A gênese do mal e a criação material: Bonacursus, em sua obra Manifestatio, descreve a doutrina dos cátaros monarquianos, que atribuem a criação do corpo humano, onde um anjo de luz é aprisionado, ao Diabo. A narrativa da queda inclui a sedução de Eva pelo Diabo, gerando Caim, enquanto Abel é filho de Adão e Eva, morto por Caim. Uma lenda popular etiológica, mencionada apenas em Bonacursus e não na Interrogatio, explica a fidelidade dos cães a partir do sangue de Abel.
O Diabo é o criador de todas as coisas visíveis, sejam elas animadas ou inanimadas. Bonacursus não distingue entre “criador” e “artífice”.
A raça dos Gigantes surge da união entre as filhas de Eva e demônios, e por terem ciência da origem maligna do mundo, são destruídos pelo Diabo com o dilúvio.
Personagens bíblicos como Enoque, os Patriarcas, Moisés (seguidor da vontade do Diabo e receptor de sua Lei), Davi (assassino), Elias (abduzido pelo Diabo) e João Batista são associados ao Diabo.
No entanto, o Espírito Santo teria falado ocasionalmente através dos profetas.
Cristologia e rejeição doutrinária: A crença na concepção imaculada de Maria é presente, mas Jesus não teria um corpo físico, e sua divindade é negada (subordinacionismo). A cruz é vista como o sinal da Besta do Apocalipse.
O mito da fornicação solar e lunar: Uma inovação na doutrina monarquiana, não presente na Interrogatio, é a crença de que o Diabo é o Sol e Eva a Lua, os quais cometem adultério mensalmente. As estrelas são consideradas demônios. O produto desse coito seria o orvalho da manhã.
Moneta de Cremona também menciona essa crença, acrescentando que o orvalho resultante do coito do Sol e da Lua perde sua claridade para a recuperar no paraíso, por meio daqueles que foram gerados pela “semente angelical”.
Oposição ao dualismo radical: O De heresi catharorum não atribui um dualismo radical aos cátaros monarquianos, os discípulos de Caloiannes e Garattus, que creem em um único Deus onipotente.
A distinção entre “criador” (creator) e “artífice” (factor) era central no debate entre os “Albanenses” (radicais) e os Garattenses (pseudodualistas).
Variações na doutrina e heresiologistas: Os textos heresiológicos, como os de Raniero Sacconi, Anselm of Alexandria, e Moneta of Cremona, registram variações nas crenças monarquianas, incluindo:
Teorias da alma: Alguns monarquianos são “traducianistas” (a alma é transmitida dos pais para os filhos), como os bogomilos, enquanto outros creem na preexistência da alma (origem angelical, aprisionada no corpo), como Orígenes.
Cristologia: O “realismo” cristológico de Desiderius, que acreditava em um Jesus com corpo real, competia com o “fantasmaísmo” bogomil de Nazarius, que via o corpo de Cristo como uma aparência.
O Espírito do Mal: Alguns cátaros monarquianos falam de um Espírito do Mal com quatro faces, uma possível vaga lembrança do Rei das Trevas maniqueu descrito por Agostinho. ### Cátaros Radicais ou Dualistas: A Teologia da Existência de Dois Deuses
A dualidade dos princípios: O De heresi catharorum atribui o dualismo radical aos cátaros de Desenzano, que acreditam em dois deuses, um bom e outro mau, ambos criadores de anjos.
Lucifer, filho do Senhor das Trevas, ascende aos céus do Deus bom, seduz seus anjos e provoca uma guerra celestial.
As almas angélicas, feitas de corpo, alma e espírito, caem e são aprisionadas por Lucifer em corpos humanos, enquanto seus corpos e espíritos permanecem no céu.
Salvo Burci e a Trindade do Mal: Salvo Burci menciona uma tradição ligeiramente diferente, na qual os dois criadores coeternos possuem suas próprias Trindades e seus próprios mundos.
