada, fazendo da vergonha de uma escolha imerecida uma expressão decisiva da dúvida sobre a eleição.
5. A dúvida sobre a eleição constitui uma inquietação corrosiva e irreprimível da qual não há saída, tornando-se o fundamento de O castelo e a razão de sua construção interminável, embora Kafka tenha apreendido com singular profundidade os traços dessa incerteza.
6. O mistério impenetrável da eleição aproxima a condição de escolhido daquela de condenado e orienta a compreensão dos personagens bíblicos pela arbitrariedade da escolha divina, como ocorre com Saul, cuja designação inesperada para o reinado de Israel, sem qualidades particulares que a justifiquem, desperta no próprio eleito um terror absoluto.
7. O gesto de Saul de esconder-se entre as bagagens manifesta o terror da eleição, antecipando uma experiência que seu povo conheceria de maneira particularmente intensa ao longo da história.
8. A eleição de Saul submete sua existência a uma vontade superior e, pela unção de Samuel, retira-o da vida comum para inseri-lo em uma história que não pode governar autonomamente, evidenciando o caráter avassalador do divino, cuja manifestação extrema na possessão reúne o máximo desequilíbrio psíquico e o mais elevado conhecimento, de modo que a escolha divina representa simultaneamente o sumo bem e o sumo mal e traz consigo uma condenação.
9. O sacrifício constitui uma exigência incontornável para a observância da Torá, compreendida como Lei suprema e onipresente, cuja oposição à lei humana evidencia a fratura aparentemente insanável entre uma visão do mundo fundada na comunicação com o invisível e outra que nega a importância dessa relação.