O Diabo, o Espírito e um terceiro parceiro, a “Trindade do Mal”, dividiram os elementos.
O Filho do Senhor das Trevas ascende ao céu com seus anjos, levando a guerra. As almas dos anjos seduzidos transmigram de corpo em corpo em busca da verdade.
Outras crenças: A negação do livre-arbítrio, a rejeição da ressurreição do corpo físico (apenas do corpo angélico ou celestial), o vegetarianismo e o antissacramentarismo também caracterizam os radicais.
A transmigração da alma é possível entre corpos humanos e animais.
O mundo é o Inferno, e não existe outro.
João de Lugio e o dualismo especulativo: O mais original pensador cátaro, João de Lugio, um ex-monge cisterciense, adota e adapta o dualismo dos dois Princípios.
Em sua escola, a distinção entre “criador” e “artífice” é irrelevante, pois o Princípio do Mal é ambos.
Ele propõe a existência de dois universos paralelos: o de Deus, invisível e incorruptível, e o do Diabo, que é o nosso.
O Velho Testamento é visto como um documento histórico, mas que se refere ao universo de Deus, onde Cristo nasceu, sofreu, morreu e ressuscitou.
João de Lugio nega a onipotência e a onisciência de Deus, que não tem o poder de fazer o mal ou de se autodestruir. ### O Origenismo e sua Influência no Catarismo Radical
A revitalização de uma doutrina antiga: O catarismo radical é visto como uma transformação do origenismo, uma doutrina antiga que ganhou nova vida em círculos ascéticos bizantinos.
As semelhanças entre o catarismo radical e o origenismo são notáveis, incluindo a preexistência da alma, a corporeidade dos anjos, a dupla criação e os universos paralelos.
O origenismo via o corpo não apenas como uma prisão, mas como um instrumento de salvação.
Pontos de contato e divergência: Apenas o subordinacionismo e a ideia da alma aprisionada no corpo são comuns aos origenistas, aos cátaros monarquianos e aos radicais.
Pierre e Jacques Authie: As pregações dos últimos líderes cátaros na Provença, Pierre e Jacques Authie, estão documentadas nos registros inquisitoriais de Jacques Fournier, que se tornou o Papa Bento XII.
Sua doutrina, voltada para pessoas simples, é uma versão popular do monarquianismo lombardo, com ênfase em narrativas míticas.
Eles professam o fantasismo bogomil e o origenismo popular interpretado como reencarnação, mas com um toque de “dualismo” em suas histórias sobre a queda dos anjos.
O mito da queda, com o Diabo oferecendo bens materiais e mulheres para seduzir os anjos, é uma metáfora para a corrupção do mundo material.
A exegese do Prólogo do Evangelho de João, que interpreta a frase “nada foi feito sem ele” como “o nada foi feito sem ele”, demonstra a visão cátara de que o mundo material é “puro nada”. ### A Essência do Dualismo Cátaro: A Disputa entre Criador e Artífice
Pseudodualismo e contradição lógica: Os radicais acusavam os monarquianos de serem “pseudodualistas” e logicamente contraditórios.
Os monarquianos acreditavam que Deus era o criador da matéria primordial, enquanto o Diabo era apenas o artífice do mundo visível.
Essa crença os colocava em contradição, pois condenavam os “trabalhos da carne” e a geração, que, em sua visão, teriam sido criados pelo Deus bom.
Dualismo autêntico: Os radicais, por sua vez, afirmavam que o Princípio do Mal era tanto o criador quanto o artífice do mundo visível, que era intrinsecamente mau.
A originalidade de João de Lugio reside em sua teoria dos dois universos paralelos, onde o Velho e o Novo Testamento seriam historicamente verdadeiros, mas não para o nosso mundo.
Essa inversão da inversão bíblica foi a contribuição mais original do catarismo para o “sistema”.